Editor-chefe da EBC é demitido por negar a ditadura militar

Declarações de Luiz Braga desagradaram o governo, que pressionou por sua saída; presidente da estatal tentou protegê-lo

Luiz Carlos Braga e Hélio Doyle, presidente da estatal que não se incomodou com as declarações do jornalista e preferia mantê-lo no cargo. | Foto: EBC

do Brasil de Fato

Após denúncia do Brasil de Fato, editor-chefe da EBC é demitido por negar a ditadura militar

por Igor Carvalho, de São Paulo (SP)

Luiz Carlos Braga foi demitido da Empresa Brasil de Comunicações (EBC) dois meses após reestrear na estatal. O afastamento ocorreu após o Brasil de Fato noticiar que o jornalista disse, em uma entrevista ao Podcast61, em novembro de 2022, que não houve ditadura militar no Brasil, elogiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e criticar a eleição do atual mandatário do país, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Pra mim não foi ditadura, foi um governo militar”, explicou Braga ao apresentador Ronan Carlos, que queria saber se ele “tomou uns cacetes da ditadura militar”. O jornalista, que trabalhou na Rede Globo entre 1981 e 2008, é filho de um militar que trabalhava nas Forças Armadas no período da ditadura.

A demissão foi confirmada ao Brasil de Fato pela assessoria da estatal. Na nota, a a empresa foi lacônica mais uma vez: “Houve um entendimento mútuo, entre a EBC e o jornalista Luiz Carlos Braga, para ele deixar de prestar serviços para a empresa”.

Na última segunda-feira (9), a estatal já havia relativizado a negação da ditadura militar no país. “O jornalista Luiz Carlos Braga foi contratado para o telejornal Repórter Brasil por critérios estritamente profissionais. Não cabe à EBC concordar ou não com o que ele afirmou antes de vir para a empresa e na condição de jornalista”, afirmou a empresa pública.

Nos bastidores, as declarações incomodaram o Palácio do Planalto, que fez pressão pela saída do jornalista. De acordo com fontes escutadas dentro da EBC pelo Brasil de Fato, o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Paulo Pimenta, seria o integrante do governo mais incomodado com Braga, principalmente pelo questionamento à eleição de Lula.

Quando perguntado sobre o que pensava de Lula, Braga afirmou que “é um cara que curto pela história”, mas criticou a ascensão do mandatário brasileiro ao poder. “Me assusta o fato de você ter uma pessoa condenada em várias instâncias ter virado presidente, porque foram anuladas todas as condenações. Aí você pensa: ‘Todos esses juízes estavam errados?’”, questionou.

Na entrevista ao podcast, Braga saiu em defesa de Bolsonaro. “Ele teve muita boa intenção, ele me lembrava muito a forma de governar do [Fernando] Collor. O Collor quando disse que não precisava do Congresso, o Congresso foi e tirou ele”, afirmou o jornalista, que ponderou. “Cometeu alguns erros, mas cometeu erros como todo mundo que passou na Presidência da República cometeu”, disse.

Ainda sobre Bolsonaro, Braga criticou a postura da imprensa brasileira. “Foi uma coisa muito partidária da minha profissão, dos meus colegas jornalistas. Todo mundo decidiu que não gostava do cara e vamos acabar com o cara”, pontuou.

Internamente, servidores da EBC se incomodam com o excesso de bolsonaristas no comanda da empresa. Já o presidente da estatal, Hélio Doyle, demonstrou não se incomodar com as declarações do jornalista, tentou contornar a situação e mantê-lo na empresa. Mas perdeu.

Passagem pela EBC

Braga trabalhou na EBC durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), entre os anos de 2020 e 2022. Em julho deste ano, foi recontratado pela estatal para o cargo de editor-chefe e, em 7 agosto, passou a apresentar o programa Repórter Brasil, na TV Brasil, que é transmitido diariamente, às 19h.

Nesta nova passagem, foi contratado pela EBC por meio de sua empresa, a Luiz Carlos Braga Comunicações Ltda, por onde estava recebendo mensalmente R$ 28.500. O contrato abrange também o valor pago à jornalista Maria Paula Sato, que, em sua primeira experiência na estatal, encerrada em março de 2022, recebia R$ 18.000.

Luiz Carlos Braga estava à frente, desde 7 de agosto, do Repórter Brasil, programa diário da grade da TV Brasil, onde dividia a apresentação com a jornalista Maria Paula Sato. Ela permanecerá na empresa, após conversa com a direção, mas será realocada em outro projeto.

Edição: Rodrigo Chagas

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Redação

2 Comentários

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  1. Ora, fosse o cara um simples operador de teleprompter, aí de fato o reacionarismo dele não teria maior relevância – apenas execute bem a função para a que foi contratado, sem contaminação ideológica, o que é simples de ser aferido. Mas o sujeito fora contratado pela EBC como editor-chefe! Apelar aí para a falsa dicotomia “político x técnico” é ridículo, da mesma forma que no exercício de qualquer profissão que envolva algum grau de subjetivismo (jornalismo, educação, magistratura, psicologia, etc.).

  2. E o Doyled acha “normal”. Por muito menos o regime bolsonarista defenestrava o sujeito e o mandava pra rua. Fez isso até com delegado federal. Imagine com jornalista? Ai o chefe da EBC segura um sujeito deste ganhando quase 30 mil reais e acha o comportamento do cara “normal”.

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