19 de junho de 2026

Textos que guardamos para um momento da vida ou para a vida inteira, por Maíra Vasconcelos

Textos que voltamos a ler e reler com a esperança de que, cada vez, conseguimos incorporar um pouco mais essas palavras e fazê-las nossas.

Textos que guardamos para um momento da vida ou para a vida inteira

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por Maíra Vasconcelos

Um texto pode servir para um momento da vida como também para uma vida inteira. O que quero dizer é sobre essas predileções leitoras. Poemas, determinados versos, trechos de livros, versos de uma música, capítulos de novelas ou novelas inteiras. Textos que sempre voltamos a ler e reler com a desesperada esperança de que, cada vez, conseguimos incorporar um pouco mais essas palavras e fazê-las nossas. A ponto de que possamos agir, pensar, viver melhor se temos bem apreendido tal texto.

Mas, contradizendo exatamente essa afirmação, volto a um texto que li apenas algumas vezes. Mas, talvez, não tantas vezes. Quer dizer, me veio à mente como quem sabe que ali está retido algo sobre o qual quero voltar. Palavras que pedem nosso retorno a elas.

O texto “Quem diz eu” está nos Diários de Emilio Renzi, de Ricardo Piglia. É o prefácio escrito pelo autor para uma antologia chamada “Eu”, publicada em 1968, mas que acabou selecionado e introduzido como uma espécie de “capítulo”, no final do primeiro volume dos diários, “Anos de formação”. Mas me lembrei desse texto ainda sem saber precisar exatamente o porquê desse retorno.

Então, volto a “Quem diz eu”, coisa que faço para escrever essa espécie de crônica. E assim começa. “Como nos ensina a linguística, de todos os signos da linguagem, o Eu é o mais difícil de controlar, o último que a criança adquire e o primeiro que o afásico perde”. O texto fala sobre a autobiografia, sobre o fato de se escrever as experiências vividas, e como as mesmas estão submetidas aos estatutos da linguagem. Assim, o que se tem é a comunicação do vivido, já não exatamente aquilo que foi vivido. Enfim, mas sou capturada e me detenho apenas nesta parte e a repito, “o Eu é o mais difícil de controlar”.

O texto reafirma a dificuldade de se controlar o nosso “eu” na hora de escrever. Bom, como cada leitor faz do texto o que quer, incluo neste dito “eu”, sua relação com a consciência, a inconsciência, o desejo. E falo aqui sobre viver e não sobre escrever. Era atrás disso que estava quando buscava hoje uma leitura. Algo que falasse sobre aquilo que nos escapa, insistentemente. “|O Eu é o mais difícil de controlar”. Leio como quem diz, lembre-se, isso é assim, isso funciona assim. No ato de viver, o “eu” não funciona, às vezes, sim, às vezes, não. Como o corpo, às vezes, sim, funciona, às vezes, não. E claro que tudo isso acontece e se expressa sempre e quanto mais tentamos e nos esforçamos para viver.

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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