O ajuste editorial da mídia independente precisa deixar de ser um tabu
Por Sara Goes*
Existe uma facilidade bastante particular no mercado brasileiro de comentários políticos: determinadas pessoas conseguem transformar opiniões improvisadas em autoridade intelectual. Durante a pandemia, por exemplo, bastava aparecer diante de uma câmera, usar óculos, classificar Jair Bolsonaro como fascista e demonstrar alguma indignação para conquistar reconhecimento como analista político. O ambiente favorecia esse tipo de personagem, muitas vezes mais pela performance do que pela consistência de suas posições.
Com o passar do tempo, o repertório mudou. A crítica ao PT e ao Presidente Lula passou a funcionar como uma espécie de certificado de independência intelectual. Elogiar uma iniciativa do governo, reconhecer resultados ou defender publicamente uma medida tornou-se, para determinados círculos, uma demonstração de falta de espírito crítico. Como se a autonomia de um comentarista pudesse ser medida pela quantidade de críticas que dirige ao governo federal.
A exigência de independência é legítima. O problema começa quando a crítica vira obrigação editorial e qualquer reconhecimento de mérito é tratado como suspeito. Durante a pandemia, enquanto o Brasil enfrentava dificuldades de acesso às vacinas, houve quem defendesse a liberação da compra privada de imunizantes, sob o argumento de que, diante da demora na vacinação pública, ao menos uma parcela da população conseguiria se proteger. A proposta significava permitir que a capacidade individual de pagamento determinasse quem teria acesso antecipado à proteção.
É possível discordar de uma opinião sem transformar seu autor em alvo de perseguição. O que não faz sentido é tratar qualquer contestação como cancelamento. Há comentaristas que, diante de uma crítica, comportam-se como quem sofre mais do que homem gripado. A vitimização ocupa o espaço que deveria ser dedicado à discussão do conteúdo, e a reação à crítica passa a receber mais atenção do que a própria opinião.
Essa distância entre discurso e experiência concreta também aparece quando determinados personagens discutem políticas econômicas. É difícil ignorar a diferença entre alguém que nunca precisou se preocupar com o pagamento do aluguel e uma trabalhadora que calcula as despesas domésticas, precisa garantir a mensalidade escolar do filho e encontra alternativas quando o dinheiro não chega ao fim do mês.
Isso não significa que a experiência pessoal seja suficiente para formular uma política fiscal ou que somente pessoas pobres possam discutir orçamento público. Significa reconhecer que a posição social interfere na compreensão das consequências de uma decisão econômica. Quando o ajuste fiscal é apresentado como uma discussão abstrata, sem considerar seus efeitos sobre famílias de baixa renda e trabalhadores informais, uma parte importante do debate fica de fora.
Há uma dimensão política nessa disputa: a existência de uma periferia na produção de opinião brasileira. Não se trata exclusivamente de localização geográfica, embora a concentração dos espaços de comunicação em São Paulo seja parte relevante do problema. Trata-se de quem recebe legitimidade para falar, de quais trajetórias são consideradas respeitáveis e de quem precisa apresentar credenciais adicionais para ser levado a sério.
É nesse sentido que consigo identificar experiências semelhantes entre pessoas tão diferentes quanto o Presidente Lula, André Janones e eu. Não estou estabelecendo equivalência de importância política, trajetória ou responsabilidade pública. Estou falando de uma posição periférica em relação aos centros tradicionais de reconhecimento e validação da opinião. São trajetórias que encontram resistência nos espaços onde se define quem merece ser ouvido e em quais condições.
Essa percepção ajuda a compreender minha preocupação com os rumos da imprensa independente. Há anos observo um movimento de aproximação entre os critérios editoriais de veículos que nasceram com a proposta de oferecer outra perspectiva sobre a realidade brasileira e aqueles historicamente adotados pela imprensa comercial.
A imprensa independente surgiu para ampliar o campo de interpretação dos acontecimentos, questionar enquadramentos dominantes e permitir que outras experiências sociais e políticas participassem da discussão pública. Sua contribuição depende da capacidade de formular perguntas próprias, investigar interesses e reconhecer fatos mesmo quando eles contrariam expectativas editoriais.
Quando um veículo independente reproduz as mesmas desconfianças seletivas e os mesmos critérios de avaliação da política nacional, sua diferença em relação à imprensa comercial fica comprometida. O problema não está em criticar o Presidente Lula, o PT ou qualquer integrante do governo. Está na aplicação desigual dos critérios de crítica. Por que determinadas declarações recebem tratamento generoso, enquanto outras são examinadas sob permanente suspeita? Por que a independência intelectual parece exigir uma distância previamente estabelecida em relação a determinados atores políticos?
A imprensa independente precisa discutir essas questões internamente. Não basta reivindicar autonomia diante dos grandes grupos de comunicação se os parâmetros de avaliação continuam sendo importados deles. Um jornalismo crítico precisa reconhecer os acertos de um governo e continuar cobrando suas falhas, sem transformar a crítica em identidade profissional ou a discordância em perseguição.
A diversidade editorial também exige diversidade de origem, trajetória e perspectiva. Exige espaço para quem não frequenta os mesmos círculos e não depende da aprovação dos mesmos grupos para construir uma audiência.
A imprensa independente e a imprensa comercial já dividem o mesmo CEP. Em alguns casos, parecem estar dividindo também o mesmo cérebro.
É por isso que iniciativas como a Atitude Popular importam. A Atitude Popular é uma rede de comunicação independente e popular, com atuação a partir do Ceará e alcance nacional. Reúne portal de notícias, rádio comunitária e produção audiovisual, com programação própria no YouTube e em outras plataformas digitais. A partir de Fortaleza, desenvolve jornalismo, entrevistas e debates sobre política nacional e questões regionais, com atenção especial ao Ceará e ao Nordeste.
O projeto reúne profissionais e colaboradores voluntários e tem como característica a produção de conteúdo fora dos grandes centros tradicionais de comunicação. Sua atuação também alcança municípios do interior cearense, ampliando a circulação de informação e a participação de diferentes segmentos sociais. A proposta é construir referências próprias, desenvolver formatos de comunicação popular e disputar espaço na distribuição da informação nacional.
Defender a imprensa independente significa também defender projetos com identidades editoriais distintas, capazes de discordar entre si e questionar os consensos estabelecidos dentro do próprio campo progressista. A independência não pode ser uma credencial concedida por determinados comentaristas, nem depender da aprovação dos círculos que concentram visibilidade e reconhecimento.
O ajuste editorial da imprensa independente precisa deixar de ser um tabu. Estamos produzindo jornalismo a partir das nossas próprias referências ou apenas reproduzindo, com outra identidade visual, os critérios de quem sempre controlou os espaços de opinião?
É hora de diversificar.
*Sara Goes é jornalista. Nordestina antes de brasileira, mãe e militante, escreve ensaios que misturam experiência íntima e crítica social, sempre com atenção às formas de captura emocional e guerra informacional. A designer que criou a mãozinha do Lula. Atua também em projetos de comunicação popular, soberania digital e formação política.
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