5 de junho de 2026

Superação do marxismo e sua crítica à (mal)dita financeirização, por Fernando Nogueira da Costa

A superação envolve a crítica e a rejeição de conceitos obsoletos ou sem capacidade de captar plenamente as complexidades do capitalismo atual

Superação do marxismo e sua crítica à (mal)dita financeirização

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por Fernando Nogueira da Costa

A expressão “superação do marxismo”, em sentido dialético, conforme a tradição filosófica hegeliana também utilizada Marx, não implica em abandono completo da teoria marxista, mas sim em uma Aufhebung. Este termo hegeliano significa “superação” ou “elevação”. Essa superação envolve três aspectos: preservação de conceitos válidos, negação e elevação (aprimoramento) de conceitos antigos.

Na dialética, superar algo implica manter aspectos ainda relevantes e verdadeiros. No caso do marxismo, conceitos como a lei geral de acumulação de capital, a alienação do trabalho e as contradições internas do capitalismo continuam a ter valor analítico. Esses conceitos ajudam a compreender as estruturas fundamentais de exploração e desigualdade no capitalismo contemporâneo.

A superação também envolve a crítica e a rejeição de conceitos tornados obsoletos ou sem capacidade de captar plenamente as complexidades do capitalismo atual. Por exemplo, a ideia de o colapso do sistema ser inevitável ou a ênfase excessiva em uma visão determinista da história devem ser reconsideradas à luz de novas dinâmicas sociais, tecnológicas, econômicas e financeiras no sistema capitalista.

O terceiro aspecto da superação dialética é a elevação, quando novos conceitos e abordagens são desenvolvidos para lidar com as realidades do capitalismo contemporâneo. Isso inclui a incorporação de teorias e inovações não disponíveis na época de Marx, como as teorias econômicas modernas. Um pós-marxismo necessita ser plural (ou não sectário) incorporando o Pós-keynesianismo, Economia Comportamental, Teoria dos Sistemas Complexos, entre outras, adicionando novos elementos para explicar comportamentos dos agentes econômicos e crises no capitalismo atual.

Por exemplo, necessita fazer análise (e não apenas “denúncia”) de fenômenos como a globalização, a (mal)dita financeirização da economia e a era digital. Exigem novos conceitos e análises, indo além das ideias conservadoras do marxismo.

Questões ambientais e tecnológicas são imprescindíveis de serem tratadas. O impacto das mudanças climáticas, as inovações tecnológicas e a automação do trabalho são aspectos exigentes de uma abordagem capaz de integrar as ideias marxistas de crítica ao capitalismo com novos insights e ferramentas analíticas.

Dentro do método marxista – concreto-abstrato-concreto pensado –, pensar o concreto atual significa analisar o capitalismo contemporâneo não apenas com as categorias abstratas da análise marxista clássica, mas usando uma combinação de conceitos novos e adaptados. Inclui considerar a complexidade das interações sociais e econômicas modernas, a pluralidade de agentes com comportamentos heterogêneos e os problemas contemporâneos, como a desigualdade exacerbada pela tecnologia, as redes de produção globais e a centralidade da lógica financeira.

A dialética é um processo em constante movimento e transformação: tese-antítese-síntese. É um processo de diálogo e debates entre posições contrárias.

Portanto, a “superação do marxismo” envolve manter seu núcleo crítico e analítico, enquanto se avança com ideias adequadas para responder às novas condições históricas e materiais. Essa abordagem dialética permite a crítica marxista evoluir positivamente e incorporar novas perspectivas, sem perder sua essência de análise crítica do capitalismo.

A superação dialética do marxismo, ou seja, o pós-marxismo, significa não apenas manter o que é válido e essencial na teoria marxista, mas também criticá-la e expandi-la para compreender melhor o capitalismo contemporâneo. Envolve pensar com novos conceitos e métodos de modo a complementar e ampliar a capacidade de análise crítica das realidades atuais, mantendo a relevância e a aplicabilidade do pensamento marxista em um mundo em transformação.

Por exemplo, a crítica obtusa à financeirização falha quando não reconhece a complexidade e a interdependência do sistema financeiro em relação ao sistema econômico produtivo e mercantil. Uma análise mais aprofundada e fundamentada deveria levar em consideração as funções principais desempenhadas pelo sistema financeiro, essenciais para a economia moderna.

Ele é fundamental na criação da infraestrutura dos sistemas de pagamento, capazes de escriturar a circulação de dinheiro digital e o suporte ao comércio e às transações globais. As inovações em tecnologia financeira, como pagamentos digitais e soluções de blockchain, facilitam a velocidade em tempo real das transações, conectando mercados e facilitando o consumo e a produção.

O sistema financeiro oferece ativos diversificados para o acúmulo de riqueza e o planejamento de longo prazo, essenciais para a segurança econômica individual em idades avançadas. Os fundos de pensão, entre outros investidores institucionais, investem em uma ampla carteira de ativos financeiros, inclusive globais, garantindo uma fonte de renda futura para trabalhadores aposentados. Reflete a interconexão entre a economia produtiva e os mercados financeiros para a alocação de recursos ser rentável, segura e líquida.

O acesso ao crédito para a alavancagem financeira permite as empresas aumentarem sua escala de operações e, por conseguinte, criarem mais empregos e gerarem mais renda. A capacidade de conceder capital emprestado para expandir a produção e inovar é uma função essencial do sistema financeiro, proporcionando o crescimento econômico, o desenvolvimento tecnológico e maior rentabilidade patrimonial sobre o capital próprio.

O mercado financeiro serve como um mecanismo de coordenação para a economia globalizada. A precificação de ativos, como ações e títulos de dívida, reflete expectativas sobre o desempenho futuro de empresas e setores, guiando as decisões de investimento e a alocação de recursos. O valor de mercado das participações acionárias, por exemplo, atua como um sinalizador ou coordenador de investimentos e decisões estratégicas, comparando aos valores intrínsecos das empresas e ajudando a ajustar estratégias corporativas e políticas econômicas.

Os mercados de capitais, destacadamente o de ações, proporcionam um meio para a alocação experimental (tentativa-e-erro) de recursos, canalizando poupanças, inclusive os dos trabalhadores qualificados, para os setores mais promissores da economia. Essa função é vital para a inovação e a sustentação de empreendimentos capazes de gerar retornos e contribuir para o crescimento.

Outro papel fundamental do sistema financeiro é a gestão de riscos por meio de instrumentos como derivativos e seguros. Ajudam empresas e indivíduos a protegerem-se contra flutuações de mercado, volatilidade cambial, taxas de juros e outros riscos possíveis de prejudicar suas operações ou as finanças pessoais.

Embora essas funções sejam essenciais, a crítica à financeirização se concentra apenas nos excessos e nas distorções como a especulação na fase altista por “comportamentos de manada” ou profecia autorrealizável. A busca por ganhos de capital imediatos leva à especulação desenfreada, descolando os preços dos ativos de seus fundamentos microeconômicos, setoriais e macroeconômicos.

A concentração de riqueza, gerada pelas taxas de juro compostas acima da taxa de crescimento da renda, gerada na produção de bens e (principalmente) serviços, exacerba a desigualdade. Evidentemente, beneficia mais os trabalhadores (e capitalistas) idosos já com recursos financeiros acumulados maiores.

Na fase altista, a (mal)dita financeirização gera uma desconexão entre o crescimento do ganho de capital e o desempenho das empresas distribuidoras de dividendos, levando à bolha de ativos – e sequência boom-crash. Na fase baixista, as empresas não-financeiras fazem desalavancagem financeira e acumulam reservas, nos mercados financeiros, para usá-las em investimentos produtivos na futura retomada do crescimento sustentado em longo prazo.

Fazem isso quando o valor de construir ou fabricar ativos novos fica inferior ao valor de ativos existentes. Nesse caso, ao invés de comprar ativos usados, como plantas industriais de concorrentes com capacidade produtiva ociosa, constrói novas. Este ensinamento de Marx é ainda válido: transferências de propriedades privadas não geram valor adicionado, inclusive renda para trabalhadores empregados.

Portanto, uma análise da financeirização com conhecimento de causa deve reconhecer tanto suas contribuições indispensáveis quanto seus riscos e limitações. Entender como o sistema financeiro opera de forma intrínseca ao sistema econômico produtivo e mercantil é fundamental para críticas serem bem-informadas e construtivas. Avaliar suas funções principais e o impacto das inovações financeiras em toda a economia permitirá um entendimento mais transcendente, diante as críticas superficiais à (mal)dita financeirização, por promover uma visão mais holística da economia contemporânea com o uso da Teoria de Sistemas Complexos pós-marxista.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Douglas da Mata

    5 de novembro de 2024 10:29 am

    Bem.

    Do ponto de vista da análise do funcionamento do sistema capitalista, e para quem crê (como o autor) no fim da História, ou seja, não há possibilidade de superação do capitalismo (pelo menos essa é uma das críticas centrais ao marxismo, a previsão do colapso do modo de produção), a análise é coerente.

    O problema é que do ponto de vista histórico ou dialético não faz o menor sentido, já que se o pensamento marxiano é sujeito às categorias que o autor descreveu, por que não o seria o objeto em questão (o capitalismo).

    Ora, narrar as funcionalidades do mercado como “equilibrador” (falho, mas útil) das assimetrias do capital acumulado (“as poças de capital parado”, como disse Marx) não resolve o problema crucial apresentado pela realidade:

    O produto de toda riqueza financeirizada no mundo já não mais corresponde a qualquer relação com o mundo produtivo, e hoje, a supera umas 300 vezes.

    Esse volume não mais “ajuda” a produção a se desenvolver, mas apenas busca, de forma predatória, novos espaços (bolhas) para captura de mais e mais ativos para concentração, como um buraco negro.

    Eu vou destacar aqui um absurdo do autor, de forma respeitosa:

    “(…)O acesso ao crédito para a alavancagem financeira permite as empresas aumentarem sua escala de operações e, por conseguinte, criarem mais empregos e gerarem mais renda. A capacidade de conceder capital emprestado para expandir a produção e inovar é uma função essencial do sistema financeiro, proporcionando o crescimento econômico, o desenvolvimento tecnológico e maior rentabilidade patrimonial sobre o capital próprio.(…)”

    Ora, eu repito, desde 1970, com a desregulamentação dos bancos de varejo e dos bancos de investimento, que puderam passar a ser a mesma coisa, quase, que levou a várias crises, e a maior delas, a crise de 2008 (subprime), a a participação da produção na renda mundial declinou, dos empregos idem, e hoje, a maior parcela está concentrada em empregos precários (no ramo de serviços e plataformas digitais).

    Vou ficar por aqui, estou sem tempo e paciência.

    Sinceramente, eu não sei o que leva uma pessoa com essa back ground a escrever uma coisa dessas.

    1. WRamos

      5 de novembro de 2024 12:00 pm

      Acho que o que leva o Fernando a escrever é sua inteligência e capacidade de contextualizar na atualidade.
      Sua afirmação de que a riqueza financeira supera a produção umas 300 vezes é mero chute desinformado. Deve ser produto de “double counting” elevado a enésima potência.
      Ficar somando instrumentos de dívida sem levar em conta que o do outro lado tem alguém com crédito, acaba fazendo se acreditar que a (mal)dita financeirização é bicho papão.

      1. Douglas da Mata

        5 de novembro de 2024 5:33 pm

        Ah sim, 2008 mostrou a verdade dessa equação dívida credor… É você Bem Bernake?

        Destacar a hipérbole para atacar o conceito foi ótimo, mordeu a isca.

        Eu não devia explicar, mas, vai lá.

        Se essa razão for 1 para 30, ou algo como já existia em 2008, o que é claro, somado com a QE do tesouro dos EUA (US$ 800 bi declarados), e do resto do planeta (zona do Euro), e a total impunidade desde então dos apostadores, o mundo já acabou faz tempo…

        Isso aqui é só a Matrix.

  2. Rui Ribeiro

    6 de novembro de 2024 11:55 am

    De acordo com o autor:

    “A superação também envolve a crítica e a rejeição de conceitos tornados obsoletos ou sem capacidade de captar plenamente as complexidades do capitalismo atual. Por exemplo, A IDEIA DE O COLAPSO DO SISTEMA SER INEVITÁVEL ou a ênfase excessiva em uma visão determinista da história devem ser reconsideradas à luz de novas dinâmicas sociais, tecnológicas, econômicas e financeiras no sistema capitalista”.

    Diz-se que Marx não tinha essa idéia da derrocada inevitável do capitalismo. Eu li que:

    “Contrário ao que muitos analistas, entre eles alguns marxistas tem dito, Marx não acreditava que o colapso do capitalismo fosse inevitável. “Crises permanentes não existem” (TMV), ele insistiu. Como vimos, as crises são sempre soluções momentâneas e forçosas das contradições existentes. Não existe crise econômica tão profunda da qual o capitalismo não possa recuperar-se, uma vez garantido que a classe trabalhadora pague o preço do desemprego, deterioração dos padrões de vida e das condições de trabalho. Se uma crise irá levar a “um estágio mais elevado de produção social” dependerá da consciência e da ação da classe trabalhadora”.

    Introdução ao Capital de Karl Marx – Alex Callinicos

    http://orientacaomarxista.blogspot.com/2008/03/introduo-ao-capital-de-karl-marx-alex.html

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