21 de maio de 2026

Dona Joanita e a prática da Lezeira familiar, por Eduardo Pontin

“Queria sê um truvão / Pra de longe’ustremecê  / Pra fazê pena e saudade / Ô linda rosa! / Pra vê meu benzim sofrê”
Dona Joanita sorri ao lembrar da Lezeira de sua juventude | Foto: Francisca Sousa

Série Piauí Cultura Regional (XVI)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Dona Joanita e a prática da Lezeira familiar

Cantadeira aprendeu a brincadeira com os pais e ensina filhos e netos

por Eduardo Pontin

Dona Joanita (Joana Maria da Conceição, 12/1/1961) é cantadeira de Lezeira do Assentamento Pinga, município de Itainópolis (cerca de 400 km de Teresina). No povoado onde reside, ela e sua irmã mais velha, Dona Conceição (Maria da Conceição Neta, 13/7/1945), são as responsáveis por levar adiante a brincadeira da Lezeira para as novas gerações. Com rodas que acontecem espontaneamente, a brincadeira tem permanecido viva por meio da voz de Dona Joanita.

A Lezeira andava esquecida há alguns anos atrás, porém, cada vez mais vem ganhando reconhecimento cultural e hoje pessoas de outras regiões que visitam o Assentamento Pinga logo pedem para que Dona Joanita e Dona Conceição apresentem uma roda de Lezeira. Para isso muito contribui as atividades religiosas que acontecem na capela do assentamento. A Lezeira é uma brincadeira tão ingênua que após as obrigações religiosas, logo o povo do Pinga trata de afastar as cadeiras da igreja para que uma roda se forme a fim de que as pessoas presentes possam se divertir. No mesmo local onde se alimenta a alma com a palavra de Deus, se alegra o espírito com a dança da Lezeira.

Dona Joanita (esq.) na igreja do Assentamento Pinga: palco de rodas de Lezeira

O Assentamento Pinga fica localizado no topo de um morro, a pouco mais de 20 km do centro da cidade de Itainópolis. Para chegar lá, é preciso percorrer uma estrada estreita que beira um penhasco. O Pinga é formado quase por uma família só, por isso, quando se quer brincar a Lezeira, rapidamente uma roda é formada. Esse fato possibilita uma continuidade da prática cultural da Lezeira de modo ancestral. Afinal, a Lezeira passa a ser quase uma brincadeira familiar, passada de geração para geração.

É Dona Joanita mesmo quem comprova esse fato. Quando eu e a jornalista Francisca Sousa estivemos no Pinga em 2021, Dona Joanita embargava facilmente a voz ao entoar cantigas de lezeira. E logo se justificava: “É que a Lezeira faz parte da família da gente que não existe mais”. Porém, o gesto de Dona Joanita e sua irmã Conceição de ensinarem a Lezeira as pessoas mais novas de suas famílias faz com que essa história seja continuada.

O difícil é se esquecer das rodas de Lezeira dos tempos de juventude, quando os pais, irmãos e primos de Joanita brincavam todos juntos, numa harmonia que não existe mais nos dias de hoje. A tristeza da partida de entes queridos é algo que envelhece a alma. Entretanto, quando as netas e os netos chamam Dona Joanita para brincar Lezeira, naquele momento a cantadeira ganha alma nova e seu espírito se renova.

A voz de Dona Joanita aliada a de Dona Conceição é de um entrosamento sonoro raro. As cantadeiras sabem o que fazem, inclusive, entoam cantigas de Lezeira que não se escutam em mais nenhum pedaço de chão do sertão do Piauí:

“Queria sê um truvão / Pra de longe’ustremecê  / Pra fazê pena e saudade / Ô linda rosa! / Pra vê meu benzim sofrê”.

Com Dona Joanita e Dona Conceição, a continuidade da Lezeira como prática familiar está garantida.

Leia também:

Eduardo Pontin

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados