Entregadores de Apps: miseráveis, invisíveis e descartáveis, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Não por acaso a reação das empresas iFood, Rappi, Uber Eats e Loggi foi mais vista na televisão do que a própria greve

Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato

Miseráveis, invisíveis e descartáveis

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Aqui mesmo no GGN disse que a situação dos trabalhadores algoritmizados é pior do que a dos escravos. Volto ao assunto porque a disputa entre os entregadores e as empresas iFood, Rappi, Uber Eats e Loggi é um dos fenômenos mais interessantes que ocorreu nos últimos tempos.

De um lado nós temos o monopólio dos algoritmos e do processamento de dados. De outro trabalhadores precários que foram colocados em regime de dependência econômica em virtude dos apps terem se tornado intermediários das empresas de fast food. Entretanto, os dados processados pelos aplicativos são produzidos por órgãos públicos (como o mapeamento, zoneamento e o regime do fluxo de veículos nas cidades) e pelos próprios entregadores cadastrados no serviço (cujas entregas são monitoradas pelos apps, que podem então coletar informações valiosas sobre as rotas utilizadas).

A coleta e o uso destas informações públicas e privadas, que constituem a “vantagem comparativa” dos apps, são gratuitos. Se fossem remuneradas, as cidades teriam condições de melhorar suas malhas viárias e os entregadores teriam uma remuneração melhor. Mas neste caso a margem de lucro dos apps não permitiria que eles investissem fortunas nos meios de comunicação (refiro-me o anúncio feito no intervalo do Jornal Nacional) para defender seus privilégios frente aos empregados.

Quem pode mais chora menos? O problema é que neste caso quem vai chorar não são apenas os entregadores. As pessoas que acostumaram a fazer encomendas de alimentos utilizando apps são os maiores afetados pela paralisação. Eles obviamente não estão nenhum pouco interessados em saber quanto os entregadores ganham. Desde que as entregas sejam feitas ao menor custo os usuários de apps ficarão satisfeitos.

A dependência dos usuários acarreta duas coisas. Em primeiro lugar, eles também fornecem às empresas iFood, Rappi, Uber Eats e Loggi informações gratuitas de geolocalização utilizando seus smartphones (é impossível saber que outros dados são coletados dos telefones dos usuários sem que eles saibam). Em segundo, em virtude da frustração das encomendas por falta de entregadores, os usuários ficam predispostos a odiar os trabalhadores que são super explorados pelos apps.

Ontem a esposa do governador de São Paulo disse que “não é correto você dar marmita porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua”. Se as entregas das marmitas aos moradores de rua fossem feitas com a utilização de apps ela certamente teria dito algo diferente. Afinal, me parece evidente que os governantes paulistas nunca ousariam enfrentar o iFood, Rappi, Uber Eats e Loggi.

A primeira revolução industrial empregou os detritos sociais do feudalismo para maximizar a produção de lucro. As duas outras revoluções industriais surgiram e se desenvolveram em virtude da urbanização crescente produzida pelo fim do regime feudal. A luta por melhoria de condições de vida dos operários acarretou conflitos violentos que foram capazes de modelar o mundo em que nós vivemos. Esse mundo está se decompondo rapidamente à medida que o neoliberalismo consegue destruir todas as conquistas civilizacionais consolidadas desde o século XIX (sindicalismo, trabalho regulado e protegido por legislações nacionais e instituições públicas, proteção estatal das camadas mais vulneráveis da população, etc…).

Desde que o neoliberalismo começou a emergir e a dominar o cenário mundial aproveitando o avanço das comunicações e da informatização, um novo tipo de sociedade começou a ser criado. Nela o que predomina é a vulnerabilidade total. Essa é a situação em que se encontram tanto os entregadores de alimentos quanto aqueles que não tem como se alimentar. A quarta revolução industrial prometeu um mundo de inclusão, mas ela está produzindo um novo tipo de exclusão econômica.

O ideal do neoliberalismo é a criação de uma sociedade de consumidores. Nela, os detritos sociais legados pela revolução industrial anterior não tem qualquer função específica. Moradores de rua e entregadores de alimentos mal remunerados não têm capacidade de consumo. Portanto, a humanidade deles não pode ser defendida pelo governo, reverenciada pela imprensa ou reconhecida pelo Estado.

No limite, os vulneráveis criados pela quarta revolução industrial são corpos descartáveis que podem passar fome ou ser assassinados pela polícia, pois o sofrimento deles não terá qualquer visibilidade. Não por acaso a reação das empresas iFood, Rappi, Uber Eats e Loggi foi mais vista na televisão do que a própria greve.

A reação literária às condições desumanas impostas às populações europeias (digo isso pensando em Oliver Twist, de Charles Dickens, e Os Miseráveis de Victor Hugo) ajudou a desenvolver a consciência de que era preciso humanizar a revolução industrial. Que espaço os moradores de rua e os entregadores de apps tem na literatura, na dramaturgia e na teledramaturgia? Nenhum. Eles existem, mas a existência deles não é capaz de despertar qualquer emoção positiva no “respeitável público”.

Você já se perguntou porque as cidades não desenvolvem apps para localizar moradores de rua e possibilitar que as necessidades básicas deles sejam atendidas em tempo real com o menor custo? Ok. Esta é uma pergunta apenas retórica.

Todos nós estamos sendo condicionados pelo neoliberalismo a separar o mundo que premia o uso intensivo de tecnologia e o consumo que produz lucro do mundo em que a humanidade não pode ter qualquer valor específico para a administração pública. Esse talvez seja o verdadeiro problema cognitivo das madames cheirosas e bem alimentadas que tentam criminalizar tanto a exclusão social quanto o trabalho das pessoas que fazem o que podem para minimizá-la.

 

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