Apesar do bloqueio naval dos Estados Unidos e das ameaças de Donald Trump, uma parcela significativa das embarcações que atravessam o Estreito de Ormuz continua utilizando a rota reivindicada pelo Irã. Ao mesmo tempo, a maioria dos navios desliga seus sistemas de identificação para esconder o trajeto seguido.
Entre 1º e 19 de agosto, 236 embarcações atravessaram o estreito, segundo os dados da empresa de inteligência marítima Kpler analisados pela Al Jazeera. Dessas, 83 utilizaram abertamente a rota próxima à costa iraniana, enquanto apenas três declararam ter seguido a rota próxima a Omã e duas utilizaram a antiga passagem central.
Outras 148 embarcações — mais de 60% do total — navegaram com rotas desconhecidas ou em modo “dark”, quando o sistema de identificação automática (AIS) é desligado ou os dados disponíveis não permitem determinar com segurança o corredor utilizado.
O fenômeno dificulta uma resposta definitiva sobre quem efetivamente controla o estreito. Mas o padrão de navegação oferece uma indicação importante sobre os riscos que as empresas de transporte consideram mais graves.
Entre os navios que transportavam petróleo, gás natural liquefeito (GNL) e gás liquefeito de petróleo (GLP), foram registrados 112 trânsitos no período. Vinte e um utilizaram abertamente a rota iraniana, contra apenas dois que declararam a rota omanense. Os outros 89 — mais de 80% — tiveram trajetos classificados como desconhecidos ou “dark”.
A preferência pela ocultação está relacionada ao fato de que tanto o Irã quanto os Estados Unidos já atacaram embarcações durante a guerra, acusando-as de violar suas respectivas regras ou bloqueios. Para os operadores, desligar o transponder reduz a exposição da localização e dos movimentos do navio, embora aumente os riscos para a segurança da navegação.
Rotas clandestinas expõem disputa entre Washington e Teerã
Antes da guerra, o Estreito de Ormuz era tratado como uma única via marítima, com os navios seguindo corredores de navegação estabelecidos principalmente por questões de segurança, contratos de transporte e destinos portuários. A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã fragmentou esse espaço em duas rotas principais.
A rota iraniana, ao norte, passa próxima às ilhas de Larak e Qeshm e leva a portos e terminais iranianos. É a passagem que Teerã exige que seja utilizada. Já a rota omanense, ao sul e mais distante da costa iraniana, é a defendida por Washington e utilizada por embarcações comerciais que contam com proteção naval norte-americana.
O problema é que muitas embarcações passaram a navegar sem identificação justamente para evitar serem transformadas em alvos. Segundo especialistas ouvidos pela Al Jazeera, a prática também permite operações de transferência de cargas entre navios em alto-mar, dificultando o rastreamento da origem e do destino das mercadorias.
A redução do tráfego já produz efeitos sobre os mercados de energia. O petróleo Brent, que custava cerca de US$ 66 por barril antes do início do conflito, chegou a superar US$ 100 durante a guerra e atingiu US$ 119 em março. Com a nova escalada das tensões, a cotação estava em US$ 92,90 por barril na manhã de 20 de agosto.
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