Anarriê, alavantú XV – A fundação de São Paulo, meu amor. Ficcional. Ou não. Por Rui Daher

A qualquer desses tempos gostaria de não ter nascido e viver por 78 anos longe do mar. Lá gostaria de morrer. Providenciem.

Anarriê, alavantú XV – A fundação de São Paulo, meu amor. Ficcional. Ou não.

por Rui Daher

Diz a história que a cidade de São Paulo foi fundada no ano de 1554. Relatos obtidos em sítios arqueológicos mais recentes contam que alguns padres e acólitos de expedição jesuítica, a partir das lindas praias do Gonzaga e do José Menino, cansados da mesma paisagem monótona das ondas chegando repetitivas ao quebra-mar, olhavam para aquela enorme e íngreme mata à sua frente, e se perguntavam: “Ora, ora, pois, pois, o que haverá depois desses montes? Será o mesmo que aquele por trás dos nossos?”

Há versões de que a exploração serra a topo saiu de São Vicente quando certo padre Anchieta saciava a sede em uma biquinha de água. Sei não. Que Gonzaga, José Menino (11 anos, que bolsonaristas não pensem em sinais de pedofilia, foi apenas carinho) e Anchieta do Vicente se definam. Como São Vicente fora fundada em 1578, creio que os curiosos jesuítas da Companhia tenham saído para descortinar o Planalto de Gonzaga ou Menino. De qualquer jeito é uma controvérsia que se mantém. A mesma que eu, há 78 anos, aguardo os católicos definirem se é Santa Efigênia ou Ifigênia?

Sejam vicentinos, ‘gonzaguistas’ ou ‘meninistas’, o primeiro a chegar aqui foi o padre José de Anchieta (1534-1597), nascido espanhol, e que poderia ter-nos feito uma província espanhola com o tradicional mau humor por lá vigente. Creio Anchieta ter sido minoria e a alma lusitana do “parça” do espanhol, o português padre Manuel da Nóbrega, convidado a subir a serra, logo ao chegar percebeu um campo verde, plano, e aconselhou Anchieta: “A praça é nossa”, o que iria ‘de prima’ amenizar, com humor, a suposta ranheta (?) paulistana, diante de cariocas e baianos, por exemplo.

Tendo Anchieta nascido na Espanha, teimoso como um touro, tentou tomar o lugar do verdadeiro fundador deste lugar, até por propósito linguístico. Imaginem se a língua pátria fosse o espanhol o que os argentinos já teriam feito conosco. Antecipariam o inferno que se tornaria esta plaga-praga no futuro, que disfarçamos tolerável, pois a alma lusitana e a vinda dos baratos (no custo da mão-de-obra) e valiosos (na criatividade) nordestinos deram-nos um coração mais aveludado.

Uma certeza, porém, persiste: todas as datas comemorativas paulistanas passariam a acontecer em datas terminadas com o número quatro.

Jeito feito, por exemplo, é que em janeiros terminados no número quatro, seja pelo nascimento do padre José de Anchieta, a data de inauguração da capelinha no futuro Pátio do Colégio, escolheu-se o dia 25 para descanso e comemoração.   

Pelo menos enquanto vivo estou, foi assim:

  1. no quarto centenário (400 anos, 1954) houve “chuva de prata”. Que lindo para um garoto de oito anos. Morava no centro da cidade e pequenos aviões derramavam do céu pequenos triângulos de papel laminado brilhante, iluminados por holofotes, dando impressão que chovia o valioso metal;
  2. nos 450 anos, 2004, a então prefeita e futura vice, Marta Suplicy, além de vários eventos, teve o bom-gosto de prestigiar a literatura e promover um concurso de crônicas com o tema “Cidade de São Paulo”;
  3. os vencedores e os selecionados por um júri de bons escritores, além de prêmios, constariam de um livro comemorativo;
  4. assim foi, tô lá. O pequeno cronista não venceu, mas foi selecionado, participou do livro e da Feira do Livro de 2004, coma crônica “Onomatopeias de uma Cidade”;

Queria mais, eu? Sim.

“Uma provisão de 1544, assinada por Ana Pimentel, nomeou Brás Cubas, Capitão-mor da Capitânia de São Vicente, que proclamou, em definitivo, a independência de Santos, dando-lhe foros de Vila a 1º de novembro de 1546. Distrito criado com a denominação de Santos em 1747”.

A qualquer desses tempos gostaria de não ter nascido e viver por 78 anos longe do mar. Lá gostaria de morrer. Providenciem. Terei um grande papo com um padre português e outro espanhol. Prometo contar tudo o que descobri.

Inté!

Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor

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Rui Daher

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