Esta é a décima sétima reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional
A imagem histórica das agências bancárias — marcada por filas persistentes, guichês de vidro e o som rítmico de autenticadoras de papel — está sendo rapidamente substituída por uma realidade silenciosa movida por algoritmos e interfaces digitais.
O setor financeiro brasileiro consolidou, em 2025, uma transição profunda em sua estrutura operacional, impulsionada por um investimento massivo de R$ 47,8 bilhões em tecnologia apenas neste exercício.
A anatomia do serviço bancário começa a apresentar uma mudança importante: os canais digitais (mobile e internet banking) já concentram parte relevante das operações bancárias, relegando o atendimento presencial a uma fração residual e altamente especializada do cotidiano bancário. E mesmo esse chamado resíduo não pode ser desconsiderado: apenas no ano de 2025, foram realizadas 7,2 bilhões de transações em agências bancárias físicas.
A Retração do Atendimento Físico e o Êxodo das Agências
O encolhimento da rede física não é apenas uma busca por eficiência, mas uma reconfiguração geográfica e estratégica – na prática, o número cada vez menor de agências físicas em operação reflete a migração dos clientes para ecossistemas de autoatendimento, gerando o que analistas chamam de “desertificação bancária” em certas regiões.
A análise demográfica revela nuances críticas: 19,7 milhões de brasileiros residem em municípios sem agências tradicionais, esses cidadãos podem recorrer a serviços alternativos, como os Postos de Atendimento Bancário (PABs – que possuem uma estrutura muito mais enxuta em relação às agências tradicionais) e cooperativas de crédito. Assim, o contingente sem qualquer ponto físico de atendimento cai para 5,6 milhões de pessoas em 926 municípios.
Contudo, a dependência do Estado permanece inalterada nas periferias econômicas: nas regiões Norte e Nordeste, os bancos públicos são responsáveis por 100% da oferta de crédito imobiliário, evidenciando que a retração privada não é acompanhada por uma digitalização inclusiva nessas praças.
O Perfil Profissional em Mutação
A digitalização não alterou apenas o consumo, mas a própria natureza da ocupação bancária. O fechamento das agências físicas provocou uma queda drástica nas funções operacionais e administrativas, refletindo o enxugamento da mão-de-obra e a redução dos custos com a justificativa de modernização do atendimento e a preferência dos clientes pelos serviços digitais. Entre 2015 e 2025, as ocupações em queda livre nos bancos privados foram:
- Supervisores administrativos: -85%
- Atendentes de agência: -68%
- Caixas de banco: -58%
- Gerentes de agência: -33%
Enquanto os balcões esvaziam, as áreas de infraestrutura e desenvolvimento vivem uma expansão explosiva. O “bancário” moderno hoje é, em larga escala, um arquiteto de dados ou desenvolvedor. O recrutamento para áreas de tecnologia registrou saltos de quatro dígitos em funções estratégicas na última década.
A Explosão das Carreiras Digitais (2015–2025)
| Cargo | Aumento (%) |
| Programadores | +1494% |
| Analistas de Negócios | +1134% |
| Analistas de Redes/Comunicação | +1084% |
| Analistas de Desenvolvimento de Sistemas | +264% |
Uma análise mais aprofundada sobre os dados revela que, em linhas gerais, um em cada quatro empregos apresenta algum grau de exposição à inteligência artificial, com diferentes níveis de exposição – conforme o potencial de automatização e a variabilidade das tarefas.
Além disso, o setor financeiro deve investir R$ 1,4 bilhão apenas em infraestrutura e soluções tecnológicas – e a consequência é a saturação dos profissionais em tecnologia, diante de uma estrutura cada vez mais enxuta mas que precisa apresentar os mesmos resultados.

A Estratégia por Trás dos Números: Rentabilidade e Eficiência
O desempenho financeiro dos principais bancos brasileiros em 2025 reflete a pressão por eficiência. O lucro líquido total dos cinco maiores bancos mais o Nubank atingiu R$140,7 bilhões, um crescimento de 0,6%, em relação ao ano anterior. Este resultado “andando de lado” explica-se pelo setor público: o Banco do Brasil sofreu uma queda de 45,4% no lucro, impactado pela taxa básica de juros do Brasil (Selic) e pela elevação da PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) no segmento do agronegócio. Em contrapartida, os bancos privados (Itaú, Bradesco e Santander) lucraram R$ 87,1 bilhões (alta de 16,9%).
O destaque de eficiência vem do Nubank, cujo ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) atingiu 33%, impulsionado por um custo médio mensal de atendimento de apenas US$ 0,80 por cliente ativo. Em razão da competitividade, essa métrica pressiona os bancos tradicionais a acelerar a digitalização do atendimento e a reduzir custos com estruturas físicas.
Desafios da Transição: Riscos Cibernéticos e Desigualdade
A digitalização ampliou a superfície de ataque para crimes financeiros. Em resposta, os bancos investiram R$ 5 bilhões em cibersegurança, focando em golpes como o do “falso funcionário”.
A governança tornou-se central após a “Operação Carbono Oculto”, que revelou esquemas de lavagem de dinheiro em fintechs que movimentaram R$ 26 bilhões. Desde agosto de 2025, as instituições de pagamento são obrigadas a entregar a “e-Financeira”, fechando brechas de fiscalização sob a ótica do Privacy by Design e da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).
Por outro lado, o setor ainda falha na equidade: a remuneração média da mulher bancária é cerca de 20% da remuneração do homem bancário. Em cargos de liderança, as mulheres recebem remuneração média 25% inferior à dos homens.
Conforme a análise da Peers Consulting, o futuro do atendimento físico não reside na transação comum — que já pertence ao código —, mas na especialização. As agências remanescentes estão se transformando em pólos de consultoria estratégica e negócios de alta renda, em detrimento da necessidade de clientes que não estão enquadrados em tal faixa de atendimento e de idosos.
Para o profissional, a sobrevivência depende de uma requalificação profissional agressiva. O banco dos dias atuais não é mais um lugar de guichês; é um ecossistema de dados onde a consultoria humana especializada, apoiada em uma estrutura de capital eficiente e governança rígida, é o último e mais valioso diferencial competitivo – o que faz do diálogo social para garantir transições justas e condições de trabalho dignas para os profissionais um ponto estratégico.
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