O deputado federal Chico Alencar, do PSOL do Rio de Janeiro, repercutiu nesta quinta (26) o artigo do jornalista Luís Nassif, do GGN, que levanta questões que permanecem sem resposta pública satisfatória a respeito do caso Marielle Franco. Na quarta (25), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou os mandantes da execução da vereadora e do motorista Anderson Gomes. O crime ocorreu em março de 2018. Para Chico Alencar, o fim do julgamento representa uma “justiça parcial” e “há indagações que precisam ser respondidas”.
Na tribuna da Câmara Federal, Alencar frisou que o PSOL ingressou com um pedido para que os inquéritos sob a batuta do delegado de Polícia Civil Rivaldo Barbosa – condenado por obstrução de Justiça e corrupção passiva no caso Marielle – passem por uma inspeção ou sejam reabertos. “Na medida em que ele foi condenado por obstrução de Justiça, tudo precisa ser reavaliado”, frisou Alencar.
Na sequência, Chico Alencar falou das questões que não foram respondidas com o julgamento no STF. “É uma justiça parcial (…). Há algumas indagações que até o jornalista Luis Nassif faz num alentado artigo hoje que precisam ser respondidas. A condenação está feita, é um fato jurídico consumado. Faz justiça, mas não toda e inteira justiça”, opinou Alencar.
Entre as “perguntas sem respostas públicas satisfatórias”, Chico Alencar citou os seguintes pontos, que foram levantados no artigo de Nassif:
- O executor de Marielle, Ronnie Lessa, rastreou na internet dezenas de pessoas ao longo de meses, inclusive o próprio deputado Chico Alencar. “Será que ele fez isso por conta própria e isoladamente?”, questionou o parlamentar.
- Sobre o porteiro do condomínio Vivendas da Barra, onde Ronnie era vizinho do ex-presidente Jair Bolsonaro, houve pressão para que ele mudasse a versão do primeiro depoimento à Polícia, narrando que os assassinos de Marielle tentaram visitar a casa de Bolsonaro no dia do crime. “Onde anda esse porteiro? Ninguém investigou a declaração dele?”, perguntou Alencar.
- A reação de Carlos Bolsonaro, também residente do condomínio, “ficou esquecida totalmente”, na visão do deputado. Vereador com Marielle, Carlos mexeu nos arquivos da portaria para tentar desmentir a versão do porteiro.
Chico Alencar ainda apontou como “muito importante” outra questão: “a execução de Marielle se deu uma semana depois da efetivação da Garantia de Lei e Ordem, intervenção federal do governo Michel Temer na segurança pública.”
O deputado lembrou de um episódio onde pareceu que os militares que posteriormente ascenderam ao poder junto ao governo Bolsonaro não pareciam muito interessados em dar respostas sobre a morte da vereadora, apesar de o governo anterior, de Michel Temer, ter afirmado que se tratava de “crime político” e prometido que “tudo seria investigado”.
“O general Richard Nunes, indicado secretário de segurança da intervenção no Rio de Janeiro, numa investigação parlamentar que ia acompanhando as investigações inicialmente, foi interrompido por Braga Netto, que queria que ele não se alongasse [nas respostas] porque havia investigações em curso. (…) Por que ele era ordenado a se calar em certos temas? Isso tudo fica com certo grau de nebulosidade, e nosso papel é insistir e persistir, não por vingança, mas para desmontar o esquema mafioso que ainda existe no Rio de Janeiro”, finalizou Alencar.
Leia o artigo de Luís Nassif abaixo:
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Gaspar Alencar
26 de fevereiro de 2026 2:12 pmChico, o jornalismo Nassif, foi de uma perspicácia admirável. Os profissionais de todos os segmentos precisam evoluir – para fugir do colonialismo mental – somente com uma boa dose de filosofia!
jsfilho
26 de fevereiro de 2026 2:24 pmUma página que não pode ser virada.
Muito já foi escrito sobre o assassinato de Marielle Franco. Mas há alguns aspectos que devem ser iluminados com mais nuances.
A vereadora foi assassinada quando estava apenas há 17 meses na Câmara dos Vereadores em uma legenda dita “nanica”. Foi muito combativa e brilhante no exercício deste seu primeiro mandato. Por ser muito carismática, era vista como uma aposta para voos mais altos no futuro. Porém não tinha influência na Câmara a ponto de atrapalhar negócios suspeitos. Também não era uma política conhecida pelo grande público. Era admirada e reconhecida em círculos bem restritos da esquerda carioca.
Andava sem seguranças. Poderia ser executada facilmente por uma dupla de motoqueiros, como é o “modus operandi” comum nas ações milicianas. Há anos políticos da baixada fluminense são executados dessa forma. Mas não. Foi montado um plano altamente sofisticado, com um escritório do crime” que cobrou muito caro, com a conivência de agentes públicos que devem ter recebido alta propina para apagar rastros (como garantir que não haveria registros das câmeras das ruas). Além da posterior execução dos arquivos vivos, para não deixar pontas soltas. Um crime sofisticadíssimo, complexo e de alto custo para os mandantes.
É presumível que Marielle não era o alvo principal. Ela foi a escolhida para dar um recado. O crime organizado, acuado pela intervenção federal, precisava demonstrar a sua força e deixar claro que tem um exército agentes públicos a seu serviço que “comem na sua mão”, entre policiais, políticos, juízes e procuradores. Um aviso de que, no Rio de Janeiro, quem quiser entrar na política tem que aceitar – e negociar – com essa força. O interventor Braga Netto, hoje na cadeia, parece entendido esse recado e, talvez, negociado.
Muitos ruídos foram espalhados. Que seria uma vingança tardia das ações do Marcelo Freixo contra a milícia, ou ainda uma encomenda da mente perturbada do Carluxo. Motivações plausíveis, é bem verdade. Mas não para justificar a dimensão gigantesca dessa ação criminosa.
A repercussão do crime é que foi mal avaliada pelos mandantes. Por ser uma mulher preta, de origem humilde, lésbica, uma vereadora recém eleita e pouco conhecida, imaginaram que o caso não iria longe. Erraram feio.
A comoção nacional e internacional exigiu que a apuração chegasse aos culpados. Assim os executores foram identificados e presos. Mas o detentor das informações chaves, o grande “ponta solta” Capitão Adriano, permaneceu livre até ser executado na Bahia (o laudo da perícia, mesmo manipulado, parece não deixar dúvida sobre a “queima de arquivo”).
Os executores de Marielle e Anderson guardaram o mais profundo silêncio até que…Bolsonaro perdeu a reeleição. Não precisa especular muito para concluir que eles tinham a expectativa de um indulto, dada a relação promíscua que sempre tiveram com a familícia. Então decidiram fazer a delação e incriminar os irmãos Brazão. Uma delação que talvez não tenha sido escolha deles, mas determinação superior do “poder miliciano”.
Os Brazão nunca foram “flor que se cheire”, é bem verdade. Podem ser os verdadeiros mentores? Sem dúvida. Mas não é simples correlacionar o conteúdo da delação com fatos concretos que os corroborem. Fica parecendo que há um esforço para colocar um ponto final nesse crime com a condenação dos irmãos.
O que talvez nunca saibamos é qual foi a participação da família Bolsonaro. Pelas limitações intelectuais do clã, é difícil acusá-los de serem os mentores. Talvez tenham sugerido nomes para serem as vítimas; talvez tenham somente oferecido um apoio modesto a uma ação que os beneficiaria eleitoralmente, ou aos seus negócios imobiliários. Mas também é difícil não considerar que houve algum grau de cumplicidade da familícia, por conta da blindagem do porteiro do condomínio Vivendas da Barra.
Muitos anos se passaram até que a verdade de muitos crimes cometidos pela ditadura militar viessem à tona pelas vozes de uns poucos agentes públicos que resolveram contar o que sabiam (o caso Rubens Paiva, o Riocentro, etc.). Outros casos permanecem até hoje sem maiores revelações (Zuzu Angel, Anísio Teixeira, José Jobim). É possível supor que alguns anos se passarão para que a história completa do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes venha à luz.
Nelson Viana dos Santos
27 de fevereiro de 2026 10:35 amParabéns pelo texto!
Evandro
26 de fevereiro de 2026 3:12 pmEu e minha ignorância: pq cargas dágua optariam por esconder os verdadeiros mandantes? Sejam os mandantes julgados. sejam os assassinos.
Nelson Viana dos Santos
26 de fevereiro de 2026 5:49 pmO artigo do Nassif chega a ser perturbador. Acompanhei aqui no ggn, na época do crime, a verdadeira aflição do filho do inominável para demonstrar que tinha um álibi que o afastava do rol de suspeitos. Sabemos também que um grupo de promotores abandonou as investigações em um dado momento. Por que? As investigações feitas pelo MP do Rio de Janeiro foram conferidas pela PF e pela PGR? São muitos fios soltos, muitas indagações que nos deixam com dúvidas. O deputado Chico Alencar é um político que merece toda a credibilidade por sua história de homem público íntegro. Seria importante responder às indagações feitas por ele em plenário; responder às indagações do artigo do Nassif. Essa dupla de irmãos condenados são notórios criminosos. A questão é se eles são, de fato, os mandantes do crime contra a vida de Mariele e Anderson. Apenas para lembrar. O assassino Capitão Adriano, executado na Bahia, tinha vários celulares em seu poder. O que havia nesses celulares? O exame necroscópico foi realizado na Bahia, o corpo chegou ao Rio de Janeiro oco. A mulher de Adriano quis fazer delação premiada e, até onde me recordo, não foi aceita pelo MP do Rio de Janeiro. Esse assassino foi condecorado e visitado quando preso pelo agora candidato à presidência, o outro irmão. Olha, difícil….