A presença do general De Gaulle no Brasil em 1964[1]
por Daniel Afonso da Silva
Foram de júbilo aqueles dias 13, 14 e 15 de outubro de 1964 em que o general de Gaulle deu de passar pelo Brasil – Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo. Multidões invadiram ruas e praças para avistar seu cortejo. Os mais emotivos não contiveram o chorar. O cais da Guanabara foi onde tudo começou. O homem do 18 juin, herói da France libre, vinha do mar. Tinha saído do Paraguai no domingo, 11 de outubro, a bordo de seu cruzador Colbert. Era esperado no Rio de Janeiro pelas 11h da manhã da terça-feira, 13 de outubro. Autoridades marinheiras monitoravam sua chegada por instrumentos de comunicação e radar. Sabiam que ele não tardaria a chegar. O tempo era instável. Chuva forte com vento era prevista. Mas, pelo momento, somente neblina. Embarcações brasileiras, desde cedo, acompanhavam a nau francesa do general. Quando apontaram na Guanabara sabia-se que sua chegada estava por pouco. As forças foram todas postas em formação. Coronéis e generais foram autorizados a ir à praia contemplar. E, com certeza, foi-lhes inesquecível ver o general aportar. O presidente brasileiro, o marechal Castelo Branco, experiente e disciplinado militar, cumpriu sem tensão o protocolo. Aguardou circunspecto em uma tenda preparada especialmente para a ocasião. Foi o general francês quem primeiramente o saudou com a continência. De sua parte, o marechal anuiu. Diferente do general, o marechal trajava civil. Diferente do marechal, o general portava boné. O ritual de começo previa passar a guarda, fazer discurso, flanar pela antiga capital brasileira, eterna “cidade maravilhosa”, em carro aberto. Assim foi feito. Palavras de afeição emanaram das duas delegações. Do marechal brasileiro vieram moções de boas-vindas. Do general francês, gestos em retribuição. O desfile iniciou na Av. Rio Branco. No carro aberto com o general foram o marechal e o coronel, chefe da Casa Militar, Ernesto Geisel. Foi aí que o homem de estado francês constatou a força de seu prestígio também em terras brasileiras. Entre aplausos e acenos ele percebia o carinho da gente desse país que seus compatriotas haviam imortalizado ora como “terra de contrastes” ora como “tristes trópicos”.[2]
Após deixar flores no monumento aos mortos na segunda guerra, ele partiria para Brasília. E, a essa altura, por certo, já tinha incorporado o “Sinta-se Gen. de Gaulle como se estivesse em sua casa” indicado no editorial da Folha de S. Paulo daquele dia.[3]
Diferenças entre o Rio e Brasília eram muito visíveis. Primeiro na arquitetura. Depois no descampado. Mas o entusiasmo do público seguia similar. Multidões exibiam cartazes com dizeres de afeto à França e ao general. Mas o primeiro movimento foi o momento dos batedores que conduziram a comitiva do líder francês ao Congresso Nacional, à Universidade de Brasília, ao Palácio do Planalto. A franca totalidade da classe política brasileira em atividade se fez notar nesse dia histórico carregado de simbologias. No jantar de honra ofertado pela presidência Castelo Branco, ninguém do oficialato majoritário desde o último abril-maio daquele ano de 1964 esteve ausente. O general Artur da Costa e Silva, por exemplo, esteve lá. Orlando Geisel, chefe da primeira região militar, também. Ministros de vulto e importância como Vasco Leitão da Cunha e Luiz Vianna Filho também. Todos acompanhados de suas mulheres ou consortes. E entre essas mulheres o assunto da noite não seria outro senão a imponência e a dignidade de dona Yvonne de Gaulle que iria estampar os jornais e revistas dos dias e meses seguintes.[4]
Na quarta-feira, 14 de outubro, era possível ler chamadas como “De Gaulle chega hoje em SP” em todos os diários paulistas.[5] O governador Adhemar de Barros havia promovido esse momento com empenho e antecedência. A expectativa era altíssima. Vista a comoção no Rio e em Brasília, São Paulo, para ele, não poderia deixar por menos.
Após seu esperado discurso no Congresso Nacional, o general, agora também doutor honoris causa pela recém-criada Universidade de Brasília, partiu, então, para São Paulo, onde seria recebido na mais intensa emoção. Batedores e cavalaria seguiam o desfie em carro aberto pelas principais ruas do centro da cidade. Chuva de papel caía dos edifícios. O governador demonstrava e percebia aí também o seu prestígio. Funcionários públicos foram reunidos para ver o cortejo passar. Empresários e notáveis foram convidados ao encontro de honra promovido no Jockey Club.[6] Membros da comunidade francesa no Brasil também foram consultados. O general depois falaria a eles em separado. De volta ao Rio de Janeiro, após 22 horas em São Paulo, o líder francês iria, enfim, confabular, em pessoa, com seus enviados nessas terras tão distantes. Iria à Maison de France na Gávea. Mas também falaria aos colegas de caserna na Escola Superior de Guerra antes de retornar ao velho mundo, à França com seus eternos problemas.
Essa passagem do general pelo Brasil foi sua primeira e única. Mas sua presença já se fazia notar havia tempos.
Ao menos desde os anos de 1940, com a resistência liderada por de Gaulle frente à ocupação nazista da França, que o nome do futuro general passava ao conhecimento e à preocupação dos brasileiros.
Primeiro e formalmente, a partir da tentativa de instauração de Comités de Gaulle pelo país desde 1941.Depois e paralelamente, quando da gestão da situação dos enviados brasileiros em Vichy, e notadamente mediante a atuação do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas. Em seguida e oficialmente, quando da libertação de Paris em 1944 e da conseguinte correspondência entre de Gaulle e o presidente Getúlio Vargas para o estreitamento da relação entre os dois países. Em seguida e não desimportante, com a carta-saudação do presidente Juscelino Kubitschek ao general de Gaulle em menção ao retorno do francês à vida pública e política de seu país em 1958. Doravante, o presidente-general francês já dispunha de notoriedade mundial. Era muito reconhecido como o responsável pela libertação da França. Era claramente entendido como o homem do 18 juin, o herói da France libre. Tornara-se, portanto, natural que, na condição de presidente de seu país, fosse enfaticamente convidado por outros chefes de estado. No caso do Brasil, o convite mais enfático viria do presidente João Goulart. Uma vez aceito o convite, representações diplomáticas dos dois países iniciariam um minucioso processo de preparação da viagem e recepção do general em terras brasileiras.
Essa viagem do general, como amplamente sabido, não dispunha de maiores pretensões além de restabelecer contatos eventualmente rompidos e esmaecidos pelos anos de guerra. O Brasil, na impressão da diplomacia francesa e do próprio general, era um país distante e fora do eixo estratégico dos franceses. Imerso no regime militar, o Brasil, nesse sentido, ficaria ainda mais distante. Especialmente no plano político. Não ao acaso, após essa visita do general em 1964, algum interesse político francês pelo Brasil – uma vez que interesses econômicos e culturais sempre existiram – seria sinalizado apenas a partir fundação da nova república com a eleição do presidente Tancredo Neves em 1985.
[1] Uma versão ampliada deste artigo foi publicada em SILVA, Daniel Afonso da. A presença do general (ou notícias da visita do presidente Charles de Gaulle ao Brasil em outubro de 1964). Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 8, n. 19, pp. 307-337. set./dez. 2016. [vide https://revistas.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180308192016307/6363 ].
[2] Ernesto Geisel, Castelo Branco e outros por ocasião da visita de Charles de Gaulle ao Brasil. Arquivo Ernesto Geisel – EG foto 0664. CPDOC/FGV.
[3] Folha de S. Paulo, 13/10/1964. p. 2.
[4] A imprensa brasileira e a visita do general Charles de Gaulle ao Brasil. Archives Nationales de France, AG/5(1)/130.
[5] Folha de S. Paulo, 14/10/1964. p. 1.
[6] Ernesto Geisel e outros por ocasião do jantar de homenagem a Charles de Gaulle. Arquivo Ernesto Geisel – EG foto 1234. CPDOC/FGV.
Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.
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GalileoGalilei
27 de abril de 2024 4:07 pm“Iria à Maison de France na Gávea.” ???!!!
Que história mal contada é essa? Maison de France na Gávea? Uma versão mais ampla deste artigo foi publicada em 2016 e ainda não houve uma revisão, mínima que fosse, do texto?