O que vem se caracterizando como uma guerra fria comercial, Donald Trump fez um novo anúncio de demonstração de poder, indicando que não irá recuar e que os Estados Unidos irão controlar as regras do jogo mundial. Como resposta, Europa recua e indica tentar um diálogo com os EUA.
Nesta quarta-feira (09), o líder norte-americano indicou suposta “bondade” com “aqueles que não retaliaram” e apertou o pulso contra a China, a potência que mostrou que equiparará, em igual tom, as penalizações tarifárias contra os EUA.
“Autorizei uma PAUSA [em letras maiúsculas] de 90 dias e uma Tarifa Recíproca substancialmente reduzida durante esse período, de 10%, também com vigência imediata”. A “bondade” foi feita aos 75 países que “lidaram para representantes dos Estados Unidos” para “negociar uma solução”.
Na prática, Trump mostrou contentamento com as nações que suplicaram ajuda aos Estados Unidos, referendando, em gestos diplomáticos, o poder de decisão do país sobre o resto do mundo.
A União Europeia respondeu no que seria um recuo a retaliações: “Queremos dar uma chance às negociações”. “Enquanto finalizamos a adoção das contramedidas da UE que tiveram forte apoio de nossos Estados-membros, nós as colocaremos em espera por 90 dias”, disse presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nesta quinta-feira (10).
A suspensão é apresentada como uma tentativa de evitar o agravamento das tensões econômicas com os EUA, em um momento em que Washington volta a adotar medidas unilaterais contra parceiros tradicionais, como a China. A estratégia europeia, no entanto, escancara os dilemas de um bloco que hesita entre a retórica da reciprocidade e a dependência dos mercados norte-americanos.
“Nosso objetivo é manter a estabilidade nas relações comerciais transatlânticas”, afirmou Von der Leyen, sem esconder o tom diplomático que caracteriza a política externa europeia nos últimos anos. Mas, nos bastidores, o recuo tem sido visto por analistas como uma tentativa de não provocar retaliações mais duras por parte de Trump, cujo governo vem apostando no endurecimento contra importações estrangeiras como bandeira central.
A decisão contrasta com os movimentos recentes de outras economias. O Brasil, por exemplo, aprovou recentemente a Lei da Reciprocidade Econômica no Senado, dando sinal de que não aceitará novas barreiras comerciais sem resposta. Já a China, constantemente provocada por Trump, respondeu com a ameaça de um pacote bilionário em novas tarifas contra produtos norte-americanos.
No caso europeu, a suspensão das tarifas preocupa setores industriais locais, especialmente na França e na Alemanha, que vinham pressionando Bruxelas por medidas mais assertivas. Os produtores de aço e alumínio, principais alvos das sobretaxações impostas por Trump, temem que o gesto de boa vontade europeu seja interpretado como fraqueza.
No impasse global, a decisão de Von der Leyen revela um receio da Europa diante da nova configuração geopolítica do comércio. Enquanto Estados Unidos e China travam uma disputa cada vez mais agressiva, e países como o Brasil tentam fortalecer seus mecanismos de defesa econômica, a UE tenta evitar confrontos diretos.
O risco, agora, é que o gesto europeu não seja suficiente para conter o avanço das tarifas norte-americanas. Com o retorno de Trump ao protagonismo político, tudo indica que a trégua será temporária — e que a próxima rodada da guerra comercial pode estourar o quanto antes.
Paulo Nogueira
10 de abril de 2025 2:48 pmO fanfarrão amarelo já deve estar se rastejando aos pés do Xi Jinping, na surdina para não melindrar o seu gado.
Antonio Uchoa Neto
10 de abril de 2025 3:38 pmA Europa, enquanto ator político no mundo (1648-1945), era um cadáver insepulto. O autor de seu obituário, Jean-Paul Sartre (aqui: https://www.marxists.org/portugues/fanon/1961/condenados/prefacio.htm). Seu coveiro, agora estamos vendo, Donald Trump. A propósito da morte de Milan Kundera (11/07/2023), escrevi isso, aqui no GGN: “O europeu kunderiano, oprimido pelo “totalitarismo” (expressão aliás consagrada e difundida por uma Milan Kundera de saias, a sra. Hannah Arendt) soviético e a barbárie comercial e insaciável, além de inculta, dos americanos, ficou lá, em meio a séculos de refinamento cultural e luxos palacianos, limitando-se a lamentar, a partir dessa realidade sofrível, o que poderia ter sido e não foi, o esplendor humanitário e iluminista da Civilização europeia, esquecendo-se de que essa mesma civilização é fruto da mais deslavada exploração das riquezas e recursos de outras terras, e de uma violência inimaginável. Supondo levar cultura e justiça – sobre os vistosos disfarces de Deus e Democracia – ao resto do mundo não branco e sem olhos azuis, para lá levaram a morte, o genocídio, a rapina, o massacre, etc., etc., etc. E disso esperavam extrair Paz e Justiça, e Igualdade, e convívio civilizado entre os povos.”
A Europa se comporta diante dos Estados Unidos – de Donald Trump, melhor dizendo – como o bobo-da-corte do “Rei Lear”, de Shakespeare. Com uma diferença trágica: O Rei Lear entendia perfeitamente as alfinetadas (algumas bastante cruéis, diga-se) que recebia de seu bobo, embora não as levasse a sério. Trump também despreza intensamente os europeus (o desprezo típico de ignorantes poderosos por gente culta mas subalterna), e sequer chega a entender do que se trata o declínio europeu. Não tem cognição nem capacidade crítica, para tanto. Tudo se resume, para ele, a um tipo de “perdeu, mané”.
Triste fim, Europa. Será que ao menos conseguirás descansar em paz, ou ainda terás que ceder teu território para mais algumas guerras por procuração?
José Carvalho
10 de abril de 2025 6:19 pmPelo poder de paridade de compra (PPC) a China teria a maior economia do mundo, os EUA tentam continuar sendo a maior e principal entre as economias. Para isso a China precisa ter sua velocidade diminuída. O governo Trump já sabe que os EUA perderam grande parte do dinamismo econômico, mas tem uma economia muito forte e perdeu indústria. Isso tem desdobramentos que vão se acentuando ao longo do tempo. Na base da força Trump quer recuperar espaço externo, tentando revitalizar a indústria americana, seja retornando parte de volta aos EUA ou tendo novos investimentos. Provavelmente há quantidade de capacidade ociosa em setores que perderam competitividade interna e externamente. As taxas atingiram a todos,mas miraram apenas alguns.
Vito Corleone
10 de abril de 2025 8:04 pmExistem momentos, quando Trump reclama da falta de “respeito” ou na verdade submissão de alguns países à sua autoridade, em que temos a impressão de estarmos assistindo ao filme “O Poderoso Chefão”, com Marlon Brando ou Al Pacino reclamando por respeito e amizade de seus subordinados. Mas não poderia ser diferente pois trata-se de um mafioso na vida real na presidência dos EUA.
Rui Ribeiro
11 de abril de 2025 6:17 amE assim eles vão empurrando, com seus volumosos abdômens, as tarifas para depois de amanhã. Lixo para debaixo do tapete é “solução” momentânea, porque inclusive o tapete vai acabar parando no lixo.