Xadrez da ditadura das corporações públicas, por Luis Nassif

Movimento 1 – o golpe

No começo, a elite civil prepara o campo para a desestabilização do sistema elegendo a figura do inimigo, o PT. Há o primeiro teste no mensalão. Depois, entra-se no jogo decisivo, adiado pelo bom momento da economia.

Quando a situação econômica piora, Judiciário e Ministério Público definem a melhor estratégia para tornar a Lava Jato uma operação irreversível. Consiste em investir sobre a linha de menor resistência, mirar um alvo que garanta a montagem de alianças com as estruturas de poder.

São varridos para baixo do tapete os indícios contra próceres tucanos, mercado financeiro, mídia e Ministros de tribunais superiores. O foco se concentra em Lula, no PT, em alguns peemedebistas mais notórios e no arco de alianças desenhado pelo projeto PT de poder, que tinha nas empreiteiras os maiores parceiros.

Movimento 2 – a falta de elite e de projetos

Monta-se uma verdadeira legião estrangeira em favor do golpe. Participam dela tropas das corporações públicas, do Judiciário, bilionários que saem às ruas como cidadãos comuns, cidadãos comuns que saem às ruas como linchadores habituais, e linchadores que saem às ruas armados de suas prerrogativas de magistrados e procuradores amparados por manchetes escandalosas. A bandeira única que os une é a eliminação definitiva dos inimigos.

A elite civil participa da conspiração, mas não assume a liderança, não conduz, é conduzida. Contenta-se com sua parte no butim, colocando na área econômica um gtupo de xiitas sem noção, disposto a mudar a realidade com a força da fé.

Conquistado o poder, o que fazer? Parte-se para o desmonte do modelo anterior sem nenhum projeto alternativo de país. Em vez de aprimoramentos necessários, liquida-se com a legislação trabalhista. Em vez de gestão fiscal responsável, monta-se o monstrengo inviável da Lei do Teto. Tenta-se a fórceps uma reforma da Previdência cuja conta recai inteiramente sobre os empregados do setor privado. Sufoca-se a economia com uma política fiscal irresponsável porque a guerra contra o inimigo não permite questionamentos intra-tropa e a fé não costuma falhar.

Mas e a ideia mobilizadora, e a voz de comando capaz de aglutinar a legião dos vencedores em torno de programas políticos viáveis, impondo um mínimo de ordem na bagunça? Nada. Porque a elite nacional é apenas um mito, desde os tempos mercantilistas aos anos da financeirização.

Movimento 3 – a Ditadura das corporações

Sem um general comandante, derrubada a cidadela adversária as tropas assumem o comando.

Sobre os escombros da economia, TCU, AGU, MPU, e todos os Us de Brasilia, negociam entre si a divisão do butim, quem pode punir, quem pode conceder, quem pode perdoar, quem negocia a delação, quem garante o acordo de leniência.

O Brasil improdutivo assume o controle do Brasil real, e tropas sem oficiais tomam as rédeas nos dentes enquanto um empresariado invertebrado, sem noção de projeto, paga a conta junto com seus trabalhadores.

O melhor exemplo desse comando difuso, aliás, é o Ministro Luís Roberto Barroso, do STF. Aliado do golpe, Barroso preencheu o universo midiático com chavões sobre o empreendedorismo, sobre um Estado menor. Em nome desse sonho neliberal, avalizou a Lei do Teto, com todas as implicações sobre as políticas sociais e os direitos básicos do cidadão. Não se gasta mais do que no ano anterior corrigido pela inflação.

Na hora de discutir o reajuste dos proventos de Ministros do STF, não vacilou: votou a favor dos 16% de reajuste, mesmo sabendo do impacto sobre toda a cadeia de benefícios do serviço público. O que significa? Que as figuras públicas que, tal como as birutas de aeroporto, seguem o caminho dos ventos, estão identificando um vento mais favorável aos seus projetos pessoais: em vez do mercado, o Partido do Judiciário.

Movimento 4 – histórias de promotores

E aí se ingressa na pior das ditaduras, que é a o dos centros difusos de arbitrariedade. Em qualquer cidade do país, um promotor pode se dizer investido do poder divino e providenciar Justiça com as próprias mãos. E esse poder está sendo utilizado sem nenhum discernimento, inclusive contra membros das próprias corporações que não se alinham com o golpe.

Em Recife, o promotor da Vara de Execuções Penais Marcellus Uglete, considerado um garantista (solicitou a interdição de vários presídios), foi denunciado por colegas com base em indícios frágeis – grampos em advogados em que seu nome foi apenas citado – e se tornou alvo de uma operação de busca e apreensão. Os invasores – policiais civis comandados por um colega de Marcellus – sequer esperaram que ele abrisse a porta. Teve a casa arrombada na presença de três netos, dois filhos, a esposa e o irmão.

Em Niterói, um comentário em rede social feito pelo Policial Federal Sandro Araújo, criticando a operação que levou ao suicídio o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) motivou uma denuncia da Associação Nacional dos Delegados da Policia Federal.

Disse o policial: “Minha prece hoje é por Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Reitor da UFSC que tirou a própria vida após ser preso de forma INJUSTA, ARBITRÁRIA e EQUIVOCADA pela Polícia Federal. A responsável pelo ERRO CRASSO não foi tocada e segue com sua carreira”.

No Paraná, uma parceria entre juízes federais e PFs impõe uma sucessão de condenações pecuniárias contra blogs que ousam questionar a atuação de policiais.

E não se para nisso.

Em Belo Horizonte, o dono de uma rede de supermercados foi intimado por um jovem promotor de direitos do consumidor a dar explicações para os critérios utilizados em um concurso que premiou a melhor frase sobre o aniversário da empresa. A intervenção do promotor foi motivada por um competidor, que se sentiu lesado na competição e apresentou, em sua defesa, um livro de poesias de rimas mancas de sua autoria.

Abusos como este estão pipocando por todo o país. E a única resistência visível reside no contraditório porém destemido Ministro Gilmar Mendes.

Movimento 5 – um ciclo sem prazo

Vai piorar antes de melhorar, porque se trata de um processo sem objetivos, de uma tropa sem comando, de um arquipélago de poderes individuais sem a ação coordenadora das chefias e lideranças, e de um poder sem projeto. O que os move é apenas o exercício do poder individual pelo poder e a defesa dos interesses corporativos.

Há um cenário possível para as próximas eleições: uma final entre o candidato do PT e Bolsonaro. Nessa hipótese, o risco Bolsonaro seria um fator catalisador maior do que o medo PT da classe média. Portanto, havendo essa composição no segundo turno, há a probabilidade concreta de vitória do candidato de Lula.

Aí, talvez, o mercado se dê conta de que a fonte de todos os males não são as migalhas distribuídas aos mais necessitados, mas o cheque em branco entregue às corporações de Estado.

46 comentários

  1. “Brasileiro não sabe votar” é

    “Brasileiro não sabe votar” é uma afirmativa frequente. Há nela um erro e um acerto. O erro, tipicamente vira-lata, é que quem diz isso, na maioria das vezes se refere a um tipo de brasileiro, o chamado “povão”. Daí vem a alcunha de “pobre de direita” e os preconceitos de “povo ignorante” e vamos parar por aqui e falar sobre o acerto : “O BRASILEIRO DA ELITE NÃO SABE VOTAR”. Mudo de idéia se alguém me convencer que o Ministro Barroso está melhor defendendo interesses pessoais do que estaria se defendesse os coletivos. Pensarei diferente se houver prova de que os procuradores partidarizados estão melhores do que estariam se agissem diferentemente. E se os PFs policiassem não estariam em melhores condições que  a  de   justiceiros ? E se os mercadistas não fossem abutres não seriam melhor recompensados pelo mercado um pouco após do curto prazo ? Tudo não funcionaria melhor, para todos, se os Us de Brasilia fossem realmente Us, e não como grafou o Editor no Movimento 3, erradamente, esquecendo-se do C inicial ? Como seria se TODOS soubessem votar ? Que fique claro, meu foco nada tem de Moral, falo do ponto de vista social e econômico, só.

  2. Nassif, para variar sempre

    Nassif, para variar sempre otimista.

    “uma final entre o candidato do PT e Bolsonaro. Nessa hipótese, o risco Bolsonaro seria um fator catalisador maior do que o medo PT da classe média.”

    Será?

    • Bolçalnaro

      Bolsomico é louco mas é dos nossos, os pastores da manada coxa pensa. Além do que ele tem um imenso telhado de vidro por onde pode ser controlado. Vai ser fácil continuar com o golpe. O ex milico já falou contra a globo. Mas a globo sabe que é jogo de cena. No dia seguinte da posse ele já disse que passa o supremo de frango para 21 juizes. V. excelências ficarão felizes de ter novos colegas.

      O problema é o Lula. Aquele que foi pintado como o suplente do kapeta. O líder do povo “não cheiroso”. Afinal tivemos o trabalhão de dar o golpe não foi para deixar a petralhada voltar. Além disso nossos patrões daqui e da “gringa” não vão gostar.

  3. A narrativa dos movimentos, a

    A narrativa dos movimentos, a nível interno, a meu ver, está correta. A “falta de comando” é uma afirmação bastante relativa, entendo que um golpe desta envergadura, envolvendo tantos grupos de poder, dificilmente teria um comando centralizado e  uma estratégia pré-definida.  Penso que faltou, na análise,  o elemento externo, os órgãos de segurança norte americanos e, acima de tudo isso, a crise do sistema econômico hegemônico. 

    • Concordo Plenamente!

      O chamado fator externo, ou seja a chamada NOVA ORDEM MUNDIAL, é administrada Deep State, ou seja o conjunto dos  bilionários mundiais, complexo militar/sistemas de informação americanos (são os gerdames de todo o mundo ocidental), conjunto de neocons mundial (funcionários públicos e de empresas de alto nível, operadores financeiros, intermediarios, enfim o conjunto civil que administra em pró dos muito ricos favorecidos  por um projeto MUNDIAL, onde o sistema de destruição dos paises (inclusive o Brasil) como organização economica/social/política/cidadania/etc., está sendo feita aceleradamente.

      Os exemplos mundiais mais agudos são os paises árabes, Libia, Iraque Siria e agora o Irã, que fora ou serão destruidos, de modo a não poderem ser recompostos como estados economicos e sociais, facilitando o controle das suas populações e recursos naturais. Isto fez parte de um projeto de um almirante dos USA, que apresentou o seu projeto de “pacificação” destes paíse produtores de petróleo e gás, aprovado e colocado em prática desde o “11/09 Torres Gêmeas” (onde a destruição dos edificios foi  comprovadamente feita  todos como um “internal job” do governo Bushinho  (CIA, Deep State, Forças armadas dos USA) em associação com Arabia Saudita e Israel. 

      Tudo feito á semelhança do que acontece nos demais países quebrados da Europa, como Grécia, Espanha, Itália, etc.,  incluindo tambem os latinos americanos Argentina, Chila, Equador, Brasil, Colombia, etc..  A destruição da sociedade americada, aí incluidas as suas classes média e pobres, talvez seja o exemplo mais expressivo, onde não mais existe educação pública de qualidade, saúde destruida, empregos para estas classes inexistentes, habitação em conteiners já que as casas ou foram ou estão sendo perdidas, sem nenhum projeto de governo para sair desta situação e pelo contrarior agravando-á ainda  mais.

      O Brasil é mais uma pedra neste jôgo, razão pela o Lula não pode se candidata/concorrer a presidência, pois sua eleição ao cargo poderia contrariar o “sistema”!  

  4. Vai tudo bem no pais do

    Vai tudo bem no pais do golpe?

    Você busca informações no G1 e o culpado da queda do comércio pelo segundo mês consecutivo é a Greve dos Caminhoneiros…

    O golpe e golpistas não tem culpa nenhuma…

    Os aumentos tresloucados da gasolina não tem culpa nenhuma…

    Ainda vão culpar os desempregados pelo desaquecimento da economia…

      • Já falam nas entrelinhas
        Já falam nas entrelinhas quando “vendem” que “o brasileiro é um empreendedor nato”: isentam o Estado de qquer ação pública em proteção ao trabalhador e esvaziam os descontentes quando mostram os casos de sucesso, a dizer: “Viu!?! Basta arregaçar as mangas, ralar bastante e vencer!!!”. Esquecem de dizer um tanto que desqualificaria esse mote, mas não há interesse nisso… O importante é isolar quem quer conscientizar (nao precisa, eu faço isso – OG e grande midia) ou quem pode ocupar o espaço tomado com políticas públicas que protejam e façam avançar os desassistidos. A massa cresce exponencialmente depois da ref trabalhista. E as empresas agem com cada vez maior ímpeto na inobservância dos direitos trabalhistas e no ignorar suas obrigações.

    • Depois de dois meses culpando
      Depois de dois meses culpando os caminhoneiros a Globonews abraçou a Argentina. Agora é o país vizinho o motivo para nossos problemas renitentes na economia.

      E foi a 2012 para culpar os aumentos das tarifas de energia.

      Com o golpe, distorcer, mentir, extrapolar, inventar, tudo é aceito desde que usado para responsabilizar a “esquerda”, lato sensu…

      Quando a mídia elogia ou blinda a ação deletéria e irresponsável desse (des)governo, o objetivo é um só: esvaziar qualquer argumento que fortaleça a esquerda/progressistas. Importa impedir o retorno a qualquer preço.

    • Essa é campeã, temos aí a

      Essa é campeã, temos aí a evidência cabal de que já adentramos o reino de Mefistófeles.

  5. Se bobear, tal como a eleição

    Se bobear, tal como a eleição de Collor, vão eleger um Bolsonaro derrotando o candidato de Lula.

  6. acho que faltou ligar os pontos

    Sinceramente, se tem algum empresariado pagando a conta acho não é o ‘invertebrado’, é o pequeno. O grande empresariando não está pagando conta nenhuma, está recebendo a conta do apoio ao golpe: reforma trabalhista, isenções fiscais – como as monstruosas do orçamento do próximo ano – e por aí vai. Se a produçao vai mal, o grande empresariado faz ‘hedge’ nos mercados financeiros, eles não pagam conta nenhuma nunca. Duvido que o Itaú, o Safra, a Ambev, a Globo e a Record – para ficar em alguns exemplos – estejam pagando alguma conta!

    Falta ligar esse ponto ao outro ponto a ditadura das corporações da repressão estatal; tem setores do funcionalismo público  pagando muito caro essa conta, principalmente nos Estados!. E claro que uma politica ultraneoliberal que visa ‘nenhum direito’ para os trabalhadores com o objetivo de extrair o máximo até o limite da semi-escravidão precisa de uma repressão em altíssimo grau para ser viável. Não acredito que as forças repressivas estejam sendo movida somente por princípios ideológicos abstratos. Os juízes segundo pesquisas com base na declaração do imposto de renda – li na carta capital essa matéria – estão entre os 1% mais ricos do Brasil, junto com os gerentes e altos executivos das grandes coporações cotadas na bolsa,donos de cartório, diplomatas, médicos e advogados(é uma média, certamente tem médicos e advogados que estão ‘pagando a conta’). São a mesma classe, o mesmo estrato social, os mesmos valore$.E esse estrato já tem um plano A e B: com qualquer um deles o o mercado na figura de economistas ligados ao BGT Pactual é quem vai governar.

  7. Expurgo
    Desde o Luís Nassif Online, não dá mais para separar o joio do trigo: urge um expurgo total na magistratura e promotorias: todos no olho da rua sem direito a nada e respondendo por peculato e organização criminosa.

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