Biologicamente e por criação, somos primos. Nasci em 1950, na rua Rio de Janeiro 550. Oscar nasceu 4 anos depois, na rua Rio de Janeiro 562, vizinho nosso, filho de tio Léo e tia Rosita, irmã de papai, e com o nome em homenagem ao tio. A vida e a convivência nos tornou irmãos.
Fomos amigos e parceiros desde cedo. A primeira parceria musical foi por volta de 1962, eu com um cavaquinho afinado como bandolim, Oscar com um violão maior do que ele. Lembro-me até hoje de termos tocado “La Paloma”, na Escola 7 de Setembro, da dona Nicolina, onde havíamos feito o primário.
Fomos crescendo, no início com turmas separadas pela idade, mas unidos em torno de todas as gerações. Em sua casa, tio Léo juntava o pessoal de serestas; a prima Rosa Maria trazia a rapaziada de bossa nova. E nossa turma bebia no repertório da MPB.
Confesso que ficava enciumado quando Oscarzinho brincava com o filho do Nelson Paina, o tacheiro da fábrica de doces do tio Léo. Ou quando recebia visita dos primos cariocas. Tivemos um pequeno dissenso quando começou o período de serenatas. Eu tinha minha turma, com meu amigo-irmão Zé Grandão, e Oscarzinho a turma dele, com o Sérgio Manucci e João Gentilini.

Mas nos juntamos definitivamente no período dos festivais, em Poços de Caldas e na TV Tupi. E, mais ainda, quando fomos estudar em São Paulo.
Entrei em 1970 na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Oscarzinho, uns dois anos depois, no Instituto de Física da USP.
Durante algum tempo moramos em um muquifo que a tia Clélia montou para nós. Ela havia comprado uma maloca na Vila Maria, para instalar sua escola, demoliu uma parte, mas deixou um sobradinho, um quarto apenas, com duas camas, que compartilhamos por algum tempo.
Nos últimos tempos em Poços, tinha sido um período turbulento. Meu pai, Oscar, era o mantenedor das duas casas. No último ato da crise financeira que afetou as duas famílias, a venda da nossa casa, constatou que 25% estavam penhorados em um aval para tio Leo. Foi o único momento que vi meu pai se render ao desânimo e protestar.
Quando começou a trabalhar, Oscarzinho recebeu o primeiro salário e veio me oferecer, em pagamento à dívida. Obviamente não aceitei, mas dava bem uma ideia do seu caráter.
Oscarzinho formou-se e aproveitou bem a vida de estudante da USP, junto ao grupo da Física que, depois da ECA, era o musicalmente mais animado. Depois, retornou a Poços, deu algumas aulas no secundário do Colégio do Arinos, até passar em concurso na Universidade Federal de Minas Gerais.

Cientista nato, disciplinado, estudioso, fez carreira brilhante na UFMG. Depois, fez doutorado e pós-doctor nos Estados Unidos. Poderia ter ficado por lá, não fossem dois fatores. O primeiro, o nacionalismo exacerbado dos norte-americanos, com a guerra do Golfo. O segundo, uma ligação umbilical com nosso país.
Oscarzinho me ensinou o modo de analisar a física. Se mudarmos uma partícula qualquer de um corpo, o resultado será um novo corpo, distinto do anterior. Era totalmente diferente da economia, ou das ciências sociais, que pouco analisavam os momentos de ruptura. Usei esse raciocínio para prever, em 1995, a quebra do país pelas taxas de juros e câmbio do Plano Real. Usei para prever que os incluídos do Bolsa Família, depois de se tornarem classe média, pouco tinham a ver com a fase de pré-inclusão. E para prever o desastre do pacote Joaquim Levy.
Nos anos 90, fizemos muitas parcerias, musicais e acadêmicas. Em pleno apogeu de Fernando Collor, o pessoal da física organizou um evento na UFMG, na qual mostrei os paralelos entre Goldenberg, cientista a serviço de Collor, e Nussensveig, cientista em estado puro, e exortei os acadêmicos a serem mais Nussensveig.
Ah, e o violão? Oscarzinho prosseguiu com o violão por toda sua vida. Em São Paulo, estudou com mestre Isaías Sávio, professor dos maiores violonistas brasileiros. Em Belo Horizonte, enturmou com todas as correntes de músicos, de Tavinho Moura aos chorões de Silvinho 7 Cordas.
Uma vez, em um sarau na casa de Tavinho, o violeiro ao lado o elogiou:
- Você toca muito bem.
Oscarzinho devolveu a gentileza:
- E você também.
Aí contaram para ele que o violeiro que o elogiou e foi elogiado era Almir Sater.
Nossas músicas eram os pontos de contato, quando estávamos distantes. Com Oscarzinho nos Estados Unidos, nas rodadas musicais cantávamos a música símbolo dele, “Violão Vadio”, de Baden Powell. E lembramos as músicas com que inauguramos a dessacralização das missas, o fim das missas em latim, no período luminoso de João 23. Nosso repertório incluia Andança, umas lindas de Sérgio Bittencourt e Viola Enluarada.

No final dos anos 90, sua neta Sophia enfrentou um problema sério de saúde, uma maldição que acomete parte da família Mesquita. Precisou fazer um transplante de medula em Curitiba, com o afamado Dr. Pasquini. Depois de um tempo, para encontrar a medula compatível, foi operada e passou a sofrer rejeição.
Tudo parecia perdido, quando Bimba, a esposa de Oscarzinho, ligou para um colega físico de Nova York. Era um físico judeu, que deixou a física, fez medicina e estava responsável pelo setor de remédios na prefeitura de Nova York. Ele colocou a equipe do dr. Pasquini em contato com o maior especialista do país, que indicou o tratamento e recomendou um remédio. Não havia no Brasil, por algum problema para renovar o licenciamento na Anvisa.
Conhece-se uma pessoa pela qualidade de seus amigos. O amigo judeu pegou um avião, desembarcou em Guarulhos, pegou outro para Curitiba, entregou o remédio, que salvou Sophia, e voltou para seu plantão em Nova York.
Nos anos 2000, Oscarzinho precisou vir a São Paulo para um tratamento de saúde. Ficou hospedado em casa, eu morando sozinho. Montamos um sarau ao qual compareceram todos os filhos. Para nossa alegria, embora morando longe, as redes sociais aproximaram os primos, a ponto de reeditar a ligação que nós, da geração anterior, formamos, com 5 filhos do seu Oscar, 4 da tia Rosita, 9 irmãos.
E, aí, percebemos o passar dos tempos. Reeditamos os saraus do tio Léo só que, agora, nós éramos a geração mais velha, recebendo os filhos, todos irmanados na música.
Depois disso, houve alguns reencontros, menos do que gostaria, rodadas de choro em BH, em Poços de Caldas, com Oscarzinho me deixando mal com seus bons exemplos, de ficar até tarde na roda, acompanhando todos os pedidos. Cada vez que recuso um acompanhamento, Eugenia levanta o exemplo do primo.
Temos diferenças, sim. Ambos temos filhos maravilhosos. Mas, por alguma razão, todos os filhos de Oscar enveredaram pela música, do Léo, cientista morando nos Estados Unidos, à Nara e à Maíra. Minha meninas não seguiram a vocação musical da família, talvez porque o pai estivesse muito ocupado tentando salvar o Brasil.
Nos próximos meses estaremos juntos, recebendo Oscar e Bimba para mais uma temporada e, aí, mergulhando em recordações sobre os que foram, Zé Grandão, Sérgio Peru, Adnei, Francha, Arlei. E uma Poços de Caldas que já não há.
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Frederico Firmo
18 de julho de 2025 7:23 pmCompartilhando Oscar. Fui contemporâneo de Oscar no Instituto de Física, sempre achei que o ouvi de menos, pois gostaria de ter ouvido seu violão muito mais. Mas era o que aquela vida de estudante de Física possibilitava. Oscar foi migrando para área Estado Sólido e eu para Física Nuclear que, na verdade, era mais Física Matemática. Não estou seguro de minhas memórias, mas a pós-graduação e a pesquisa em áreas diferentes nos fez conviver menos do que gostaria. Me recordo do seu violão quase clássico enveredando pelo chorinho. Eu o via com muita admiração, pois meu violão era tão mais simples, e sem aquele toque especial que só músicos especiais tem. Confesso que antes de desistir, Oscar era uma grande inspiração. Acho que ele nunca soube disto, pois infelizmente não fomos tão próximos. Mas sem dúvida a música de Oscar nos aproxima de uma maneira especial.Com o passar de tempo muitos colegas foram desaparecendo se esfumaçando no meio das memórias. Mas alguns tem o dom de permanecer nos trazendo aquele momento especial que resiste. A música de Oscar era um destes momentos. Nassif mande um abraço para Oscar.
evandro
19 de julho de 2025 8:09 amNós aqui em BH, no Departamento de Física, e agora fora dele, usufruímos a não mais poder.Tanto o professor quanto o músico. E, se não tiramos o violão de perto, vara a noite.
Fernando Bonato
19 de julho de 2025 6:14 pmLinda historia!
Anônimo
20 de julho de 2025 10:42 amSegue salvando o Brasil. Luis Nassif