Um general de Exército brasileiro afirmou, em publicação acadêmica lançada nos Estados Unidos, que a alta liderança militar pode exercer influência direta e decisiva sobre os rumos institucionais, políticos e estruturais do Estado nacional. A declaração, registrada em livro vinculado ao Colégio Interamericano de Defesa, reacende o debate sobre a relação entre poder militar e democracia no Brasil.
O autor é o general de Exército André Luís Novaes Miranda, ex-integrante do Alto Comando do Exército e comandante de Operações Terrestres até abril de 2025. O texto integra a obra “Problemas hemisféricos requieren soluciones hemisféricas – O Colégio Interamericano de Defesa e a Formação do Líder Estratégico”, publicada em 2022 em comemoração aos 60 anos da instituição, subordinada à Organização dos Estados Americanos (OEA).
No artigo, o general sustenta que, ao alcançar o nível estratégico da carreira, o oficial deixa de atuar apenas como executor de decisões para se tornar um agente capaz de moldar escolhas de médio e longo prazo, com impactos que extrapolam o ambiente militar e alcançam o próprio Estado. Segundo ele, a chamada “liderança estratégica” permite aos generais influenciar outras organizações civis e militares, definir prioridades nacionais, orientar a alocação de recursos e projetar o futuro institucional do país.
“No nível estratégico, o líder exerce influência na sua e em outras organizações, congêneres ou não, e no próprio Estado nacional”, afirma o general no texto.
Decisões do Estado
O artigo distingue os níveis tático, operacional e estratégico da liderança militar. Enquanto os dois primeiros se concentram na execução de missões e no emprego direto das tropas, o nível estratégico envolveria decisões estruturais, de longo prazo, capazes de redefinir a cultura institucional das Forças Armadas e sua posição dentro do Estado brasileiro.
Entre as atribuições desse nível estariam a definição da visão de futuro da Força, a formulação de diretrizes gerais, a reorganização institucional e a definição de programas estratégicos e prioridades orçamentárias. Para o general, tais decisões produzem efeitos que podem se estender por mais de cinco anos, influenciando a capacidade do Estado de responder a crises, interpretar ameaças e organizar sua defesa.
Um conceito central apresentado é o de “estado final desejado”, segundo o qual o líder estratégico deve projetar com clareza onde a instituição — e, indiretamente, o país — deve chegar. Essa atuação envolveria não apenas comando hierárquico, mas também persuasão, articulação interinstitucional e coordenação com estruturas civis, militares e internacionais.
Contexto político e reação de especialistas
A divulgação do conteúdo ganhou peso político por ocorrer em um momento sensível da vida institucional brasileira, marcado pela condenação, pelo Supremo Tribunal Federal, de oficiais-generais de alta patente envolvidos na tentativa de golpe de Estado associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, um militar reformado.
Especialistas em direito constitucional e ciência política alertam que, em regimes democráticos, as Forças Armadas são subordinadas ao poder civil eleito e não possuem legitimidade para definir rumos políticos do Estado. Para esses analistas, declarações que sugerem protagonismo militar na definição do futuro nacional reforçam uma cultura institucional de tutela sobre o poder civil, historicamente associada a rupturas democráticas no Brasil, como o regime autoritário de 1964 a 1985.
Ainda que apresentada sob linguagem acadêmica e estratégica, a tese exposta pelo general explicita uma visão ampliada do papel das Forças Armadas, incompatível com os limites estabelecidos pela Constituição.
O papel constitucional das Forças Armadas
A Constituição Federal define as Forças Armadas como instituições permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República. Sua atuação se restringe à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.
Não há, no texto constitucional, qualquer previsão de tutela militar sobre o poder político ou de protagonismo das Forças Armadas na definição dos rumos do Estado.
Formação estratégica e influência internacional
O fato de o artigo ter sido produzido no âmbito do Colégio Interamericano de Defesa, sediado nos Estados Unidos, também gerou críticas. Parte da comunidade acadêmica e da opinião pública aponta que a formação estratégica dos quadros superiores das Forças Armadas brasileiras permanece fortemente ancorada em estruturas norte-americanas, o que poderia influenciar visões de mundo, percepções de ameaça e prioridades institucionais.
Críticos observam que, embora documentos oficiais mencionem autonomia estratégica e protagonismo regional, a doutrina ensinada nesses centros internacionais tende a produzir efeitos duradouros que se projetam além dos quartéis e alcançam o núcleo das decisões do Estado brasileiro.
Ao defender que líderes militares estratégicos influenciam diretamente o Estado nacional, o general André Luís Novaes Miranda descreve não apenas um conceito doutrinário, mas uma dinâmica real de poder que ajuda a explicar por que a democracia brasileira segue vulnerável a ciclos recorrentes de instabilidade, intervenções e ameaças autoritárias.
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Fabio de Oliveira Ribeiro
19 de janeiro de 2026 2:45 pmMais um bolsoterrorista fornecendo prova de insubordinação militar contra si mesmo. Esse vagabundo tem que ser expulso do Exército brasileiro. Se gosta tanto dos EUA ele que vá ser general no US Army. Mas duvido que ele consiga esse cargo lá.
emerson57
19 de janeiro de 2026 7:47 pmO indivíduo tem certeza que o seu voto vale mais do que o quem trabalha.
Desde a proclamação da República e antes disso, muito dinheiro gasto à toa.
De costas para a Pátria e de quatro para os gringos!
Raul Jungmann
19 de janeiro de 2026 8:38 pmE pensar que nós pagamos as despesas desse “çábio” nos EUA para financiar a criação desse bestialógico estudo(?).
ULISSES
20 de janeiro de 2026 6:23 amVimos as decisões tomadas no governo passado. São tão incompetentes para assuntos militares como políticos.