10 de junho de 2026

Brasil, quem desdenha quer vender (III), por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

A agropecuária é a maior beneficiária do território nacional e é o setor que menos paga impostos em relação ao que produz.
FOTO: ASCOM ADEPARÁ

Brasil, quem desdenha quer vender

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Na primeira parte desta série, procurou-se enfatizar que é impossível administrar um estado sem que sua área seja considerada pelo sistema tributário em vigor, o que não acontece explicitamente. Há o ITR (Imposto Territorial Rural), que é arrecadado pela federação e transferido integralmente aos municípios. Hipoteticamente, seria proporcional à área municipal, considerando-se que a arrecadação ocorre sobre o valor das propriedades rurais nele contida, valor este que leva em consideração a área de cada imóvel. Isso não alivia a distorção, como demonstrado na tabela 1.1, que apresenta a arrecadação dotal do estado dividida pela sua área. Enquanto o Rio de Janeiro arrecada mais de R$1 milhão/Km², o Amazonas arrecada somente R$9 mil/Km2 em números redondos. Além da distorção em si, procurou-se evidenciar que a agropecuária é a maior beneficiária do território nacional e, contraditoriamente, é o setor que menos paga impostos em relação ao que produz. Tornou-se patente o motivo fiscal para a má vontade que os estados demonstram acerca das áreas de reserva, sejam florestais, sejam terras indígenas. É que, nelas, a perspectiva de arrecadação é nula.

Na segunda etapa, introduziu-se a população, demonstrando-se que, além da disparidade em arrecadação por área, há um desnível considerável na arrecadação per capita. Prova desse descalabro é o rio de Janeiro com uma arrecadação de mais de R$1 milhão/Km2 e enquanto a per capita é pouco maior que R$3 mil. O Mato Grosso do Sul, em oposição, arrecada mais de R$7 mil per capita, com somente R$65 mil/Km². Nem mesmo Minas escapa ao desnível, mesmo sendo um dos estados mais industrializados e populosos do país. Fica claro que o pacto federativo brasileiro precisa ser repensado. É impossível conservar a biodiversidade e a integridade de nossos biomas com estados que correspondem a mais de duas vezes o tamanho da Espanha.

Nesta última matéria pretende-se esmiuçar a solução brevemente ventilada nas  anteriores, Trata-se do uso do ITR arrecadado de forma progressiva, aumentando substancialmente a participação da agropecuária no volume fiscal do país.  A intenção é que o tributo seja cobrado por entidade produtora, não por propriedade, visto que, como discutido em outra matéria, há uma inversão fundiária no país. Aqui, para otimizar a taxa interna de retorno, aproveitando a mudança de geração do empresário rural, há uma séria tendência de as terras serem arrendadas para grandes grupos produtores. É o pequeno proprietário alugando sua propriedade para que um grande grupo possa eliminar barreiras ao seu maquinário. Se um sítio de lazer estiver no caminho das máquinas, será arrendado também. Assim, se um produtor tiver 100.000 ha em seu nome e arrendar mais 600.000 ha, deverá pagar o ITR pela alíquota atribuída a 700.000 ha.

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O montante seria dividido em duas porções. A parte equivalente à arrecadação atual continuaria sendo repassada aos municípios, enquanto o acréscimo oriundo da progressividade seria destinada a compensar a perda de perspectiva de cobrança devida às áreas de preservação e terras indígenas. Esse excedente de contribuição seria distribuído entre os estados consoante ao peso das áreas intocáveis na sua área total, como demonstrado na tabela 3.1, cujos dados referem-se somente aos estados da Amazônia Legal. É que, pelo número de colunas, o manuseio ficaria difícil contando-se com todas as unidades da federação. Além do mais, é nessa região em que a preservação mais pesa. Pela dificuldade de levantamento de todos os tipos de áreas de preservação, a tabela 3.1 considera somente as terras indígenas com dados até 2014. Depois daquele ano, não se demarcou qualquer terra indígena significativa. Isso a transforma em mera ilustração sem grande rigor científico, mas não lhe tira o poder explicativo.

Mesmo restringindo-se a região, surge uma nova disparidade, em que Maranhão e Tocantins contam com áreas de preservação muito menores que Roraima, em que 46% do território dedicaram-se ao assentamento de povos indígenas. Na região, aliás, devido à cobrança do ICMS no destino, como estudado na etapa anterior, a arrecadação per capita é a melhor do grupo. Mesmo assim, pelo algoritmo usado, nota-se que estados como Amazonas e Pará ficam quase impossíveis de serem administrados, seja pela arrecadação por área, seja per capita, apesar de contarem com grandes aglomerações urbanas. Não é à toa que o Marajó apresenta o pior índice de qualidade de vida do país.

Naturalmente, como demonstra a tabela 3.1, o subsídio federal tem custo, porém, ele não excede o previsto para o orçamento secreto nas LDO para 2023. O ganho parece ser muito mais relevante do que o dispêndio, principalmente, se os estados deixarem de ver essas áreas como estorvo e passarem a ajudar a preservá-las.

É preciso insistir que esta série de matérias não pretende apontar uma solução para as questões tributárias do Brasil, mas tenta dar um panorama das distorções pouco estudadas nesse âmbito. Independentemente do que venha a acontecer durante as discussões para a reforma tributária que, a despeito de quem vença as eleições, é inadiável, arrecadar a partir da agropecuária é inexorável, assim como considerar a área dos estados como variável independente no modelo.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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  1. ze sergio/sorocabanoburaco

    26 de julho de 2022 11:39 am

    A Cleptocracia se desespera vendo seu Projeto de Poder destes 92 anos derretendo. Na mesma Página o endeusamento à Ditadura Totalitária Assassina enquanto do outro lado o velho discurso a combater e criminalizar a Sociedade Civil do Trabalho Livre, Desenvolvimento, Prosperidade, Salários, Empregos, Liberdade representados pela AgroPecuária Brasileira. É surreal !!! Não entram na Conta da Exploração Tributária, que bate a casa dos 40%, sustentando Parasitismo e Corrupção dentro dos Feudos da Cleptocracia do Estado Brasileiro, os tais Valores de ITR? Somente 40% de Carga Tributária?!!! O Setor Econômico que representa mais de 1/3 do PIB Brasileiro?!!! Vamos falar em Desonestidade Intelectual?? Vai faltar Dinheiro para tanta Lei Rouanet ?!! Para os Milhares de Carros Pipas do Coronelato da SUDENE a prosperar na Indústria da Seca? Para Hospitais de Campanha Vazios e Fábrica de Vacina Placebo de Calcinha Apertada sem Registro e sem demanda, onde foram enterrados mais de 2,5 Bilhões de Reais? Fechada antes de abrir !!! Cadê os 2,5 Bilhões?!! Vai faltar dinheiro para Prefeituras pelo Interior do país, estas mesmas onde os Trabalhadores Brasileiros lutam com sua AgroPecuária, pagando por Shows de Cantores a 1 milhão por Artista, enquanto a Estrutura da Cleptocracia preserva 92 anos de IDH’s Animalescos abaixo dos Africanos. Vai faltar dinheiro para esta mesma Prefeitura pagar mais de 400 mil reais por Mural do Kobra?? O Cidadão pode viver entre malária, leschmaniose, hanseníase e eterno discurso da Indústria da Pobreza. Não pode viver sem Mural do Kobra!!! Talvez sem esta Carga Tributária possa faltar dinheiro para 5 Bilhões de Reais de Fundo Eleitoral? Importante Projeto da Cleptocracia, para quem sabe um dia este Brasileiro que passa fome, possa comer um bife produzido por esta tal AgroPecuária Brasileira. Carne produzida por Brasileiros de um lado. Brasileiro precisando comer do outro. A Cleptocracia no meio. Qual será o verdadeiro problema do Brasil?? Mais ITR?!! Pobre país rico. 92 aos de Cleptocracia. 92 anos de Projeto de Poder, replicado em farsante e corrupta Redemocracia. Mas de muito fácil explicação.

  2. ze sergio/sorocabanoburaco

    26 de julho de 2022 11:51 am

    “…Só nas estações / quando vai parando lentamente começa a dizer se tem gente com fome / dá de comer se tem gente com fome / dá de comer se tem gente com fome / dá de comer Mas o freio de ar / todo autoritário manda o trem calar Pisiuuuuuuuuu” …”(UOL/Hoje) SolanoTrindade, o Poeta Negro em 1944, escancarando a FOME do Projeto Esquerdopata Fascista de 1930 durante a Ditadura Fascista e Estado Novo. Pobre país rico. 92 anos. Projeto de Poder. Mas o ÓBVIO para Alguns é de difícil compreensão. Ou querem fazer parecer que seja. Mas de muito fácil compreensão.

  3. José de Almeida Bispo

    28 de julho de 2022 11:17 am

    Resta combinar com a cultura de capitães hereditários. Certa família Guedes, por exemplo. Rsrsrsrsrsrsrs

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