O presidente Lula (PT) participou nesta quarta-feira (23), por videoconferência, da reunião presidencial da 16º Cúpula do BRICS, que acontece em Kazan, na Rússia. Em pouco mais de sete minutos de discurso, o brasileiro tocou em temas cruciais da política internacional e insistiu na necessidade de pressionar os países ricos sobre a responsabilidade pela crise climática global.
“O Brics é ator incontornável no enfrentamento da mudança do clima. Não há dúvida de que a maior responsabilidade recai sobre os países ricos, cujo histórico de emissões culminou na crise climática que nos aflige hoje. É preciso ir além dos 100 bilhões (de dólares) anuais prometidos e não cumpridos e fornecer medidas de monitoramento dos compromissos assumidos”, cobrou o presidente brasileiro.
O Brasil assume a presidência do BRICS em 2025. Durante sua fala, Lula adiantou que os esforços do Brasil na liderança do G20, como a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza e a taxação de super ricos, devem se entender na sua atuação à frente do bloco, a partir do lema: “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”.
“Na presidência brasileira do BRICS, queremos reafirmar a vocação do bloco na luta por um mundo multipolar e por relações menos assimétricas entre os países. Não podemos aceitar a imposição de apartheids no acesso à vacina e medicamentos como ocorreu na pandemia, nem no desenvolvimento de inteligência artificial que caminha para se tornar privilégio de poucos”, disse.
Ao comentar sobre a economia global, Lula criticou o que chamou de “Plano Marshall” às avessas, “em que as economias emergentes em desenvolvimento financiam o mundo desenvolvido”. Neste sentido, citou a presidência de Dilma Rousseff no Novo Banco de Desenvolvimento, ou Banco dos Brics, e seu trabalho para o fomento a linhas de créditos que facilitem o comércio entre os países a partir de moedas locais, como alternativa ao fim da dependência do dólar.
“O novo Banco de Desenvolvimento que neste ano completa 10 anos tem investido na infraestrutura necessária para fortalecer nossas economias e promover uma transição justa e soberana. Sobre a liderança da companheira Dilma Rousseff, o NDB conta com uma carteira com quase 100 projetos com financiamento na ordem de US$ 33 bilhões”, pontou Lula.
“Agora é chegada a hora de avançar na criação de meios de pagamento alternativos para transações entre nossos países. Não se trata de substituir nossas moedas. Mas é preciso trabalhar para que a ordem multipolar que almejamos se reflita no sistema financeiro internacional. Essa discussão precisa ser enfrentada com seriedade, cautela e solidez técnica, mas não pode ser mais adiada”, acrecentou.
Crise no Oriente Médio
O presidente Lula também manifestou sua indignação com a guerra na Faixa de Gaza, que já atinge o Líbano e a Cisjordânia. Segundo ele, é preciso discutir planos de paz para acabar com a ofensiva militar de Israel nesses países, bem como para por um fim no conflito entre a Rússia e Ucrânia, já que ambos têm “potencial de se tornarem globais”
“Como disse o presidente Erdogan na Assembleia Geral da ONU, Gaza se tornou ‘o maior cemitério de crianças e mulheres do mundo’. Essa insensatez agora se alastra para a Cisjordânia e para o Líbano. Evitar uma escalada e iniciar negociações de paz também é crucial no conflito entre Ucrânia e Rússia. No momento em que enfrentamos duas guerras com potencial de se tornarem globais, é fundamental resgatar nossa capacidade de trabalhar juntos em prol de objetivos comuns”, afirmou Lula.
O presidente brasileiro discursou por meio de videoconferência para representantes de 32 países, sendo 23 chefes de Estado. Essa é a primeira reunião ampliada do bloco, que recebeu cinco novos países membros este ano. Formado até então por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o Brics agora conta com o Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Egito.
Lula iria presencialmente ao encontro, mas cancelou a viagem por recomendações médicas, após sofrer um acidente doméstico, no último sábado (19).
Assista a íntegra do discurso:
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