Aparece o “doleiro dos doleiros” da indústria da delação

 
 
Jornal GGN – A Procuradoria do Rio de Janeiro começa a se aproximar do esquema da indústria da delação premiada, com os novos depoimentos de doleiros que narram a compra de “proteção” junto ao Ministério Público e à Polícia Federal. O GGN desvendou parte do caso na série “A Indústria da Delação Premiada”. E o advogado que intermediou o esquema é também figura carimbada no êxito das colaborações.
 
A reportagem “Exclusivo: Banqueiros da Odebrecht omitiram informações em delação da Lava Jato e tiveram multa irrisória“, do Jornal GGN com o Diário do Centro do Mundo, publicada em novembro último ano, adiantou parte do esquema agora conhecido pelos procuradores do Rio. O nome de Messer, o doleiro dos doleiros, desapareceu da Operação Lava Jato, assim como do caso Banestado.
 
Nos detalhes que remontam a como banqueiros pagaram uma multa de apenas R$ 3,4 milhões por desvios que chegariam a R$ 326 milhões, Dario Messer seria o doleiro por trás das operações do grupo. Juca Bala, anunciado como quem fazia as operações, trabalha para Messer. Mas o que foi tornado público superficialmente é outra história. A reportagem recuperou o histórico do doleiro:
 
“Messer nasceu no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, e seu pai é paraguaio — por isso, ele tem cidadania paraguaia. No país vizinho, tem grande influência política. Seu pai foi amigo do atual presidente,  Horácio Cartes. O combativo e influente jornal ABC Color, de Assunção, publicou reportagem sobre essa proximidade.
 
A relação entre os 2 viria dos anos 1980. O pai de Darío Messer, Mordko Messer, teria acolhido Cartes “afetiva e economicamente” quando o político tentava se livrar de acusações de evasão de divisas naquela década. Hoje, segundo o jornal, Darío Messer é como um irmão para Cartes, conhecido também HC. Messer, por sinal, depois que estourou a Lava Jato, teria transferido residência para o Paraguai.
 
O nome de Messer não aparece na Lava Jato, da mesma forma como sumiu do caso Banestado, que morreu na jurisdição de Moro. Estas são linhas de investigação que devem ser perseguidas para conhecer efetivamente o submundo do caixa 2 no Brasil. O que está na superfície é glamouroso.”
 
Em apanhado de diversas suspeitas sobre a indústria da delação premiada, também em publicação no GGN, Nilo Filho relembra que “é bastante estranho que Messer apontado como o maior doleiro do Brasil e que esteve por trás das maiores operações realizadas pelo grupo – de França, Bilinski e Borin [os banqueiros] – foi omitido da delação acordada e homologada.”
 
“Estranho, ainda, pois Messer é antigo conhecido do juiz Sergio Moro, apareceu no escândalo do Banestado como grande operador e, também, dali se safou. Sergio Moro foi o juiz do caso Banestado. E Messer de lá se saiu livre, sem arranhões.”
 
Mas o nome do “doleiro dos doleiros” vai, aos poucos, sendo revelado. A reportagem do Estadão, deste sábado (19), traz a denúncia de um dos participantes do esquema montado por Messer para as operações ilícitas entre os anos de 2006 e 2013.
 
Ele é quem cobrava, segundo os relatos, por meio de Enrico Vieira Machado, uma “taxa de proteção” de US$ 50 mil por mês, hoje equivalente a R$ 186 mil, entre 2005 e 2006, que seriam direcionados ao advogado Antonio Figueiredo Basto e um colega de escritório, para supostamente garantir futuras delações no caso Banestado. 
 
“Enrico passou a dizer que o escritório deveria pagar US$ 50 mil por mês para fornecer uma proteção a Dario e às pessoas ligadas ao câmbio. Que essa proteção seria dada pelo advogado Figueiredo Basto e outro advogado que trabalhava com ele”, disse o delator Cláudio de Souza, doleiro que integrava o esquema de Dario, à Procuradoria do Rio de Janeiro.
 
Com a mensalidade, Enrico, em nome de Messer, prometeria aos demais doleiros segurança em relação ao Ministério Público e à Polícia Federal, ainda segundo a reportagem. 
 
O advogado é figura carimbada também nas negociações com os procuradores de Curitiba. Figueiredo Basto foi o primeiro advogado a atuar em acordos de delação premiada no modelo que se estabeleceu e que marcaram todas as investigações da Operação Lava Jato. 
 
Ele atuou no acordo do doleiro Alberto Yousseff com o juiz Sérgio Moro no caso do Banestado, em 2004, e até hoje atuou para grandes “colaborações” da Lava Jato, entre eles, os dos réus Lúcio Funaro, Renato Duque, Ricardo Pessoa.
 
E Figueiredo Basto atua em parceria com o escritório dos sócios Adriano Bretas e Tracy Reinaldet. Bretas, que se tornou “o homem da delação”, após aparecer na capa da revista Veja com um charuto, teria aprendido com Figueiredo Basto, sendo uma espécie de auxiliar do advogado no início de sua carreira.
 
Em reportagem à Piauí, o próprio Antonio Figueiredo Basto afirmou o que pensa sobre o polêmico acordo de delação premiada, em maio do último ano: “Ninguém está impedido de tentar impugnar as colaborações nos tribunais, mas quem não gosta delas são os advogados que preferem ficar com seus clientes presos por 20 anos, sustentando teses do tempo da onça que não resolvem mais nada hoje em dia”.
 
 

13 comentários

  1. quer dizer então que todos pagam pra doleiros?

    incluindo procuradores e o aranha negra que, ao que parece, pode ficar com a sua honestidade por um fio?

    caso se confirme, deve ser por isso que a CIA sempre entrou pagando  por seus protegidos em vários países

    remunerando-os até por falarem só merda ou as mesmices de sempre sobre combate a corrupção

    • Isso vem desde algum tempo

      (Correio Forense, 14.04.2004)

      Ministro terá que explicar acusações de ex-chefe do FBI

      Policiais Federais do Brasil “sentem-se inferiorizados e desmoralizados devido à dependência de verbas” do governo dos Estados Unidos. A afirmação é de Carlos Alberto Costa, que chefiou o FBI no Brasil. Ele prestou depoimento nesta terça-feira (13/4) no Senado.

      Revista “Carta Capital”, Edição 283 de 24 de março de 2004

      Fiel transcrição:

      Carlos Costa, que chefiou o FBI no Brasil por quatro anos, fala sobre ordens dos Estados Unidos para “monitorar” o País e relata: como os EUA “compraram a Polícia Federal”

      Revista Carta Capital nº 185

      RELAÇÕES CARNAIS
      Documentos mostram, e provam, como os EUA, muito além dos acordos, financiam a polícia brasileira. Por Bob Fernandes, de Brasília

      Isto É de 21/11/02

      A CIA continua no Brasil
      Documentos obtidos por ISTOÉ provam que a agência de espionagem atua clandestinamente no Brasil.

  2. São 18: 54h

    Começo a perceber que de us tempos para cá, os comentários sobre os textos publicados aqui no blog, começam a rarear.

    Eu por exemplo, não aguento mais ficar lendo textos e textos e nada acontece.

    A cada matéria publicada vamos percebendo a que ponto chegou o país.

    Notaram que agora os holofotes do pig já não atraem mais o imbecil do Moro?

    Ele acha que virou celebridade do mundo do entretenimento à la Annita, portanto as luzes do país que ajudou a falir não lhe serve mais.

    Ele precisa ir aos EUA para ser tratado como um cão vira lata que foi adestratado para destruir o próprio país.

    E eu não “entendo” omo esse sujeito tem toda a liberdade aqui no Brasil para fazer o que fez.

    As informações dessa matéria reaalmente o GGN havia antecipado, mas e daí? O que aconteceu? Nada. E o que vai acontecer? Nada também.

    Levando em consideração a credibilidade deste espaço, já não era tempo desse cara e toda a turma do MPF, judiciário e PF terem sido fuzilado no paredão?

    Agora são 18:54h, só tem um comentário.

  3. Agente 86 em 2018
    Pesquisando na internet sobre se haveria parentesco entre os Bretas, Adriano e Marcelo (parece que não há), veio o link desta reportagem do GGN de maio/2017:
    https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-lava-jato-em-familia?page=1

    Sugiro a leitura dos excelentes comentários, em especial do sempre informativo e sagaz “alexis”. Em um deles, por exemplo, descobri que um filho da sra. Rosa Weber foi jornalista de O Globo… E “alexis” menciona uma personagem cuja estranha trajetória na indústria&comércio da operação Lesa-pátria sempre levantou suspeitas mas nunca foi devidamente apurada, jornalisticamente, a Beatriz Cattapreta.
    Muito interessante se alguém dispusesse de grana suficiente para financiar uma comissão particular da verdade sobre essa operação (alguém nos comentários da reportagem no link diz que ela precisa de uma “lava-jato sobre a lava-jato”, o que seria uma progressão geométrica da farsa, com mais espaço para chantagens, delações e propina para advogados e agentes publicos,…, portanto, na verdade o que precisa ser evitado por uma verdadeira e honesta investigação de profissionais devotados ao interesse público). Uma comissão composta por jornalistas e blogueiros – incluídos excelentes comentaristas de blogues – sérios, honestos e confiáveis, até com detetives particulares experientes, gente que entenda de administração pública, psicólog@s, arquivistas, informatas, advogad@s, ex-delegad@s da PF, hacktivistas…
    Ah, se a Mega de são João saísse pra mim … (risos).

    Sampa/SP, 19/05/2018 – 19:26

    • Gentileza sua Cristiane

      Apenas acompanho diariamente as noticias, tenho boa memória e guardo textos e artigos para utilizar depois, pois eles apostam na nossa péssima memória.

      Ocorre que a ação parcial do PIG, do PGR, da PF, do judiciário e da alta meritocracia em geral é proporcional ao sentimento de apoio popular que eles acharem ter, no momento. A rede Globo e outros se encarregam de bater as palmas de mentirinha para ações parciais da justiça e entrega prêmios, etc. Eles, se sentindo fortes, aumentam a pressão e a expressão “sabe com quem está falando!”; a mulher do Moro, alucinada, escreve nas redes “Eu Moro com ele”, Bretas sai na foto com um fusil e etc.

      Pelo outro lado, são descarados para proteger colegas de classe, companheiros de sauna, vizinhos de Miami e etc., apostando sempre na ideia de que a opinião pública está com eles. Assim, me permito e aproveito da sua paciência para lhe trazer abaixo um texto que fiz recentemente, que mostra como poderiamos mudar o jogo, mediante a opinião pública, que está cada vez mais caminhando para o nosso lado. Somente isso irá parar esta situação.

      A disputa está na opinião pública

      Está mais do que provado que as elites brasileiras, econômicas, políticas, concurseiras e meritocráticas têm lado, o lado da sua classe, da sua alienação, do seu status. Mas, sendo pouco numerosas perante a “urna” da democracia, as elites sabem que a sua influência e poder somente será traduzido em ações efetivas se tiverem certeza de que a maior parte da população acredita e aceita. Contam para isso com a rede Globo e o restante do PIG.

      O impeachment apenas aconteceu pela queda de popularidade de Dilma. Lula na Casa Civil poderia ter revertido isso, mas foi impedido. Derrubaram uma Presidenta absolutamente honesta aproveitando apenas a sua baixa popularidade no momento. Argumentos pífios – como as pedaladas – foram apresentados sem constrangimento, sabendo que a maior parte da população assim acreditava. Os congressistas seguiram o efeito da opinião pública do momento.

      A judicialização do país e a persecução contra Lula e o PT encabeçada pela turma de Curitiba segue pelo mesmo caminho, qual seja, justificar as suas arbitrariedades por conta de uma ampla rejeição popular à corrupção, espertamente canalizada acima do PT. A desfaçatez do Moro e do TRF4 somente encontram justificativa com base no sentimento de existir maioria popular em favor deles, hoje concentrada no Sul. Desse jogo se entende o fato de que muitos destes juízes e promotores alucinados escrevem nas redes sociais e nas páginas do PIG se mostrando como heróis e justiceiros. A soberbia curitibana, as premiações do Moro e as inúmeras mensagens de Juízes e autoridades meritocráticas aos jornais ou redes sociais, reverberados pelo PIG, fazendo onda e mostrando-se populares e certos do que fazem, mesmo sabendo da sua arbitrariedade, ilustram bem a necessidade destes de encontrar guarida no apoio popular às suas ações.

      Trata-se de um jogo de cena perante a enorme maioria ingênua do eleitorado, durante anos alienada pela rede Globo. O golpe somente foi possível graças à percepção do apoio popular a este, aproveitando rejeição a Dilma (criada pelo PIG). A persecução da justiça contra o PT apenas acontece por conta da rejeição à corrupção da população espertamente canalizada contra Lula e o PT pelos meios de comunicação.

      Essa guerra começa a mudar de sentido quando os ventos mudam de direção. Assim, casos específicos no Nordeste, mostram como senadores e deputados golpistas procuram hoje a aproximação com Lula e o PT, justamente seguindo pelo seu olfato aguçado a tendência do eleitorado e, com ele, a sensação da opinião pública das suas respectivas bases eleitorais. A parte política do golpe foi se esvaziando junto com o enorme apoio popular a Lula e o PT, que vem crescendo pela sua verdade e consistência.

      A turma do judiciário luta ainda pela manutenção da popularidade do Moro e da justiça, em geral, perante a percepção de um povo cada vez mais informado e descrente da imparcialidade judicial. A dureza das penas contra Lula e Dirceu; a parcialidade em favor de tucanos; a omissão diante das contas no exterior, as malas de dinheiro e etc. estão ficando evidentes demais. O auxílio-moradia veio como a gota no copo d’água. Isolados, agora sentindo cada vez maior rejeição, tentam desesperadamente novas premiações e matérias nos jornais e redes sociais, embora cada vez mais ridículas. As verdades de Curitiba são contestadas e o poder desta casta judiciária começa a declinar, justamente pela virada da opinião pública em relação a isso.

      O PT está vencendo a luta política e, agora, falta vencer a luta contra a parte meritocrática da elite. Novos fatos poderão ajudar principalmente as delações do “lado de lá”, que poderão apontar gente do judiciário “com Supremo, com tudo”. Gilmar Mendes e o carequinha não dão conta –sozinhos – de tirar do meio da estrada tanto tucano envolvido.

      Colocados estes argumentos, parece mais clara a estratégia do Lula e do PT, de virar gradativamente a opinião pública em favor da verdade e, por tanto, desmantelar o golpe. Um por um, passo a passo, demonstraremos na paz, dentro das regras de uma democracia (que apenas a esquerda parece respeitar), como milhões de assinhas de borboletas podem iniciar uma tormenta.

      Os políticos já começam a procurar aproximação com o PT. Os meritocráticos, sem prêmios e sem apoio popular, voltarão aos poucos a se recolher na sua insignificância e, quem sabe, a focar mais na constituição e nas Leis, ou seja, na parte mais técnica do seu oficio. O PIG será pulverizado depois de assumir o novo governo popular. O caminho é esse, ganhar pouco a pouco a maioria da opinião pública.

      Cabe destacar o sacrifício do Lula e Dirceu e ao PT pela sua coragem e inteligência de não desistir do caminho correto, sem fazer o jogo da direita, que espera de nós uma contestação direta à democracia, reações violentas, ou claudicação da nossa candidatura Lula. Para surpresa deles, Lula e Dirceu foram com passos firmes para uma cela, não reagimos a provocações em manifestações e, principalmente, não caímos no jogo político de candidaturas interesseiras que querem pegar de graça o fruto de todo este sacrifício e esforço dos nossos líderes.

      • Troca de gentilezas. Sinceras.

        Excelente sua análise, como sempre. 

        E acho que o processo de conscientização do povo só não é mais rápido porque temos o bode na sala, a regulação da mídia, que alguns dizem apenas serem favoráveis aos meios eletrônicos sob concessão pública – rádio e TV. Eu, pessoalmente, acho que mesmo que qualquer cidadão tenha o direito de publicar o que quiser se puder bancar, não acho que o mercado de material impresso não precise de regulamentação e fiscalização, que não pode configurar, ou ser confundido, com censura. Se é atividade econômica e que se dirige ao público, deve prestar contas a alguém. Liberdade de expressão não significa liberdade absoluta de fazer o que dá na telha, ou na veneta, se isso interfere no espaço público de alguma forma. 

        E nisso acho que estamos muito mal preparados. Mesmo a mídia e os blogues autointitulados “independentes e alternativos”, muitos repetem o método retórico de persuasão, tanto ostensiva quanto dissimulada, ambas autoritárias e opressivas, da mídia corporativa, usando o jornalismo para vender seus interesses, exercer sua pressão em favor de determinada corrente política disfarçada de noticiário, o que difere de defendê-la editorialmente. Ou seja, publicam opinião como informação, sem avisar o leitor, ou imiscuem em noticiários a deformação que interesse à defesa de sua opinião, tanto pela alteração de dados factuais como pela interpretação tendenciosa.

        Alguns blogues, de jornalistas egressos do grupo Globélica, repentinamente tornados esquerdistas-marxistas xiitas, sempre me pareceram aderentes ao discurso antigolpe por conveniência, e defensores da regulação da mídia como se esta fosse a vingança contra sua ex-patroa e não uma forma de democratizar a comunicação social no país. Alguns chegavam a criticar duramente os governos progressistas nesse aspecto muito mais por disputa de patrocínio, como se os governos tivessem que ter aumentado verbas para os blogues ditos progressistas para defendê-los, sem que se discutisse a fortuna gasta em publicidade institucional e na necessidade de que o mercado da comunicação fosse democratizado para que esses blogues buscassem fontes independentes de financiamento. Parece discurso em proveito próprio, que nos momentos de crise revelam que o erro do governo não foi a falta de patrocínio aos blogues ditos progressistas, mas exatamente a regulação da mídia e seu mercado de maneira apartidária e republicana, afinal, os que agora rifam o PT e já embarcam em outra canoa em nada diferem da Globélica em seu oportunismo político e financeiro.Teria sido trocar seis por meia dúzia, além do aspecto ético de contradizer o discurso da pluralidade e da independência que muitos desses ventríloquos adotam quando convém.

        O que o golpe deixou claro é que a crise está servindo para por à prova o caráter e a coerência de muita gente, na política, na mídia, na sociedade civil. E os blogues ditos progressistas têm nesse ano seu teste decisivo, muitos dos quais já tomaram bomba e foram descartados por muitos. Eu já tinha feito a minha restrição, que mantenho, aos que já acompanhava (GGN e Nocaute), eventualmente o Brasil 247, confirmei porque não acompanho alguns outros, como o Conversa Afiada. E entendo por que antes de dizer aos outros para acompanhar esse ou aquele blogue como um cheque em branco, o ideal é que as pessoas sejam estimuladas a construírem suas opiniões com independência, socraticamente se possível, e se tornem independentes também da mídia, não importa qual sua etiqueta, que muda com o vento dos seus próprios interesses, quase sempre inconfessados.

        Por isso, agradeço que pessoas como você e muitas outras aqui no GGN – a melhor seção de comentários da blogosfera séria, pela densidade qualitativa e quantitativa e possibilidade de trocas de idéias civilizadas, quase sempre – ainda acreditem que participar é importante, e que manter a memória dos fatos, contextualizando as opiniões com informações confiáveis (já me informei, e aprendi, muita coisa pela seção de comentários), é fundamental para a democracia que queremos construir. Isso também é parte, e das mais importantes, da pluralidade e da democratização dos meios de comunicação, afinal, é onde o pólo invisível dessa relação de consumo se manifesta, quase nunca levado em conta quando se fala da regulação e do controle social dos referidos meios.

        Desculpe pelo desabafo, mas nesses últimos meses me dei conta de que a profundidade do golpe não revelou apenas as fragilidades e dubiedades, quando não, hipocrisia, das instituições oficiais, mas um pouco de todos nós, e de maneira muito clara, da parte da mídia autointitulada “independente e alternativa”. O que nos coloca a tarefa de sermos nossa própria fonte segura de orientação quanto ao que pensar, e decidir, em política e na vida. O mundo está volátil, e muitos em busca de sua própria segurança, sem dificuldade, aderem ao que lhes convém no curto prazo, nem que para isso tenham que sacrificar sua própria coerência e lealdade, caso tenham de verdade além dos discursos, ou para muitos, finalmente terem seu “momento Cristóvam Buarque” de pragmatismo e libertação de seu Eu mais autêntico, golpista. O que no período da pós-ditadura levou 20 anos para ser demonstrado – os ex-esquerdistas de então, hoje na mais reacionária direita -, hoje, nesse mundo acelerado, levou apenas 2 anos para ser depurado em relação aos antigolpistas mais ultrajados, hoje defensores de um outro tipo de golpe – seria este o golpe dentro do golpe que tanto foi alertado pela própria blogosfera? Risos de ironia.

        Poucos poderão criticar o (P)MDB por fazer de tudo para se manter no poder, pelo que fazem para chegar lá. Para quem acredita na providência divina, como eu, é tempo de depuração e se aprendermos as lições deste momento, o que foi feito de bom antes tende a se tornar mais sólido e justo. Nada acontece por acaso, nos cabe assimilar os golpes, encontrar parceir@s de caminhada fiéis, e seguir em frente com aquilo que aprendamos, doa o que doer, mas nunca ao custo de nossa dignidade. 

         

        Obrigada pela atenção, pela consideração em enviar seu texto, muito bom como sempre, e por fazer de seus comentários uma forma solidária e paciente de compartilhar informações e sua visão de mundo e de valores cada vez mais raros, como a fidelidade em momentos em que é mais fácil fugir da luta.  

         

        “A consciência é o melhor livro de moral que temos, e é, certamente, o que mais devemos consultar.” (Pascal). 

         

        Sampa/SP, 20/05/2018 – 23:25 (alterado às 23:35 e 23:40). 

        • Valeu!

          Eu que agradeço Cristiane. Vamos continuar acompanhando este blog bacana.

          Sobre o seu “desabafo” apenas um detalhe. Há que considerar que no caso da rede Globo não se trata apenas de discutir algum tipo de censura ou revanche, mas de crime mesmo: Os escândalos do futebol, o dossiê perdido (por uma funcionária da receita) onde uma enorme divida da rede Globo estava sendo executada e desapareceu; o apartamento na praia oculto nos Panamá papers e muitas outras coisas que não apenas o uso arbitrário de uma enorme liberdade de informação da qual tira proveito a Globo.

          Pese a tudo, cada dia aparecem novas situações, como o caso dos advogados e doleiros de Paraná, onde cada vez mais se afunda a lava-jato, que foi apenas um circo. A população, aos poucos vai mudando de opinião e, naquele momento, o golpe vai cair como castelo de cartas. Falta apenas um delator do lado de lá abrir a boca que cai tudo, “com Supremo com tudo”.

          • Brasil, nossa história de independência sempre boicotada

            Releve a demora em responder; já tinha visto sua resposta e pensado no que dizer para continuar o assunto, que considero de importância muito maior para a democracia do que o espaço que recebe, que é a regulação dos meios de comunicação.

             

            Sobre a Globélica, acho que os crimes que ela comete como empresa, aos quais você fez referência, são menos graves do que a interveniência que exerce na vida política, social e cultural do país, por vários motivos, e o principal deles é que os crimes, como você bem comentou, são de mais fácil descoberta, divulgação, compreensão pela sociedade e decisão jurídica sobre as condições de sua penalidade, do que é possível dimensionar e conter a influência nefasta que ela exerce sobre o imaginário e as estruturas sociais e políticas do país há mais de 50 anos (a considero até pior que o PMDB; a Globélica é o parasita dos parasitas e não tem o ônus do desgaste político porque age nas sombras, ou sob a luz dos holofotes mágicos da TV, sem nenhum controle, nem o remoto por falta de opção devida ao monopólio que exerce num país pobre e sem hábito, nem acesso, a outras formas de fruição cultural e entretenimento), e essa impunibilidade estrutural ocorre exatamente como resultado, e demonstração fática, do poder que ela exerce junto às instituições de investigação e controle (PF, MP (estaduais e federal), PGR, Tribunais Superiores, STF, o sistema de justiça como seu projac judicial).

            Ou seja, as irregularidades que ela pratica como empresa seriam a consequência do problema maior e original, o seu poder imperial sobre os três poderes oficialmente reconhecidos (Executivo, Legislativo e Judiciário) porque tutelou aquele que detém o poder de delegação numa democracia, o povo, seja manipulando para eleger ou derrubar políticos nos casos de poderes eletivos diretos, seja através do lobby e do tráfico de influência, junto ao poder judiciário e órgãos auxiliares do sistema de justiça. Portanto, se atacar a fonte do poder indevido que ela exerce, como qualquer outra empresa que comete irregularidades, ficará não apenas sujeita à penalidade e menos blindada para ocultar sua corrupção, como perderá seu poder de chantagem e lobby num círculo vicioso que precisa ser democraticamente exposto ao povo e inativado.

            Mas o que se vê no caso da descoberta dos esquemas de doleiros, que irrigam exatamente os setores que detêm o poder político e econômico, o setor privado lucrativo, os três poderes oficiais e as empresas de comunicação, é que não se trata de saber se “a lei é para todos” porque sabemos que essa falácia ninguém compra, mas de saber o quanto todos os personagens e grupos sociais detentores do poder são permeáveis ao controle democrático da sociedade, sem o qual a artificialidade dos sistemas criados para gerir a vida em comum não resiste a uma crise institucional como a que vivemos, porque é como um corpo sem alma, se decompõe como efeito das leis naturais sobre objetos inanimados.

            O que anima a vida de uma sociedade e de suas instituições é a forma como estas se relacionam com as pessoas, a quantidade de pessoas que realmente podem participar delas e os meios e modalidades em que essa dinâmica de participação direta e indireta, através do exercício de funções e do controle social, acontece – depois do golpe, por exemplo, se viu a necessidade de discutir a forma como os cargos públicos em setores estratégicos do Estado são providos e exercidos, a função dos órgãos de correição, o nível, ou ausência, de participação da sociedade civil em conselhos de controle social do judiciário, como o CNJ, para falar de algo simbólico e vivido na real e não como abstração teórica.

            O nosso sistema de justiça sempre foi autoritário e herdeiro direto da história de recusa do poder ao povo, não por acaso sempre foi exercido em sociedade com os donos do poder político e econômico local em forma de capitania, ou jurisdição, hereditária, assim como outras profissões exercidas pela elite oligárquica nacional desde o início, como a medicina.

            A lição de história que o golpe tem permitido a todos é essa, entender por que o país é desigual, violento, apartado, pois bastou um governo, que foi eleito, é bom nunca esquecer, tentar atacar esses problemas genotípicos e os conflitos essenciais da formação do país, por dentro das estruturas institucionais e sociais e dos ditames democráticos, que os setores oligárquicos e hereditários se juntaram para renovar sua estratégia de boicote ao Estado nacional em favor de seus interesses particulares de casta: o que foi a rebelião contra o programa Mais Médicos e a perspectiva do governo progressista de democratizar o acesso aos cursos de medicina, defendendo que os estudantes de universidades públicas teriam que, obrigatoriamente, fazer estágio em unidades públicas de saúde, senão o grito da casta dos ricos e abastados que sempre mantiveram o monopólio da educação e da rentabilíssima prática médicas? Não demorou a surgirem relatos na internet de recusa de médicos em atender pacientes vestidos de vermelho, de ameaçar demitir empregados que votassem no PT, profissionais que cometeram crimes em aplicativo de mensagem, no caso da Dona Marisa, e que foram premiados com indenização milionária pela justiça, que fizeram protestos racistas e xenófobos contra os médicos cubanos, mas querer atender nos rincões do país ou nas periferias nenhum deles quer, e pior, porque denuncia sua mesquinhez e a tática de sabotagem ao interesse público, não querem deixar que outros façam – mas se chamar de cartel pode ser processado (outro caso emblemático recente foi no Paraná, de um presidente de sindicado de médicos, filiado a partido de esquerda, que processou um político de esquerda, acho, por ter criticado o corporativismo dos médicos… “amigos, amigos, ideologias à parte, minha profissão monopolista vem primeiro”, é o recado claro).

            O mesmo se dá com o sistema de justiça, que pressionou pelo golpe por interesse corporativo de aumento, vergonhoso, num momento de crise e austeridade contra os mais pobres, e agora está com suas entranhas podres expostas – a confirmar o que sempre se suspeitou sobre a hipocrisia de seus privilégios e a indevida pompa herdada de tempos coloniais em relação à respeitabilidade que exige, desde os pronomes de tratamento até o ativismo judicial farisaico sob pretexto de combate à corrupção – a dos outros –, para defender sua exceção à regra democrática de que “todos são iguais perante a Constituição” (para o ministro Barroso, o Judiciário é a nova Monarquia, que deve exercer o poder porque escolhido pelos deuses do Olimpo Catedrático, onde ele espera ser coroado o novo imperador dos Estados Unidos do Brazil, com transmissão ao vivo na Globélica, é claro). “Deus salve o Rei!”, não importa que esteja nu e receba auxílio-paletó, cueca, e toga.

            E agora a imprensa, que também sempre foi exercida pelos mesmos estratos sociais e econômicos que as outras “profissões de bacharel” (num país que até há pouco tempo era de maioria analfabeta, e só há pouco mais de 15 anos teve expansão do acesso ao ensino universitário, não se pode dizer que são democráticas), e que por sua maior liberdade formal, permitiu que se desenvolvesse com maior diversidade e espaço para contestação em relação à homogeneidade das outras em sua composição de casta. A imprensa, para os clássicos, ou “mídia”, para os neoclássicos, também faz parte do Golpe, e a existência de blogues progressistas para disputar espaço com a mídia corporativa é demonstração dessa diferença, mas nada que se compare a uma imprensa/mídia realmente independente, pois até por (d)efeito, involuntário ou não, de formação, muitos dos principais jornalistas desta ala progressista dos blogues têm origem nas maiores empresas de comunicação, e o cachimbo geralmente entorta a boca.

            E falei tudo isso para dizer que o que uniu os golpistas, por um lado, e permitiu a adesão de setores progressistas ao discurso anti-golpe, por outro lado, foi o alinhamento respectivo e proporcional ao que está de fato em disputa em termos de projeto nacional – diga-se, o dos progressistas não é novo, ele resiste e ressurge a cada 30 anos, pelo menos, e sempre foi sabotado quando emergiu de maneira planejada e organizada –, que é o de submissão colonial às potências estrangeiras para enriquecimento exclusivo das castas e grupos sociais que renegam a Nação miscigenada brasileira em favor de suas corporações privadas ou privatizadas (o que é a tomada das instituições públicas por gente de mentalidade entreguista e antinacional senão uma estratégia estrutural de privatização do que é público, do que o escândalo imobiliário dos auxílios-moradia e da compra de unidades do MCMV por procuradores golpistas para especulação não são mero acaso, são a materialização da sua ideologia de Estado mínimo, corporativo e privatizado), ou a criação de um Estado Nacional forte, democrático (o que dizer mais que voto, com acesso do povo, e não apenas das castas, ao exercício do poder, aos bens naturais e sociais e riquezas materiais, de maneira solidária interna e externamente) e independente no concerto das Nações.

            Portanto, o golpe foi a tentativa de sobrevivência do antigo regime de democracia de fachada (os poderosos mandam, o povo obedece, e se finge que é por escolha livre), e a sua recusa, na blogosfera, não necessariamente a adesão a um projeto específico – que é o que dificulta a necessária união das esquerdas –, mas a busca difusa da liberdade (de pensamento, de expressão, mas também de mercado e de iniciativa) que sempre a diferenciou das outras profissões “de bacharel” (a discussão sobre a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista mostrou como, em decorrência da preservação do mercado de trabalho pelos profissionais e da diferença desta profissão em relação às outras aqui citadas, são os sindicatos dos trabalhadores e políticos progressistas que defendem o diploma como forma de valorização profissional, e os patrões que o recusam, de forma a precarizar as condições de trabalho e aumentar seus lucros – há duas PECs na Câmara que restabelecem a exigência de diploma para a profissão, depois do veto do STF em 2009 ao decreto de 1969 que regulamentava a profissão).

            Portanto, sem a efetiva democratização do acesso não apenas aos direitos e ao consumo dos bens e serviços, mas de participação na produção desses direitos, bens e serviços pelo exercício permanente da cidadania responsável, e participação na maneira como a sociedade é organizada e gerida, discutir regulação da mídia apenas como uma questão de mercado econômico, ainda que seja o passo inicial e indispensável, não será suficiente, e não sairemos da Era de golpes intermitentes, trocando apenas alguns personagens, mas mantidos os interesses e as forças sociais e econômicas que sempre ganharam o poder no país no grito e na força, das armas e dos bacharéis colonialistas. Espero que o longo caminho para a regulação da mídia, quando for de fato discutida e apresentados os projetos, seja traçado com a participação efetiva de quem é o sujeito, nem sempre passivo mas quase sempre mudo, calado ou ignorado, dessa relação múltipla indefinida (é de consumo também, não podemos esquecer), o povo, a população em geral e não apenas, como se um assunto de reorganização corporativa ou profissional, dos fazedores da comunicação no país.

             

            Sampa/SP, 27/05/2018 – 00:54 (alterado às 01:01, 01:06 e 01:19).

  4. Lula e o Lavadores

    Isso significa duas coisas:

    1- Lula está sob iminente risco de vida pois é bode expiatorio de uma quadrilha para esconder suas falcatruas e pode ser usado a bel prazer tanto quanto  moeda de troca ou cortina de fumaça.

    2- Ironicamente a sua liberade pode está diretamente ligada ao êxito  dessa investigação.

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