
No final da Assembleia dos Amigos do Dominó de Botequim, escolhemos o Netinho para ir atrás do português. Antigo empregado do dono do boteco, provável ser quem menos o constrangesse diante de nossa disposição de ajudar Serafim.
Prudêncio, antigo militar, mantinha bons contatos na polícia e se propôs a pedir uma “capivara” sobre seu destino. As primeiras pistas deveriam ser procuradas no distrito de Marsilac, extremo-sul de São Paulo, onde morava na casa de antiga namorada
Instruímos Netinho sobre táticas de abordagem. Que iniciasse pelo lado sentimental. Os domingos de todos que frequentavam o Boteco do Serafa nunca mais foram os mesmos. Muitos se afastaram, deixaram de se ver. Poucas amizades foram mantidas. Enfim, queríamos estudar uma forma de reabrir o botequim e recomeçar o dominó.
Valia a pena também inocentá-lo pela derrocada. Quem nunca fez uma cagada? Ainda mais incentivado por um financista trapaceiro.
Virgínia interveio: “exemplifique, veja o Eike, o Cid do Banco Santos, o … o … Ah, sei lá, tem um monte”.
O professor Filgueiras desaconselhou:
– Tem muito, não. Aliás, acho que ninguém. Em algum lugar sempre sobra. Melhor jogar nas costas dos “rapazes do mercado”, ilusionistas que, digamos, se aproveitaram de sua vontade de ajudar a irmã Guilhermina, e acabou ferrando tudo.
Não resisti:
– Menos Filgueiras, menos. Mesmo que o Serafa esteja louco para se isentar do erro, nem ele acreditaria nessa.
– Uma mentirinha sempre pode ajudar.
Netinho, fez um olhar conformado e se propôs a realizar a tarefa. Algo lhe dizia que o Serafa esperava por isso. Os dois sabiam de um salão, no mesmo bairro do Cambuci, que, de tão velho, o ajudante não conseguiu vender, ficando abandonado por todos esses anos.
– Grande Netinho! Por que não falou antes? Está em nome de quem?
– Do Serafim. Mas achei que não adiantava mexer. Deve estar com tudo o que é imposto atrasado, pode ter sido desapropriado. Mesmo que não, precisaria de uma puta reforma.
– Eu sou contador, mexo com isso, posso tratar da papelada e tudo o mais, disse Osorinho, esfregando as mãos. “Parece que já estou vendo as pedras espalhadas na mesinha de metal, duas geladas e dois bolinhos de bacalhau ao lado”.
O único a não se manifestar, se propor a alguma tarefa, foi Buqué, justamente um dos frequentadores mais animados do Botequim. Parecia triste, distante, amuado. Estar lá parecia obrigação, busca de um companheirismo já perdido.
Quando Zilá me alertou para isso, falei:
– Pode ser alguma coisa na empresa. Estamos voltando aos tempos do esporte nacional preferido dos empresários nacionais.
– Golfe, hipismo, squash?
– Não Zilá, corte de custos, funcionários, cafezinho, terceirizações, mais funcionários. Você sabe, as “expectativas”.
Tarefas divididas, combinamos nos encontrar no próximo domingo, pela manhã, para acompanhar o que tinha sido feito e visitar o imóvel citado pelo Netinho.
Todos já saindo, Virgínia e Nonato João, me pedem que fique por mais meia-hora. Precisavam esclarecer algumas coisas.
Pensei no assunto do botequim, mas não, queriam minha opinião sobre o momento político. Vendo que ainda havia sobrado uma das garrafas de cachaça salineira, acedi à permanência.
Curiosamente foi o cordelista, e não a doutoranda de Ciências Políticas, que iniciou o papo:
– Rui, que merda está acontecendo? Estão desconsiderando tudo o que foi feito. E não são apenas os do andar de cima que estão reclamando. Cacete! Em Itaquera, Gumercindo, Brasilândia, Parelheiros, por onde ando, só ouço revolta com o PT, Dilma, até Lula está mal falado. Taxistas, bancários, operários de fábricas e construção civil, ajudantes de serviços, funcionários públicos. Negam até mesmo o que foi feito diretamente em benefício deles mesmos, como categoria, sem coloração política.
Antes que eu falasse, Virgínia se mostrou desesperançada, logo ela:
– Esqueceram tudo. Queda brutal no desemprego, aumento de renda, acesso ao ensino, bolsas, programas como agricultura familiar, Mais Médicos, você sabe, quanta coisa foi feita. Ninguém compara com a merda que estava antes.
Procuro brincar com a desesperança do casal:
– Vocês devem conhecer a frase do Ivan Lessa. Sempre a uso em meus textos: “A cada quinze anos, o Brasil esquece os últimos quinze anos”.
Continuo:
– Vale apenas o momento, meus caros. O que dizem TV Globo, os jornalões e as revistas dos mesmos donos. Quem a esquerda achou que estava em estado terminal com as redes sociais e o barco foi correndo.
– O erro foi achar que a inserção social superaria tudo isso, disse Virgínia. Quantos séculos até ver a esquerda no poder?
– Será que ela pôde mesmo em algum momento ser esquerda? Alguém perdeu com a distribuição de renda, perguntou Nonato.
No momento em que a conversa seguia com o tema e a salineira podendo levar-nos às lágrimas, Osorinho irrompeu no salão, pálido:
– Descobri o motivo da tristeza do Buqué. Foi despedido ontem da fábrica de peças para bicicletas. Nos próximos dias, será chamado para saber o motivo. E só faltava um ano para ele ganhar o relógio. Meu Deus!
Anna Dutra
18 de maio de 2015 6:24 pmCéu estrelado para você!
Rui, que maravilha !
Está se tornando um vício a tua crônica às segundas. Vício bom, saudável!
Parabéns pelo texto e, claro, no aguardo das próximas emoções que vem por aí.
Em tempo, está tudo muito complicado mesmo, captastes bem.
Abraço.
Rui Daher
18 de maio de 2015 10:09 pmObrigado,
Anna, solitária acompanhante do “Dominó de Botequim”.
No Terra Magazine, a série também começou assim, um único leitor e comentários sempre entendendo o “espírito da coisa”, como se dizia no bom e velho Pasquim.
Porém, aos poucos, foi melhorando muito, Quando parei a série já contava com 6 leitores.
Grande abraço
Cesar Alberto Hyssa Luiz
18 de maio de 2015 10:35 pmDominó de Botequim
Prezado Rui, pode ter cecrteza que o Dominó de Botequim tem pelo menos mais 1 acompanhante.
Parabéns pelas belas histórias.
Abraços.
Cesar
Anna Dutra
18 de maio de 2015 10:36 pmRui,
Odonir também é fã.
Rui,
Odonir também é fã. Talvez ela ainda apareça por aqui. Mas não vá deixar de escrever porque o público é diminuto.
Eu gosto mesmo. Prezo sempre um texto bem escrito, que flui e nos prende porque a identificação é imediata. Sua crônica é verossímel. O diálogo é real. Por isso é tão boa!
Estarei aqui na próxima segunda. Capricha, ok ??!!!!
Parabéns de novo. Até!