As pérolas de Damares contra meninas, mulheres e aborto

Se Damares supostamente agiu para impedir o abortamento da menina de 10 anos, não seria um espanto, nem a 1ª vez que ela cria obstáculos ao aborto previsto em lei

Jornal GGN – Que ninguém se engane: Sara Winter é, em grande parte, obra de Damares Alves. A pastora arrumou emprego para a ex-feminista no gabinete de Magno Malta quando era assessora jurídica da Câmara. Com Jair Bolsonaro eleito, Damares foi alçada à ministra das Mulheres e deu um cargo de secretária para Sara. Mas a extremista que viajava a América Latina para demonizar o feminismo preferiu sair do Ministério para militar nas redes sociais.

Sou uma das filhas adotivas da Damares, diz Sara Winter em vídeo sobre cargo na Secretaria da Mulher

Remotamente, Sara liderou no último domingo (16) militantes anti-aborto numa cruzada para impedir o abortamento em uma menina de 10 anos que sofreu estupros em série nas mãos do tio, no Espírito Santo.

Em uma live derrubada posteriormente no Youtube, Sara – que já recorreu ao aborto quando mais jovem – defendeu que a menina levasse a gestação de 22 semanas até o limite, nem que para isso tivessem de dizer à criança que ela estava “dodói da barriga”.

O aborto em caso de estupro foi despenalizado no Brasil. Ainda assim, o chamado movimento “pró-vida”, no qual Sara e Damares militam há anos, fizeram de tudo para impedir que o direito fosse exercido.

Segundo reportagem da revista Piauí, Damares enviou dois assessores especiais para acompanhar o caso da menina. Agora, eles são “suspeitos”, de acordo com o Ministério Público, de terem acessado indevidamente os dados sigilosos da criança.

Anti-aborto, Damares é citada em áudio gravado na casa da menina de 10 anos

Sara praticou crimes contra o ECA, a Constituição e o Código Penal ao divulgar os dados e incitar protestos em frente ao hospital em Recife, que aceitou fazer o procedimento depois de negativa na equipe médica do Espírito Santo.

Quando assumiu o Ministério das Mulheres, Damares anunciou uma “nova era”, em que meninos “vestem azul e meninas vestem rosa”, ou seja, mulheres e homens têm uma etiqueta a seguir, um papel social construído a preservar. Deixou claro com isso que não avançaria com as pautas de gênero que prosperaram nos últimos governos. Mas prometeu que não usaria o cargo para esvaziar o que já fora conquistado, como o aborto nas formas previstas em lei, por exemplo.

O que se viu claramente através de sua discípula Sara Winter, e nos bastidores, por meio dos dois assessores ministeriais, foi justamente o contrário.

Se Damares supostamente agiu para impedir o abortamento da menina de 10 anos em Recife, não seria um espanto, nem a primeira vez que ela cria obstáculos ao aborto previsto em lei.

Em 2012, a pastora Damares, que é advogada de formação, moveu uma ação na Justiça para impedir que uma mulher de 20 anos fizesse um aborto para salvar a própria vida. A jovem Jéssica era uma paciente com câncer e o tratamento era incompatível com a gestação de 6 meses. Ela tinha uma escolha, e escolheu o aborto. Mas Damares estava preocupada com “direito de ir e vir do feto”. O caso foi revelado pela revista digital Vice, em 2019. Damares não quis comentar.

Damares defendeu na Justiça o “direito de ir e vir” de um feto, para impedir aborto em paciente com câncer

As pérolas de Damares em relação a estupro e abortamento não param por aí.

Em junho de 2019, falando do enfrentamento à violência sexual infantil na ilha do Marajó, Damares, que foi vítima de abuso quando criança, disse que as “meninas lá são exploradas porque não têm calcinhas.”

Damares Alves culpa meninas que não usam calcinha por estupro

Conforme o GGN mostrou na reportagem abaixo, de 2019, a pastora Damares disseminou informações falsas a respeito do aborto nos Estados Unidos para assustar fiéis nas igrejas que frequenta. Ela disse em um culto que, nos EUA, os bebês são assassinados deliberadamente a qualquer momento da gestação, inclusive depois das 39 semanas.

“O Brasil vai virar os EUA”: a fake news de Damares sobre aborto

Em setembro de 2019, ela acionou na Justiça a revista AzMina para censurar uma reportagem sobre aborto seguro segundo as recomendações da OMS.

Em março de 2020, Damares disse em entrevista ao diário argentino Clarín que “aborto não pode ser agenda das mulheres” na América Latina.

Aborto não pode ser agenda das mulheres, diz Damares ao Clarín

Com Damares ministra, o Brasil passou a se alinhar aos países mais fundamentalistas na ONU, obstruindo debates sobre “educação sexual”, “direitos reprodutivos” e “direitos sexuais”.

O que Damares propõe é “controle sobre o corpo das mulheres”, diz Jamil Chade

Em janeiro passado, em vez de investir em educação sexual nas escolas, Damares propôs uma campanha nacional sobre “abstinência sexual” como política pública contra a gravidez precoce. O jornalista Jamil Chade foi cristalino sobre o significado da medida: controle dos corpos das mulheres.

“Retira-se o direito de saber para garantir autonomia sobre seu corpo e, ao mesmo tempo, uma campanha é promovida para dizer quando a mulher deve manter relações sexuais.”

Damares usa sífilis, doença prevenível com camisinha, para justificar abstinência sexual

Em abril passado, Damares atacou o Supremo Tribunal Federal em uma reunião ministerial do governo Bolsonaro. Ela disse que a Corte caminha para “liberar” o aborto até em “casos de coronavírus”.

“Neste momento de pandemia, a gente tá vendo aí a palhaçada do STF trazer o aborto de novo para a pauta, e lá tava a questão de… as mulheres que são vítima do zika vírus vão abortar, e agora vem do coronavírus? Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil? Vão liberar geral?”, disse a ministra

À revista Piauí, o Ministério comandado por Damares negou acesso aos dados da menina de 10 anos. Alegou existir uma “campanha desnecessária” contra sua atuação neste caso. Não repreendeu os atos de Sara Winter e de deputados e vereadores conservadores em Recife, ligados a movimentos católicos e evangélicos que tentaram impedir que uma ordem judicial – e acima disso, o desejo da menina – fosse executada.

Contra religião afro, diversidade sexual e feminismo: eis a nova ministra dos Direitos Humanos

 

 

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5 comentários

  1. Lamentável que esse atraso travestido de mulher seja “otoridade” nesse desgoverno.
    Gostaria de saber a quanto monta a fortuna dessa – dita – mulher… que, com certeza, não adota essa rasa política por “amor ao próximo”… Deve correr muito dinheiro por debaixo dos panos cor-de-rosa…

  2. Essa entidade escolheu suas convicções em alguma lixeira da História. Não seria ruim até o momento em que ela tenta, por bem ou por mal, convencer os outros de que o que achou na lixeira da História é muito bom.
    É o tipo de situação em que a pessoa torna o ódio de si mesma como prática, “missão”.

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