Grandes passos atrás
por Rui Daher
As folhas e telas cotidianas nacionais inundam-nos de águas pluviais, fluviais e marinhas, juntas e misturadas em lama, sujeira, erupções de bueiros, cocôs humanos e de ratazanas, cavalos subindo em telhados e andares superiores de edifícios para espiar, das janelas, a tragédia de cachorrinhos desesperados, procurando guarida em afetos milenares conquistados por sua docilidade com humanos do bem.
Não param. Nem a tragédia e nem as reportagens. Escrevi sobre o assunto também para CartaCapital. Para quem tiver paciência … (https://www.cartacapital.com.br/opiniao/a-tragedia-do-rio-grande-do-sul-precisava)
E cá entre nós, dificultosos humanos, dizem-nos estarmos polarizados. Antes, discutimos e cobramos “pedra de responsa” das autoridades incumbentes que nós mesmos escolhemos para prevenção e proteção de eventos naturais, diferente das empresas seguradoras, espertas, que se aproveitam em cláusulas escritas em letras microscópicas, nunca lidas, mas assinadas “com exceção em caso de acidentes naturais”.
Os governos poderiam assinar o mesmo?
Sim, você votou para governador do RS em Eduardo Leite (PSDB). Há anos, crente e prevenido, segurara sua casa, contra perdas e danos materiais. Pouco ligou para “com exceção em caso de acidentes naturais”.
Brasileiro, sempre bem cuidado por Deus, se cauteloso, perguntou a Alcides 51, amigo de boteco e sinuca o que significava aquela exceção?
– Uai, seu Irineu, nessa idade (79) ainda não sabe? Sei que gosta de repolhos. Pense em 50 toneladas de repolhos caindo sobre sua casa. Natural, não? Já viu chover verduras e legumes? Outra: aquele churrasquinho de domingo na laje de sua casa?
Contou-me: recebeu telefonema (provavelmente de alguma penitenciária) que ganhou uma barra de ouro no “Milhão do Huck”. Apressado, convidou o bairro inteiro para subir à laje, pois iria oferecer o maior churrasco do pedaço. Estavam todos convidados. Admissão: uma dúzia de cervejas (marca conforme o bolso) e duas garrafas de ‘Velho Barreiro’. Som? Claro, o conjunto do “Dostô e o Samba Raiz”. Pianista, na infância, os pais diziam: “Este menino será um Dostoiévski”. Ficou Dostô.
Com o peso, a laje cedeu. É natural. Logo, depois do RS, nas apólices de seguro, constará “exceção a casos de mudanças climáticas”. Pensou a polêmica sendo levada à Cooperação das Partes (COP)?
A gauchada (minha mãe, alguns tios e primos nasceram nos pampas veríssimos) se justificaria pelo DNA ou pela fábula do sapo ajudando o escorpião atravessar a lagoa, é da minha natureza”. (Atenção seguradoras, não esqueçam de incluir escorpiões, cobras, bolsonaristas como ‘causa natural’.
Assim os gaúchos podem estar pagando pela prepotência histórica e separatista e conflitos com seus dominadores e vizinhos, sempre em combates bélicos, irmãos ou não, a que pouco importavam perdas de vidas e pertences territoriais. Posso acreditar que o motivo, não sendo de ‘alma’ étnica, seja por sua condição fronteiriça.
Uai, mineiros, não estranhem, uai, quem depois das últimas eleições presidenciais sugeriam botar fogo no Nordeste, desgostosos da vitória de Lula? Esqueceram que o sumo da cultura brasileira iria junto, como em “Fahrenheit 451”, livro de Ray Bradbury (1953), e filme de François Truffaut (1966). Seria doloroso ver queimar as obras de Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, a música da Bahia ao Amazonas, as fotos de Pierre Verger, os filmes de Glauber Rocha. Tudo queimado, revolta por um Lula Presidente?
Todas as espécies do planeta têm sido atingidas e continuam causando outro tipo de espécie, um estranhamento tardio, descoberto como ‘mudanças climáticas’, imutáveis por séculos. e que assim como as que se foram, logo estarão banalizadas ou, pior, justificadas em todo o mundo … como não ocorrendo só no Brasil. “Se é bom para os EUA [mundo] é bom para o Brasil”.
Não é, nunca foi, e nunca será, pois, o Brasil, queimado pelo Sul revanchista e separatista já escolheu destruir o Nordeste sem perguntar se os demais concordam. Pelas doações solidárias, creio, que apenas pelo catolicismo esquecemos nosso ideal principal, o bolsonarismo intrínseco que o Brasil carrega.
É o que somos. Inté! Mas ao arrepio da lei.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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DOUGLAS BARRETO DA MATA
29 de maio de 2024 7:23 amCaro Rui,
Empresas são empresas.
O que você esperava?
Um capitalista bonzinho?
O problema é a frouxidão de quem deveria colocar essa turma no cercadinho, ou melhor, na jaula.
O Estado, e nós, sociedade.
Qualquer rábula ou juiz de Jequitinhonha sabe que não existe “acidente” e muito menos, natural, já que todos os eventos extremos têm causa (humana) e são anti naturais.
Mas faltam cojones.
Moacir Rodrigues de Pontes
4 de junho de 2024 8:17 pmDesculpe me, mas o que você esperava?… Um Estado com cojones que respondesse ao povão e não às grandes empresas (nacionais e estrangeiras) e aos latifundiários?… Uma graça do Deus de Israel?…
E nem todos os eventos extremos têm causa humana… Por exemplo, foi um evento natural que transformou a região do Saara, antes verdejante e pleno de vida, num grande deserto. Estudiosos acreditam que vários povos que lá viviam, por uma questão de sobrevivência, migraram para as margens do Nilo. E lá, posteriormente deram origem a uma das mais antigas civilizações do mundo. Ah!…sim, sou um velho aposentado que gosta de ler.