O presente de Charles de Gaulle ao Brasil que a ditadura não quis receber, por João Augusto de Lima Rocha

Quem conta a história esteve pessoalmente envolvido no episódio; trata-se do internacionalmente renomado físico e professor brasileiro Roberto Aureliano Salmeron

Foto Jean Manzon

O presente de Charles de Gaulle ao Brasil que a ditadura não quis receber

por João Augusto de Lima Rocha

Segundo saiu na imprensa, recentemente, com certo alarde, a senhora brasileira Lilly Safra que, a despeito de nunca ter plantado nada no chão de seu país, colhe continuamente vultosa safra monetária, através do banco de investimentos de seu bilionário ex-marido, acaba de anunciar a doação pessoal de milhões de euros para a  recuperação da catedral Notre Dame, após o recente incêndio.

Por outro lado, poucos sabem, mas o grande herói da resistência e da libertação da França do jugo do nazismo de Hitler, Charles De Gaulle, que foi presidente da França, após a II Guerra Mundial, realizou o contrário, isto é, aceitou fazer uma doação muito significativa ao Brasil,  anunciada durante a visita que fez a nosso país, poucos meses depois do golpe militar de 1964.

Quem conta a história esteve pessoalmente envolvido no episódio; trata-se do internacionalmente renomado físico e professor brasileiro Roberto Aureliano Salmeron que, com Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, teve importante participação no processo de implantação da Universidade de Brasília. O relato encontra-se em seu livro imperdível, A universidade interrompida: Brasília 1964-1965 (Editora da UnB, 2ª ed. 2007), em que  explica detalhadamente o que ocorreu em torno do desmonte criminoso do projeto original da UnB pela ditadura militar.

Em abril de 1964, meses antes da visita de De Gaulle ao Brasil, o governador Carlos Lacerda, tido como um dos chefes civis do golpe contra o presidente constitucional João Goulart, e virtual candidato a presidente da República, esteve de passagem pela França, onde deu declarações públicas extremamente inadequadas e até ofensivas ao povo francês, a exemplo da relatada pelo jornal de extrema-direita L’Aurore, na edição de 24 de abril de 1964:Os comunistas, no Brasil, nós não os matamos. Expurgos? Nós os fizemos, certamente menos que vocês na Libération. Nós não fuzilamos ninguém, e no entanto para nós também era a liberação”.

Continua o relato de Salmeron: “Ora, o presidente da França era o general Charles de Gaulle, herói nacional, organizador da resistência às forças armadas da Alemanha nazista, que, além de ter o prestígio militar e moral de libertador, desempenhou papel relevante na reconstrução do país depois da guerra. O general não perdoou a Carlos Lacerda. Demonstrou sua aversão ignorando-o durante a visita que fez ao  Brasil seis meses mais tarde, de 13 a 16 de outubro de 1964. Recusou qualquer contato com o Rio de Janeiro. No dia de sua chegada, o presidente Castelo Branco ofereceu-lhe uma recepção, mas num navio da Marinha ancorado na baía de Guanabara, para evitar a presença do governador”.

A renovadora Universidade de Brasília, cujos cursos foram iniciados em 1962, era considerada “o mais importante projeto da intelectualidade brasileira”, na síntese precisa de Darcy Ribeiro, o primeiro reitor, que cedo foi sucedido na Reitoria pelo vice, Anísio Teixeira. Anísio estava no exercício da Reitoria, quando foi truculentamente retirado do cargo, no dia em que a força bruta militar agiu, de surpresa, sobre a universidade, batendo, prendendo e insultando a comunidade universitária, imediatamente depois do golpe, no dia 09  de abril de 1964, o mesmo em que foi editado o Ato Institucional nº 1.

Retomemos o relato de Salmeron: “Além de bom estrategista, o general (De Gaulle) era político hábil e homem culto. Percebeu que a universidade poderia dar-lhe a oportunidade de completar a estada no Brasil de maneira elegante. Quando nos fez saber que desejava visitá-la, fez-nos saber também que queria proferir no campus o seu único discurso público no Brasil, dirigido aos jovens. Com isso faria um gesto cultural e ao mesmo tempo resolveria um problema político: falando na universidade, evitaria falar no Congresso, num período em que o País caminhava para a ditadura”.

Segue, Salmeron: “Em reunião do reitor Zeferino Vaz com os coordenadores ficou decidido que, dentro de nossas modestas possibilidades, procuraríamos homenagear Charles de Gaulle conferindo-lhe o título de Doutor Honoris Causa, o primeiro que seria outorgado pela universidade”.

“No entanto, surgiu um grande problema: três dias antes da visita, o adido cultural da França, muito amigo da universidade, passou a informação de que, por princípio, De Gaulle não aceitava o título de  Doutor Honoris Causa, pois já o havia recusado em várias ocasiões. No entanto, adveio uma boa surpresa, em dose dupla, anunciada logo a seguir pelo próprio adido cultural: o presidente De Gaulle, não só aceitou receber o título, como anunciou que queria dar um presente à UnB, que deveria ser sugerido pela direção da universidade”.

Segue o relato de Salmeron: “Quando perguntamos ao adido cultural o significado de ‘grande’, em ‘grande presente’, respondeu-nos que não devíamos pedir livros ou revistas, mas algo de vulto, duradouro. Por exemplo, um laboratório. É provável que De Gaulle tenha decidido deixar na universidade uma forte marca do governo francês, por ter sido informado das doações significativas feitas pelos governos alemão e britânico, pela Fundação Rockefeller e pela Fundação Ford”.  

Surpresos e preocupados, pois dispunham de somente um dia para elaborar um pedido com argumentos sólidos, os professores encarregados de definir o presente, segundo Salmeron, resolveram fazer um pedido que iria servir ao Instituto de Física. Seria solicitado como presente ao general De Gaulle um cíclotron, máquina tão importante quanto cara, essencial para o desenvolvimento de pesquisas de ponta na área da física nuclear.

Segue Salmeron, em seu relato: “Sondamos a possibilidade com o adido cultural, por telefone. O general De Gaulle seria consultado pelo embaixador naquele mesmo dia, pois decisões importantes não são tomadas em reuniões formais. Se estivesse de acordo, faríamos essa sugestão. O general concordou. Durante a visita, no dia seguinte, o reitor fez o pedido oficial. O ciclotron seria oferecido como presente. As instalações periféricas, indispensáveis a seu funcionamento, não seriam doadas, mas fornecidas pelo governo francês, que a universidade reembolsaria em condições excepcionalmente vantajosas: o pagamento começaria a ser efetuado dez anos depois, em prestações anuais durante dez anos, sem juros e sem correção monetária devido à pequena inflação na França. A universidade seria responsável pela construção civil, instalações elétricas e acessórios”.

Por fim, o professor Salmeron, que se demitiu da UnB em outubro de 1965, junto com 223 colegas, cerca de  80% do professorado, em protesto contra a ingerência indevida dos militares golpistas no dia a dia da universidade, em desrespeito absoluto a sua autonomia, relata: “Nunca soubemos se, depois de nos demitirmos da UnB, a Embaixada da França continuou os contatos com a universidade sobre esse assunto. Imaginamos que não. O resultado final é que o presente oferecido por Charles de Gaulle não foi concretizado”.

 

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