A Americanas S.A. protocolou nesta quarta-feira (25) o pedido de encerramento de sua recuperação judicial na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. O movimento ocorre dois anos após a deflagração de um dos maiores escândalos corporativos da história do país, marcado por uma fraude contábil estimada em R$ 20 bilhões que expôs um rombo total de R$ 42,5 bilhões em dívidas — episódio que o GGN acompanhou desde o início como um marco de falha sistêmica na governança corporativa brasileira.
A petição abrange não apenas a holding, mas também as subsidiárias B2W Digital Lux, JSM Global e ST Importações. Segundo fato relevante enviado ao mercado, a varejista sustenta que foram “cumpridas todas as obrigações previstas no Plano de Recuperação Judicial”, com vencimento no prazo de até dois anos após a homologação.
Desinvestimento da Uni.Co
Como parte da estratégia de simplificação da estrutura e geração de caixa, a companhia confirmou a venda da Uni.Co, dona das marcas Imaginarium e Puket, para o grupo BandUP!, controlador da Piticas. A operação foi fechada por R$ 152,9 milhões.
O desfecho da venda ocorreu após uma disputa jurídica. Durante o processo, a Americanas chegou a receber uma proposta superior, de R$ 155 milhões, mas a oferta foi desclassificada por descumprir requisitos do edital judicial. Com a homologação, a varejista se desfaz de um ativo considerado não essencial e reforça o foco nas operações centrais de varejo.
Reestruturação sob pressão
A tentativa de encerrar a recuperação judicial reflete o esforço da nova gestão em normalizar relações com fornecedores e instituições financeiras. O plano de reestruturação foi ancorado em um aporte de R$ 12 bilhões dos acionistas de referência, Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, somado à conversão de outros R$ 12 bilhões de dívidas em ações.
Para a atual administração, liderada pelo CEO Fernando Soares, o pedido representa um marco da transformação operacional. Ainda assim, os efeitos da crise permanecem evidentes.
A rede foi significativamente reduzida: de 1.855 lojas no início do processo para 1.470 unidades ao fim de 2025. No digital, a mudança foi ainda mais profunda. A empresa encolheu sua operação própria, reduziu estoques e passou a atuar como vendedora em plataformas concorrentes, como o Magazine Luiza, em uma estratégia de menor risco operacional e menor necessidade de capital.
Saída formal, passivo aberto
O pedido de encerramento não é automático. Caberá ao juiz responsável intimar o Ministério Público e os administradores judiciais, que deverão emitir pareceres sobre o cumprimento integral das obrigações previstas no plano.
A tentativa de encerrar o processo, porém, não elimina o passivo reputacional e jurídico do caso. As investigações sobre a fraude que desencadeou a crise seguem em curso. Ex-executivos continuam sob apuração por autoridades brasileiras e internacionais, em processos que buscam individualizar responsabilidades pelo colapso contábil que abalou o mercado de capitais em 2023.
Ao sair da recuperação judicial, a Americanas deixa para trás a proteção formal da Justiça, mas ainda terá de provar, fora dela, que é capaz de sustentar um modelo de negócios sem repetir as distorções que a levaram ao colapso.
Evandro Condé
26 de março de 2026 10:52 amDesconfianças? Deve ser piada. Duas auditorias internacionais passaram em branco, se me explicar como, aceito o desconfiança.