O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou as tarifas comerciais em instrumentos de pressão política e econômica contra aliados e adversários, inaugurando uma lógica que ela compara à atuação de organizações mafiosas.
A afirmação é da economista Anne O. Krueger, ex-economista-chefe do World Bank e vice-diretora-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), ressaltando que as políticas tarifárias adotadas por Trump em seu segundo mandato deixaram de seguir critérios econômicos tradicionais e passaram a funcionar como mecanismos de coerção diplomática.
Em artigo publicado no site Project Syndicate, a autora lembra que, logo após retornar à Casa Branca, Trump apresentou as chamadas “tarifas do Dia da Libertação”, impondo sobretaxas específicas sobre produtos de diversos países.
Oficialmente, o objetivo seria reduzir o déficit comercial dos Estados Unidos, mas a articulista sustenta que as medidas foram desenhadas para forçar concessões de parceiros comerciais.
Na prática, países que aceitassem reduzir barreiras comerciais ou ampliar investimentos em território norte-americano seriam recompensados com tarifas menores – o que gerou instabilidade internacional, aliada ao comportamento errático da Casa Branca.
Tanto a Suprema Corte dos Estados como o Tribunal de Comércio Internacional interviram para limitar a influência de Trump na cobrança tarifária, mas o governo norte-americano recorreu das decisões e iniciou novos processos contra 16 países acusados de práticas comerciais desleais.
Investimentos seriam politicamente direcionados
Um dos pontos mais criticados pela economista é o fato de os investimentos estrangeiros passarem a ser direcionados conforme interesses políticos da Casa Branca.
Muitos dos setores favorecidos pelas negociações não apresentam competitividade natural nos Estados Unidos e dependeriam de incentivos artificiais para sobreviver – e quando investimentos passam a seguir favoritismos políticos em vez de critérios de mercado, desaparece a fronteira entre livre iniciativa e patronagem estatal.
A economista também aponta uma contradição central na política de Trump: embora o líder norte-americano afirme que as tarifas servem para reduzir déficits comerciais, a entrada maciça de capital estrangeiro nos EUA tende a fortalecer o dólar e ampliar importações — exatamente o oposto do objetivo anunciado.
Para Krueger, a mensagem enviada ao mercado internacional é que os Estados Unidos abandonam gradualmente princípios tradicionais do livre comércio e passam a utilizar seu poder econômico para extrair vantagens de países mais vulneráveis, o que pode gerar distorções profundas e duradouras na economia global
Deixe um comentário