Hoje às 17 horas entrevistaremos o presidente da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), No fim da ditadura, o Brasil tinha uma petroquímica forte, fruto de um modelo vitorioso, o tripartite, que juntava uma empresa estrangeira, uma brasileira e a Petrobras atuando como âncora.

Petroquímica é uma atividade que exige concentração de capital. A montagem do setor demanda não apenas a fabricação da matéria prima, mas o desenvolvimento de empresas downstream, as que gerarão novos produtos em cima da matéria prima fabricada,

Na privatização selvagem do governo Fernando Henrique Cardoso, não se respeitaram as características de cada setor, nem na petroquímica, nem na siderurgia. Para se posicionar globalmente, ambos os setores precisavam de escala.

Optou-se, porém, pela divisão em várias empresas menores. Segundo Pérsio Arida – que em determinado momento assumiu a liderança do modelo – os conglomerados foram picados para rentabilizar a venda, prenunciando a enorme falta de estratégia econômica que marcaria o país dali para frente.

Até então, a política cambial rígida, dificultando a saída de capitais brasileiros do país, havia mantido em casa grande parte dos ativos financeiros. Era um diferencial em relação à Argentina, que convivia há anos com a internacionalização do capital privado.

Mas durou pouco essa vantagem. Nos anos seguintes, o Brasil entraria definitivamente na era da financeirização, que prosseguiria por todos os governos subsequentes, com um breve interregno do governo Dilma Rousseff. Tudo deveria ser convertido em ativos financeiros, para permitir a atuação dos fundos de investimento e conceder a hegemonia econômica ao capital financeiro. A privatização deveria seguir esse modelo.

A reorganização do setor petroquímico foi lenta, custosa, fruto da disputa de dois grandes grupos nacionais, a Odebrecht e o grupo Ultra. Atrevida, a Odebrecht apostou tudo, endividando-se temerariamente para assumir o controle da Petroquisa, a maior central petroquímica brasileira. Foi bafejada pela sorte com um aumento inesperado nas cotações internacionais que a salvou e permitiu a montagem da Brasken, enquanto o grupo Ultra prosseguia em seu crescimento orgânico.

Mas foram exceções, em uma era em que a financeirização já começava a se impor em todos os quadrantes.

Com a política sistemática de juros altos e câmbio baixo, praticada por FHC e mantida por Lula, gradativamente a geração dos capitães de indústria – herdada dos períodos anteriores – foi se desfazendo. A enorme rentabilização das aplicações financeiras, as dificuldades em competir com a importação, o barateamento da compra de tecnologia, em detrimento das políticas de inovação internas, foram fazendo gradativamente com que os industrialistas passassem a ser substituídos pela nova geração de financistas.

Lembro-me de uma conversa com Paulo Cunha, o grande estrategista do grupo Ultra, manifestando seu espanto com o novo mundo que se delineava. Em visita a um banco americano, em Wall Street, no elevador viu dois jovens, quase imberbes, rindo e antecipando que, no dia seguinte, iriam jogar o México nas cordas, apostando contra sua moeda. 

Esse modelo estéril, anti-trabalho, especulativo foi gradativamente sendo introjetado no universo empresarial brasileiro. No período FHC, as indústrias foram esmagadas pelos juros e câmbio. No governo Lula, encontraram a saída, enquanto o Brasil perdia o rumo. Perdiam no operacional, ganhavam no financeiro, graças a operações bancadas pelo Banco Central, com enorme custo para o Tesouro. O diretor financeiro passou a ser mais relevante que a diretoria de desenvolvimento de novos produtos.

O boom das commodities, no período, permitiu a manutenção dessa política de ganhos imediatos para todos, à custa da perda de futuro. Ao manter a política econômica herdada de seu antecessor, gradativamente foi esmagando o maior aliado de uma política de desenvolvimento, os industrialistas.

A ficha caiu quando uma das crises promoveu uma desvalorização do câmbio. Em vez de aplausos da indústria, como ocorreria em outros tempos, o governo colheu queixas. Foi só ali que nos demos conta de que a indústria brasileira, o bravo setor de máquinas e equipamentos, tinha se transformado em uma enorme maquiadora.

Um a um, os industrialistas do período anterior foram desaparecendo de cena, Bardella, Villares, os Ermírio de Moraes, Mindlin, Cunha, Beltrão, Gerdau, substituídos por uma nova geração financista. Basta comparar Hélio Beltrão com Hélio Beltrão Filho para se ter uma ideia da degradação do pensamento empresarial brasileiro.

Restaram apenas as empreiteiras, por uma razão simples: não precisavam enfrentar competição externa. E também setores diretamente ligados à oferta interna de commodities, como siderurgia, alimentos, celulose, agronegócio.

Houve uma pequena luz no início do governo Dilma, quando se procedeu a uma redução dos spreads bancários e da taxa Selic. Por um breve momento, imaginou-se que a enorme acumulação financeira do período seria direcionada para a infraestrutura. Houve movimentos nítidos, também, do setor bancário, passando a disputar contas de pequenos clientes, na presunção de que teria chegado ao fim o período dos grandes spreads.

Durou pouco o sonho. Era uma cirurgia extremamente complexa, que exigiria pacto com a produção, ampliação dos canais de participação da sociedade, visando enfrentar a pesada resistência que surgiria. Era muita areia para a pouca experiência política de Dilma e para sua tendência às decisões individuais.

Esta foi a vulnerabilidade central do governo Lula. Legou uma obra social histórica, com as políticas de inclusão social. Dentro de sua estratégia de minimizar áreas de atrito – em um país visceralmente preconceituoso – cedeu demais ao mercado. Nao fosse a crise de 2008, certamente o país teria sido levado a uma sinuca, com a valorização do câmbio no período e a degradação das contas externas.

Deus ajudou uma vez. Na crise seguinte, pulou fora.

O grande desafio do pós-Bolsonarismo será encontrar a rota perdida do desenvolvimento social.

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1 comentário

  1. Parabéns, Nassif! Até que enfim, uma crítica ao modelo adotado por todos os governos desde 1999. Senti falta da crítica à estrutura tributária concentradora. Sem mexer nela, não haverá solução de longo prazo. Agora, só falta analisar as propostas concretas de superação dessa estratégia de falência nacional.

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