4 de junho de 2026

Pai do campo, filho na cidade, por Magali Romboli

Sabia bem o quanto a natureza das coisas não era serena, firme como um jatobá, frágil como um arrozal, arando o seu e o espírito alheio

Pai do campo, filho na cidade, por Magali Romboli

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A distância tem um efeito mais do que terapêutico, quando se vive em São Paulo e seus pais, no interior. Depois dos 40 ser hipócrita é algo inaceitável, por mais que seja um hábito, então mesmo que diariamente fossem inúmeros os  relatos de problemas e dos causos, a distância abastece a capacidade de compreensão e o amor prevalece, ao contrário de quem vive, quase que no mesmo logradouro de seus familiares.

Desta vez o caminho da roça, tornou-se um vasto túnel do tempo, mesmo que os olhos estivessem fixos nos mais de 400 quilômetros de estrada, a mente divaga. Não precisa ser Einstein para saber que é possível estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, sem que isto seja relativo.

De longe, ele parecia ser rude, mas quem manteria a delicadeza ao ser mestre do farpado, laçador de gado desgarrado, plantador de hectares de grãos e hortas.

Como quase todos que vivem no campo, casou-se cedo, logo vieram os filhos, que eram ao mesmo tempo um primor, um fardo, uma alegria que reunia a todos para o trabalho. Seu refinamento jazia no sabor do queijo curado, do cabelo alinhado no corpo suado, roupa desgastada e sempre bem passada.

Seu pai era um homem do campo,  forjado  no arado e acolhido no céu estrelado.  Ele não dizia, mas sonhava em profundidade, vivia a virtude secreta da abundância. Seus maiores segredos esconderam-se nele mesmo.

Assumiu tudo o que sentiu, de descrente ao fervor, arriscou dizer que se jovem fosse, jamais se casaria. Coisa que a mãe sempre duvidou. Destituiu-se do convívio natural para uma existência mórbida quase artificial, e mesmo assim manteve-se original. 

Sabia bem o quanto a natureza das coisas não era serena, firme como um jatobá, frágil como um arrozal, arando o seu e o espírito alheio, ceifando sem querer seus amores e relacionamentos, tentando não sofrer sendo ferido.

Ao volante, o filho que já era pai, pôde sentir a terra arder-lhe às vistas e as águas brotaram em sonhos. Esta viagem tão longa não era para rever o pai queixar-se das dores e assobiando alívios.

O longo trajeto era para chegar a um lugar incerto, de um filho que nem precisava de ter ido, mas foi, do silêncio cortado que não poderia mudar as coisas, agora à beira de sua casa, que já nem era mais sua,  em um grande alívio lembrou, a seu modo, da poesia de um filósofo-poeta, também filho do campo:

“Sei viver a dialética das extensões campestres e bosquivas, sinto comigo planícies e campos. Naquele bosque que conheço meu pai (avô, no original) se perdeu. Minhas lembranças mais antigas nem tem cem anos. Eis aí minha floresta ancestral”.

Todo filho letrado que nasceu no campo e mora na cidade devia de ler Gaston  Bachelard. Na vida dos sem-tempo falta arte, poesia e coisas bonitas. Se eu fosse  ministra, todo dia teria  pronunciamento nas redes, com música, poesia, pintura, filosofia e muita letra de verso,  nada disto enche a barriga do povo, mas nutre o espírito para a lida, porque a vida no campo nem é mais com radinho de pilha.

Magali Romboli é jornalista e pesquisadora em Educação Popular e Culturas

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. KATSUE HAMADA E ZENUN

    19 de julho de 2023 11:13 pm

    Magali nos presenteia com sua crônica/poesia que toca fundo no coração, pripalmente daqueles que nasceram no campo, com horizontes sem sim, para morar e trabalhar na cidade, com horizontes delineados pelo concreto. Obrigada, Magali!

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