21 de maio de 2026

Especialistas analisam impacto do narcotráfico na América Latina e criticam ações unilaterais dos EUA

A retórica de combate ao narcotráfico foi usada como justificativa para ações militares no Caribe, especialmente contra a Venezuela
Crédito: Reprodução/ TVGGN

▸Especialistas discutem papel do narcotráfico nas dinâmicas políticas e econômicas da América Latina durante programa de Geopolítica.

▸Retórica de combate ao narcotráfico usada por Trump justifica ações militares no Caribe, gerando instabilidade na América do Sul.

▸Colômbia é principal produtor de cocaína na América do Sul; escoamento da droga ocorre majoritariamente pelo oceano Pacífico.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Durante o programa Observatório de Geopolítica, transmitido na última sexta-feira (7), especialistas em relações internacionais debateram o papel do narcotráfico nas dinâmicas políticas e econômicas da América Latina, destacando as implicações geopolíticas da política norte-americana de combate às drogas.

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A apresentadora Regiane Bressan abriu a discussão lembrando que o narcotráfico, embora não seja um tema novo, continua central nas relações entre os Estados Unidos e os países latino-americanos. “Se tratando especificamente de um fenômeno que é transnacional, o narcotráfico não tem uma característica especificamente nacional, ao contrário, ele consegue se utilizar muito bem daquilo que foi vendido décadas atrás como sendo as benesses da globalização, a diminuição das fronteiras, as tecnologias de informação, de comunicação, de transporte, e acabou se tornando um dos grandes fluxos comerciais do mundo, e isso acontece porque há uma demanda gigantesca por essas drogas”, destacou.

O debate contou com a participação da professora Carolina Pedroso, especialista em América Latina e Estados Unidos pela Unifesp, e de José Maria de Souza Júnior, doutor em Ciência Política pela USP e diretor das Faculdades Integradas Rio Branco.

Combate às drogas

Regiane contextualizou o tema lembrando que, durante o governo Donald Trump, a retórica de combate ao narcotráfico foi usada como justificativa para ações militares no Caribe, especialmente contra a Venezuela, sem necessidade de aprovação do Congresso norte-americano, tendo em vista o interesse no petróleo venezuelano.

Segundo ela, esse tipo de ofensiva cria instabilidade em toda a América do Sul e reforça a necessidade de alianças regionais. “O grande problema da região é pobreza e desigualdade. Se não tivéssemos índices tão altos, não teríamos pessoas tão vulneráveis para trabalharem no narcotráfico.”

Produção de cocaína

A professora Carolina Pedroso destacou que o narcotráfico é um fenômeno essencialmente transnacional, potencializado pela globalização e pelas novas tecnologias. “O narcotráfico ele não tem uma característica especificamente nacional. Ao contrário, ele consegue se utilizar muito bem daquilo que foi vendido décadas atrás como sendo as benesses da globalização, a diminuição das fronteiras, as tecnologias de informação, de comunicação, de transporte, e acabou se tornando um dos grandes fluxos comerciais do mundo”, explicou.

Segundo ela, a Colômbia segue como o principal produtor de cocaína da América do Sul, seguida por Peru e Bolívia. Esses dois últimos países mantêm uma relação cultural antiga com a folha de coca, usada tradicionalmente pelos povos andinos para lidar com as condições de altitude, mas cuja produção também é desviada para fins ilícitos.

Carolina ressaltou ainda que, do ponto de vista logístico, o escoamento da cocaína ocorre majoritariamente pelo oceano Pacífico, e não pelo Caribe, como muitas vezes se supõe. “Falamos de um volume de mais de 74% da produção de cocaína que é escoada pelo Pacífico e não pelo Caribe. Então, uma parte vai pelo Caribe, outra parte vai por terra. Então há sim, do ponto de vista logístico, uma presença das chamadas narcolanchas, das lanchas que fazem esse transporte da droga, mas elas não são exatamente o modal de transporte mais significativo”, afirmou, citando dados da ONU.

A professora criticou a “desproporcionalidade” da ofensiva norte-americana no Caribe. “Não temos realmente clareza e certeza de que se tratavam de narcotraficantes, mas mesmo se tratando de narcotraficantes, esses ataques e essas agressões violam diretamente o Direito Internacional, que prevê que em águas internacionais, não havendo ameaça iminente, não deve haver nenhum tipo de ataque desse tipo.”

Para Carolina, o discurso de Trump de que “cada lancha destruída salva vidas norte-americanas” é contraditório. “É, no mínimo curioso, o fato de que ele está tão preocupado com o transporte das drogas, mas a gente não tem visto nenhuma iniciativa concreta de controle do consumo das drogas.”

Redes criminosas

José Maria destacou a internacionalização e o alto grau de sofisticação do crime organizado. “A gente tem, na verdade, um processo logístico bastante complexo e multimodal, que combina diferentes meios de transporte. E a gente tá falando de um volume de droga que é bastante significativo para a América do Norte”, afirmou.

O pesquisador lembrou que operações recentes da Polícia Federal brasileira, como Carbono Oculto, Tanque e Quasar, revelam a complexidade financeira e logística dessas organizações. Ele também alertou para a fragilidade institucional de países como o Equador, que, embora não seja produtor, se tornou uma rota estratégica de escoamento, especialmente pelo porto de Guayaquil. “O Equador tem a economia dolarizada. Isso não resolve o problema do desenvolvimento equatoriano ou da estabilidade econômica equatoriana, mas facilita infinitamente o comércio de droga no país.”

Desigualdade

Regiane reforçou que a pobreza e a desigualdade estrutural são fatores determinantes para a expansão do narcotráfico na região e lembrou que muitos dos movimentos guerrilheiros da Colômbia surgiram nos anos 1960 com pautas agrárias e, ao longo das décadas, foram empurrados para atividades ilícitas diante da ausência de políticas de reforma agrária e inclusão.

Já Carolina Pedroso abordou a expansão do fentanil ilícito, um opioide sintético extremamente potente, cerca de 100 vezes mais forte que a morfina, que tem devastado comunidades nos Estados Unidos.

A professora observou que, diferentemente da cocaína, o fentanil é produzido em laboratórios e muitas vezes chega aos EUA por meio de redes asiáticas e mexicanas, o que amplia a complexidade do enfrentamento.

Os participantes foram unânimes em defender que o enfrentamento ao narcotráfico exige cooperação internacional, respeito ao direito internacional e políticas sociais robustas.

Confira o programa na íntegra:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
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  1. Lênin and The Ulianovs

    9 de novembro de 2025 5:32 pm

    Todas as redes criminosas, sejam o tráfico de pessoas, armas, drogas e o terrorismo servem às grandes potências como justificativa intervencionista há, pelo menos, décadas e décadas.

    A “divisão internacional do trabalho” é clara: países desiguais (e pobres, mas pobreza nem sempre entra nessa equação) ficam com a violência, a produção e as plataformas primárias da logística.

    Os países do primeiro mundo (Europa e EUA) com o consumo e as grandes redes sofisticadas de comércio, ao mesmo tempo em que exportam armas (legais e ilegais), equipamentos (aeronaves tripuladas ou não, softwares, hardwares, etc, etc), justamente para exigir que os “países produtores” reduzam ou acabem com a oferta, enquanto, paradoxalmente, a demanda deles segue subindo…

    A conta não fecha… Nunca…

    Paralelamente, todo o sistema financeiro (que tem origem nos países ricos ) se esbalda na dinheirama ilegal, bem como o mercado de produtos de altíssimo luxo, carros, jóias, arte, barcos, aviões, etc…

    Historinha rápida: em 2008, o dinheiro disponível no sistema bancário internacional, cuja origem era “suspeita”, foi integralizado (nome bonito para lavado), para garantir liquidez na quebradeira geral…

    Pouco tempo depois, o escritório do DA de NY (District Attorney) processou o HSBC por lavar dinheiro do Cartel de Ciudad Juárez…

    Rebuliço…agora vai, imaginaram os crédulos…

    Resultado, o banco fez acordo, levou uma multa simbólica de US$ 1.3 bi, uma merreca.

    Ninguém mais tocou no assunto, e esqueceram inclusive a evidência física do escândalo: os guichês do banco (e de todos concorrentes) da cidade mexicana de fronteira eram adaptados para receberem os baús enormes de dinheiro.

    Ou seja, não tem outra forma de resolver essa questão senão a descriminalização completa do uso e venda de drogas, com controle semelhante ao de drogas controladas, na indústria farmacêutica…

    Vai dar problema, como a crise do oxicontin/Wal Mart/ médicos e indústria, que gerou os zumbis do fentanil?

    Sim, pode dar…mas não adianta expulsar ou afastar o controle e/ou a fiscalização dos Estados Nacionais, e ignorar que se trata de um problema de saúde pública, que deve ter seus custos debitados do oceano de dinheiro movimentado pelos que lucram com a atividade…

    Assim como não dá para aceitar que as possíveis mortes de usuários, por abusos no uso de substâncias ilícitas (que devem ser tratados), e ainda acrescentar outras tantas de policiais, dos envolvidos nas cadeias de crime, e pior, de pessoas que nada têm a ver com o problema, atingidas em ônibus, carros, ruas e em suas casas.

    Sugestão de filmes:

    Traffic, com Michael Douglas e;
    Made in America, com Tom Cruise.

  2. Rui Ribeiro

    12 de novembro de 2025 9:00 am

    “Historinha rápida: em 2008, o dinheiro disponível no sistema bancário internacional, cuja origem era “suspeita”, foi integralizado (nome bonito para lavado), para garantir liquidez na quebradeira geral…”

    Vdd esse bilete? Se sim, não me surpreende

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