Arquibancada de geopolítica, primeiro tempo
por Felipe Bueno
Deixe de lado por um momento o noticiário internacional. Não haverá, pelos próximos dias, fonte tão rica quanto a Eurocopa sobre a complexidade das relações entre os países. Aulas e mais aulas de História e Geopolitica. Está lá, por exemplo, a Ucrânia, com muito mais apoio midiático que qualidade técnica, posto que, desde 2022, é o front ocidental na nova Guerra Fria contra a Rússia; estão lá a Croácia e a Eslovênia, duas nações da antiga Iugoslávia – e também a Albânia, que quase fez parte do pacote, unidas pela vocação de desprezar a Sérvia – cuja torcida, em parte, já andou dando recados dentro e fora do estádio, e não foi a única; estão lá a Tchéquia e a Eslováquia, conflituosas companheiras do período soviético; também a Áustria e a Hungria, todo um antigo e esfacelado império que já passou por dias melhores; está lá, claro, a sempre distante Inglaterra, terra-mãe do futebol, europeia apenas quando lhe convém. Estão lá jogadores com duplas ou triplas nacionalidades, falantes de vários idiomas e dialetos, resultados de gerações e gerações de europeus que atravessaram e ainda atravessam as linhas reais e imaginárias do continente. A cada quatro anos, um riquíssimo estudo de caso.
Mas, falemos de alturas. Do ponto de vista da efervescente política interna europeia, o lado progressista da humanidade já teve seu primeiro heroi em poucos dias de disputa futebolística: Kylian Mbappé não fez gol na estreia, mas, antes de entrar em campo, em entrevista, convocou os jovens franceses a votar nas próximas eleições, e alertou para o avanço da extrema direita no país e no mundo.
Goste você ou não do atleta francês, deve reconhecer que uma declaração como esta o torna muito maior que seus 1,78m enquanto cidadão – especialmente numa nação em que o termo citoyen tem tanta importância.
Se Mbappé foi o primeiro homem público a mostrar sua grande altura nesta Eurocopa, o primeiro a tornar-se nanico foi o goleiro espanhol Unai Simón, que, a despeito de seus 1,90, apequenou-se ao reconhecer, também em entrevista, que faz parte da equipe dos isentões, aqueles atletas que não devem se pronunciar sobre política e só falam sobre temas esportivos.
Nas próximas semanas, as arquibancadas e as ruas da Alemanha viverão inúmeros capítulos de micro e macro conflitos, alianças, traições, esperanças e desilusões. Um único país será vencedor; ao mesmo tempo, um continente inteiro, que um dia se supôs também único, lutará para não cair para a segunda divisão do mundo civilizado.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
Deixe um comentário