31 de julho de 2026

Bancos lucram mais com digitalização, mas clientes e trabalhadores pagam a conta

Investimentos ampliam rentabilidade, mas eliminam empregos, concentram atendimento nos canais digitais e ampliam desafios de inclusão financeira
Crédito: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

O setor financeiro brasileiro investiu R$ 47,8 bilhões em tecnologia em 2025, ampliando o uso de canais digitais.
19,7 milhões vivem em municípios sem agências bancárias, com bancos públicos dominando crédito no Norte e Nordeste.
Empregos operacionais caíram até 85%; vagas em tecnologia cresceram até 1494%, impulsionando requalificação profissional.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Esta é a décima sétima reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional

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A imagem histórica das agências bancárias — marcada por filas persistentes, guichês de vidro e o som rítmico de autenticadoras de papel — está sendo rapidamente substituída por uma realidade silenciosa movida por algoritmos e interfaces digitais. 

O setor financeiro brasileiro consolidou, em 2025, uma transição profunda em sua estrutura operacional, impulsionada por um investimento massivo de R$ 47,8 bilhões em tecnologia apenas neste exercício.

A anatomia do serviço bancário começa a apresentar uma mudança importante:  os canais digitais (mobile e internet banking) já concentram parte relevante das operações bancárias, relegando o atendimento presencial a uma fração residual e altamente especializada do cotidiano bancário. E mesmo esse chamado resíduo não pode ser desconsiderado: apenas no ano de 2025, foram realizadas 7,2 bilhões de transações em agências bancárias físicas.

A Retração do Atendimento Físico e o Êxodo das Agências

O encolhimento da rede física não é apenas uma busca por eficiência, mas uma reconfiguração geográfica e estratégica – na prática, o número cada vez menor de agências físicas em operação reflete a migração dos clientes para ecossistemas de autoatendimento, gerando o que analistas chamam de “desertificação bancária” em certas regiões.

A análise demográfica revela nuances críticas: 19,7 milhões de brasileiros residem em municípios sem agências tradicionais, esses cidadãos podem recorrer a serviços alternativos, como os Postos de Atendimento Bancário (PABs – que possuem uma estrutura muito mais enxuta em relação às agências tradicionais) e cooperativas de crédito. Assim, o contingente sem qualquer ponto físico de atendimento cai para 5,6 milhões de pessoas em 926 municípios. 

Contudo, a dependência do Estado permanece inalterada nas periferias econômicas: nas regiões Norte e Nordeste, os bancos públicos são responsáveis por 100% da oferta de crédito imobiliário, evidenciando que a retração privada não é acompanhada por uma digitalização inclusiva nessas praças.

O Perfil Profissional em Mutação

A digitalização não alterou apenas o consumo, mas a própria natureza da ocupação bancária. O fechamento das agências físicas provocou uma queda drástica nas funções operacionais e administrativas, refletindo o enxugamento da mão-de-obra e a redução dos custos com a justificativa de modernização do atendimento e a preferência dos clientes pelos serviços digitais. Entre 2015 e 2025, as ocupações em queda livre nos bancos privados foram:

  • Supervisores administrativos: -85%
  • Atendentes de agência: -68%
  • Caixas de banco: -58%
  • Gerentes de agência: -33%

Enquanto os balcões esvaziam, as áreas de infraestrutura e desenvolvimento vivem uma expansão explosiva. O “bancário” moderno hoje é, em larga escala, um arquiteto de dados ou desenvolvedor. O recrutamento para áreas de tecnologia registrou saltos de quatro dígitos em funções estratégicas na última década.

A Explosão das Carreiras Digitais (2015–2025)

CargoAumento (%)
Programadores+1494%
Analistas de Negócios+1134%
Analistas de Redes/Comunicação+1084%
Analistas de Desenvolvimento de Sistemas+264%

Uma análise mais aprofundada sobre os dados revela que, em linhas gerais, um em cada quatro empregos apresenta algum grau de exposição à inteligência artificial, com diferentes níveis de exposição – conforme o potencial de automatização e a variabilidade das tarefas.

Além disso, o setor financeiro deve investir R$ 1,4 bilhão apenas em infraestrutura e soluções tecnológicas – e a consequência é a saturação dos profissionais em tecnologia, diante de uma estrutura cada vez mais enxuta mas que precisa apresentar os mesmos resultados.

A Estratégia por Trás dos Números: Rentabilidade e Eficiência

O desempenho financeiro dos principais bancos brasileiros em 2025 reflete a pressão por eficiência. O lucro líquido total dos cinco maiores bancos mais o Nubank atingiu R$140,7 bilhões, um crescimento de 0,6%, em relação ao ano anterior. Este resultado “andando de lado” explica-se pelo setor público: o Banco do Brasil sofreu uma queda de 45,4% no lucro, impactado pela taxa básica de juros do Brasil (Selic) e pela elevação da PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) no segmento do agronegócio. Em contrapartida, os bancos privados (Itaú, Bradesco e Santander) lucraram R$ 87,1 bilhões (alta de 16,9%). 

O destaque de eficiência vem do Nubank, cujo ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) atingiu 33%, impulsionado por um custo médio mensal de atendimento de apenas US$ 0,80 por cliente ativo. Em razão da competitividade, essa métrica pressiona os bancos tradicionais a acelerar a digitalização do atendimento e a reduzir custos com estruturas físicas. 

Desafios da Transição: Riscos Cibernéticos e Desigualdade

A digitalização ampliou a superfície de ataque para crimes financeiros. Em resposta, os bancos investiram R$ 5 bilhões em cibersegurança, focando em golpes como o do “falso funcionário”. 

A governança tornou-se central após a “Operação Carbono Oculto”, que revelou esquemas de lavagem de dinheiro em fintechs que movimentaram R$ 26 bilhões. Desde agosto de 2025, as instituições de pagamento são obrigadas a entregar a “e-Financeira”, fechando brechas de fiscalização sob a ótica do Privacy by Design e da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).

Por outro lado, o setor ainda falha na equidade: a remuneração média da mulher bancária é cerca de 20% da remuneração do homem bancário. Em cargos de liderança, as mulheres recebem remuneração média 25% inferior à dos homens.

Conforme a análise da Peers Consulting, o futuro do atendimento físico não reside na transação comum — que já pertence ao código —, mas na especialização. As agências remanescentes estão se transformando em pólos de consultoria estratégica e negócios de alta renda, em detrimento da necessidade de clientes que não estão enquadrados em tal faixa de atendimento e de idosos.

Para o profissional, a sobrevivência depende de uma requalificação profissional agressiva. O banco dos dias atuais não é mais um lugar de guichês; é um ecossistema de dados onde a consultoria humana especializada, apoiada em uma estrutura de capital eficiente e governança rígida, é o último e mais valioso diferencial competitivo – o que faz do diálogo social para garantir transições justas e condições de trabalho dignas para os profissionais um ponto estratégico.

Acompanhe abaixo toda a série Por Dentro do Sistema Financeiro

O Custo Social da Reestruturação Bancária no Brasil

A nova realidade do endividamento brasileiro

Por que a economia cresce, mas o dinheiro não sobra?

Cartão Private Label: aliado do varejo, vilão do orçamento

O papel do sindicato na proteção dos trabalhadores das fintechs

Os Erros de Fiscalização do Banco Central no Caso Master

Sistema financeiro brasileiro nega crédito como direito e mantém lógica de exclusão social

Crédito em 2026: entre juros altos e a disputa pelo futuro do financiamento no Brasil

Por Dentro do Sistema Financeiro: Os novos bancarizados, do PIX à inteligência financeira popular

Por dentro do sistema financeiro: A ‘guerra fiscal’ entre bancos e fintechs

Dossiê Fintechs: as manobras cambiais no Banco Central de Campos Neto

Dossiê Fintechs: ‘Porta giratória’ como conexão lucrativa

Dossiê Fintechs: Questões por trás do movimento de porta giratória

Dossiê Fintechs: Banco Central e Receita estreitam controles sobre operações das fintechs

Fintechs não cumpriram a promessa de trazer maior competitividade e juros menores

Fintechs: da promessa de modernização à rota para lavagem de dinheiro

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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