21 de junho de 2026

Chanceler alemão declara “Não sou pacifista, mas é preciso evitar uma terceira guerra mundial”, por Arnaldo Cardoso

Olaf Scholz salientou que a decisão da Alemanha de fornecer armas para a Ucrânia em meio a esse conflito foi uma “mudança profunda de rumo” na política de defesa alemã

Chanceler alemão declara “Não sou pacifista, mas é preciso evitar uma terceira guerra mundial”

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por Arnaldo Cardoso

Na semana em que a guerra na Ucrânia entrou em seu terceiro mês com aumento da intensidade dos ataques russos e maior envolvimento das potências ocidentais no apoio à Ucrânia, uma longa e áspera entrevista do chanceler alemão Olaf Scholz para o semanário DER Spiegel expôs razões que justificam uma elevação da percepção da gravidade da situação em que o mundo se encontra, e mudanças estruturais já impostas ao mundo em termos de segurança mundial, seja qual for o desfecho da guerra.

A entrevista de Scholz (principais trechos destacados abaixo) foi publicada na edição 17/2022, de 23 de abril, com a chamada de capa “Wovor haben Sie Angst, Herr Scholz?(“Do que você tem medo, Sr. Scholz?”) (tradução livre).

Na primeira metade da longa entrevista, concedida aos jornalistas Melanie Amann e Martin Knobbe, no escritório da Chancelaria, depois de responder que tanto ele quanto o seu partido (SPD) não são pacifistas, Scholz foi insistentemente questionado sobre a sua resistência em atender reiterados pedidos do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky para o envio de armamento pesado para que a Ucrânia consiga manter sua resistência na guerra e impedir a vitória da Rússia.

Não é pacifismo, é responsabilidade política

Primeiramente, argumentando sobre sua posição de não-pacifista, o chanceler alemão pontuou “No mundo em que vivemos, é necessário garantir a nossa própria segurança com uma capacidade defensiva suficiente”, e complementou afirmando que isso implica em aprovar a participação da Bundeswehr (as Forças Armadas alemãs) no exterior, sendo disto exemplo a participação alemã na guerra no Afeganistão, após o 11 de setembro de 2001, aprovada pelo ex-chanceler Gerhard Schröder, do SPD.

Refutando críticas de timidez no apoio alemão à Ucrânia, Scholz ressaltou que esse apoio já soma cerca de 2 bilhões de euros, e está baseado no fornecimento de armas defensivas – armas e minas antitanque, equipamentos antiaéreos, munições de artilharia e veículos – disponíveis no estoque da Bundeswehr e materiais que a indústria alemã é capaz de repor rapidamente.

Diante da insistência dos jornalistas sobre o envio de armas pesadas, mais sofisticadas, o chanceler utilizou o argumento de que “o equipamento militar deve ser implantado sem treinamento demorado, sem logística adicional e sem soldados de nossos países” […] “é preciso observar de perto o quão operacional cada material realmente é – e em quanto tempo”.

Ainda pressionado por um maior engajamento no fornecimento de armas pesadas à Ucrânia o chanceler alemão fez saber que nesse cálculo tem levado em consideração que “a ameaça da Rússia ao território da OTAN persiste” e, diante disto, a Bundeswehr tem reforçado também seu apoio aos parceiros do Báltico, unidades na Lituânia e Eslováquia entre outros.

Demonstrando real preocupação com a possibilidade de uma escalada da guerra, o chanceler alemão expôs que “o objetivo declarado da OTAN é que sejamos capazes de resistir por 12 dias com nossas munições e equipamentos no caso de um ataque convencional”.

Mudança profunda de rumo

Olaf Scholz salientou que a decisão da Alemanha de fornecer armas para a Ucrânia em meio a esse conflito foi uma “mudança profunda de rumo” na política de defesa alemã e ressaltou que a Alemanha “é responsável pela paz e segurança em toda a Europa”.

Scholz frisou “Não é uma questão de medo, é uma questão de responsabilidade política” […] “Estou fazendo tudo o que posso para evitar uma escalada que levaria a uma terceira guerra mundial. Não pode haver uma guerra nuclear”.

Questionado sobre a sua percepção acerca da situação da Rússia, o chanceler avaliou que “A Rússia está enfrentando dificuldades extremas – as sanções estão causando enormes danos à economia russa; a série de derrotas militares não pode mais ser encoberta por nenhuma propaganda do governo”. Mas logo em seguida acrescentou “Se Putin fosse sensível a argumentos econômicos, ele nunca teria começado essa guerra insana”.

Democracias e autocracias

Refletindo sobre democracias e seus opositores, o chanceler alemão falou de sua leitura do livro de Masha Gessen “The Future is History: How Totalitarianism Reclaimed Russia” e contou que ele contribuiu para a formação de sua convicção de que “a Rússia está no caminho da autocracia há muito tempo”.

Sobre os termos para o fim desse conflito, Scholz expõe que “Tem que haver um cessar-fogo e as tropas russas devem se retirar. Deve haver um acordo de paz que permita à Ucrânia se defender no futuro. Vamos armá-los para que sua segurança seja garantida. E estaremos disponíveis como poder garantidor. Não haverá paz ditada do tipo que Putin imaginou” […] “A Ucrânia formulará as condições para um acordo de paz, ninguém pode fazer isso por procuração. Isso seria inadequado”.

Depois de ser submetido a uma série de perguntas sobre a dependência alemã do gás russo e dos anos de cooperação entre Alemanha e Rússia em investimentos nessa área, como no gasoduto Nord Stream 2, Scholz fez a seguinte autocrítica:

“A resposta certa [à anexação da Criméia em 2014] teria sido tornar-se mais independente das importações russas, ou pelo menos ter criado as condições técnicas para poder fazê-lo a qualquer momento. E digo isso com o conhecimento que temos hoje: já deveríamos ter respondido à anexação da Crimeia com algumas das sanções que agora impomos. Isso teria surtido efeito”.

Quando questionado se a Alemanha estaria dando sinais de fraqueza ao demonstrar lentidão na deliberação e limitação de recursos para atendimento de demandas ucranianas na guerra, comparativamente aos Estados Unidos e outros parceiros, o chanceler terminou dando razão para analistas que há décadas criticam a política de defesa europeia, acomodada sob o guarda-chuva americano. Vale lembrar que a União Europeia já foi chamada, ironicamente, de “paraíso metafísico kantiano”, por desconsiderar os imperativos do poder.

Ao mencionar os cortes orçamentários das últimas décadas na Bundeswehr que a debilitaram, Scholz afirmou que “isso já está sendo mudado” e informou sobre investimentos de “100 bilhões de euros para equipar melhor a Bundeswehr”, e que “ao fazê-lo, também encorajamos outros na Europa a seguirem o mesmo caminho”.

Mas em seguida concluiu defendendo que “uma Bundeswehr mais bem equipada não significa uma mudança para uma política alemã mais agressiva”.

Habermas, Chomsky e outros intelectuais se posicionam sobre a guerra

A entrevista de Olaf Scholz ao DER Spiegel repercutiu bastante na Alemanha e em outros países.

O respeitado intelectual alemão Jürgen Habermas, de 92 anos, último expoente da Escola de Frankfurt, publicou em 28 de abril, no jornal Süddeutsche Zeitung, o artigo Krieg und Empörung (Guerra e indignação) em que endossou a cautela do chanceler Scholz em relação à ajuda militar à Ucrânia e ressaltou os riscos de “o fervor moral levar à escalada do conflito”. Ao longo de todo o seu artigo o dilema persistente parece ser o de “derrotar a Rússia ou não deixar a Ucrânia perder?”.

O sociólogo e filósofo alemão defendeu que “ao impor sanções drásticas à Rússia, o Ocidente não deixou dúvidas sobre sua real participação na guerra”, mas avaliou ser necessário que “cada passo de apoio militar, seja ponderado se, de acordo com a definição do presidente Putin, ele não ultrapassa o limite de entrada formal na guerra”.

Frisou que “Em vista do risco de uma conflagração mundial, que deve ser evitada a todo custo, não há espaço para um pôquer arriscado”.

Ao se referir aos críticos de Scholz que reclamam uma posição mais incisiva do governo alemão em ajuda à Ucrânia, Habermas chamou-os de “confiantes”, “agressivos” e “estridentes”. Expôs ainda que “O dilema que força o Ocidente a tomar uma decisão arriscada entre dois extremos – uma derrota na Ucrânia ou a escalada de um conflito limitado para a Terceira Guerra Mundial – é óbvio.”

Sem calculismo, nem reserva

Também na mesma semana foi lançado um manifesto assinado por 80 intelectuais, predominantemente de países do Sul Global, mas também com nomes como o do linguista norte-americano Noam Chomsky, com o apelo “Não nos enganemos no combate! Apoiemos as pessoas da Ucrânia sem calculismo nem reserva”.

Logo no início do texto há a afirmação de que “o exército russo bombardeia e destrói cidades, matando civis aos milhares, como fez na Chechénia e na Síria”.

Sem tergiversar, o manifesto expõe que “Na maioria dos nossos países, uma grande parte da opinião pública ficou do lado do ditador russo. Em nome de um anti-imperialismo que ao longo dos anos se transformou em ódio apaixonado, ela aplaude quem se opõe ao Ocidente”.

O manifesto é concluído com o seguinte posicionamento “recusamo-nos a apoiar qualquer ditadura sob o pretexto de que os seus adversários seriam nossos inimigos. Ao defender a guerra de Putin, privamo-nos do nosso próprio direito a sermos livres”.

Como o chanceler alemão explicitou, essa guerra já impôs mudanças profundas, mas sua evolução e desfecho é um livro que ainda está sendo escrito. 

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), escritor e professor universitário.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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3 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    2 de maio de 2022 9:47 am

    A coisa tá muito séria quando alguém surpreende a si mesmo com saudades de alguém como Angela Merkel.
    Olaf Scholz, que se declara não-pacifista, afirma que a guerra tem que ser evitada. Ora bolas, se você não é pacifista, isso significa que a guerra está entre as possibilidades admitidas para a condução oficial das relações exteriores de um país, quando essas relações degringolam.
    Algo como: “Eu sou contra a guerra, amigão, mas se você encher muito meu saco…”
    Olaf Scholz lê um livro e descobre que a Rússia está no caminho da autocracia há muito tempo. E quando, pelo amor de Deus, a Rússia não foi uma autocracia? Do século VII até o Putin, quando isso aconteceu? Durante o interregno regado à vodca do Boris Yeltsin? A democracia é uma coisa tão falaciosa, que admite emprestar seu nome a ditaduras e plutocracias, indistintamente. A revolução democrática de 64, o Estado Privado americano, as repúblicas populares e monarquias constitucionais, as democracias burguesas liberais…a democracia é uma galinha generosa que acolhe qualquer coisa sob suas asas. Para proteger ou sufocar, tanto faz. Mas segue monopolizando a produção e comercialização de ovos. O que importa? O importante é não pegar chuva.
    E vejam só, o país mais poderoso da Europa está nas mãos de um sujeito (aparentemente) simplório como esse Olaf Scholz. Será que tem medo de cachorros, como sua antecessora? Será que a Inteligência russa já passou essa informação ao Putin?
    Bolsonaro, Biden, Scholz, Johnson, Macron, Erdogan.
    Estamos em uma era de extremos no poder. Ou é um autocrata, ou um capadócio.
    E o binômio Bancos/Corporações nadando de braçada.
    Não sei se Xi Jinping (ou seus sucessores) vai, com o tempo, nos mostrar algum outro caminho. A China ainda é uma experiência em processo. E por que Xi Jinping? Porque de Bolsonaro, Biden, Scholz, Johnson, Macron, Erdogan, e outros menos votados, não se deve esperar nada que não seja morte, miséria e destruição.
    Lula? Ainda seguimos assombrados com a velha cantilena do Corvo: se candidato, não pode…se eleito, não pode…etc.
    E o binômio Bancos/Corporações nadando de braçada, irmãos

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    2 de maio de 2022 10:11 am

    A esquerda alemã voltou a cometer o erro que provocou a destruição da Europa na I Guerra Mundial. Não é possível evitar uma guerra entregando armamentos à uma nação que merece ser derrotada. Isso só prolongará o conflito e o expandirá em decorrência das desconfianças e ódios que esse comportamento desperta. É uma estupidez estimular o nacionalismo num país que está em paz. Isso acarretará o aumento do nacionalismo nos países que já estão em guerra. As retaliações que a Alemanha impõe à Rússia irão ferir apenas a própria economia alemã (algo que já está ocorrendo). O governo alemão cedeu à pressão dos EUA, esquecendo-se que quem está mais perto do fogo (a Alemanha) é que irá se queimar primeiro quando a guerra desbordar das fronteiras da Ucrânia. A escolha colocada diante do premiê alemão não era pacifismo/não pacifismo e sim a rejeição ativa do militarismo que estimulará apenas a belicosidade dos russos.

  3. AMBAR

    2 de maio de 2022 11:40 pm

    Enquanto Ângela Merkel andava de salto alto com Putin e brindava o “Nord Stream ” com deliciosas caipirinhas de vodka, Olaf, dá um tiro em cada pé e quer tirar o Putin pra dançar. Vai ter que se mancar.
    Sinceramente, cidadão, acorda pra vida!
    Olaf, de primeiro ministro, se não ficar esperto, pode ser o último ministro da Alemanha.

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