4 de junho de 2026

O Judiciário é a verdadeira fonte da crise

Os conflitos que Gilmar Mendes teve com Marco Aurélio de Mello, as discussões pouco edificantes entre ele e Joaquim Barbosa e a curiosa expressão facial que ele faz quando é derrotado em votações que interessam ao PSDB são fatos notórios. Tudo isto ajudaria a traçar um perfil psicológico de Gilmar Mendes. Ele parece ser autoritário, tanto que se torna grosseiro quando desafiado. Ao confrontar os argumentos de seus pares, quando é voto vencido, ele raramente preserva o decoro. Várias vezes ele deixou transparecer algo que pode ser descrito como “complexo de superioridade”, mas não sabemos se isto deriva ou não de uma “sensação de inferioridade”.

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Desde que chegou ao STF, Gilmar Mendes tem se comportado como se ele fosse a única fonte de legitimidade jurídica no Brasil. Luis XIV, rei absoluto numa sociedade que tolerava o absolutismo monárquico, proclamava “L’État c’est moi”. Num contexto republicano e democrático é anacrônica a pretensão de qualquer Ministro do STF de dizer “La justice suprême c’est moi”Desgraçadamente, porém, não temos um Senado capaz de exercer a competência lhe atribuída pela CF/88:

“Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal:

II processar e julgar os Ministros do Supremo Tribunal Federal, os membros do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público, o Procurador-Geral da República e o Advogado-Geral da União nos crimes de responsabilidade;”

Os abusos de Gilmar Mendes no STF agora se propagam ao TSE, tribunal que ele passou a presidir há algum tempo. Em 06/08/2016 foi divulgada notícia de que ele pretende cassar o registro do PT http://oglobo.globo.com/brasil/presidente-do-tse-pede-cassacao-de-registro-do-pt-19868862. A reação do partido de Lula foi imediata http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2016-08-07/pt-repudia-decisao-de-gilmar-mendes-de-pedir-cassacao-do-registro-do-partido.html.

A decisão tomada por Gilmar Mendes parece encontrar fundamento na legislação eleitoral, mas é evidente sua natureza autoritária, discriminatória e anti-democrática. Vários outros partidos, inclusive o PMDB (de Michel Temer, com quem Gilmar Mendes se reúne por razões que ignoramos), o DEM (de ACM Neto, com quem ele se encontrou pessoalmente algumas vezes) e o PSDB (de José Serra, FHC, Aécio Neves, Anastasia e Aloysio Nunes, protegidos ativamente pelo atual presidente do TSE), também receberam propina oriunda da Petrobras. Todavia, Gilmar Mendes não ameaçou os registros destes partidos corruptos que não combatiam a corrupção como o PT. Em razão disto, ficamos com a impressão que o PT se tornou alvo justamente por causa de suas virtudes.

Porque os desvios criminosos dos outros partidos não incomodam Gilmar Mendes? Esta é uma pergunta difícil de responder. Quem acusar ele abertamente de corrupção corre o risco de ser condenado como a Carta Capital http://jota.uol.com.br/stj-condena-carta-capital-a-indenizar-escola-de-gilmar-mendes-em-r-90-mil. Todavia, o fato de que o nome dele está na Lista de Furnas é notório http://cartacampinas.com.br/2016/03/denuncia-contra-aecio-em-furnas-envolve-tambem-o-ministro-gilmar-mendes/. A autenticidade desta Lista foi contestada, de forma que a dúvida beneficiar o presidente do TSE.

A dúvida que favorece Gilmar Mendes também deveria beneficiar as outras pessoas, mas isto não vem ao caso. Lula, Dilma Rousseff e José Dirceu nunca receberam da imprensa e da Justiça o mesmo tratamento que foi dado ao presidente do TSE. Ao reforçar a distinção entre os petistas e os “cidadãos mais iguais”, o Judiciário brasileiro se coloca no centro da crise institucional. Afinal, a CF/88 prescreve que todos são iguais perante a Lei (art. 5º, caput), não sendo razoável a aplicação da mesma lei de forma diferente a pessoas que deveriam ser tratadas de forma igual.

É a desigualdade de tratamento dada a Gilmar Mendes pela Justiça que o faz agir como se ele pudesse enunciar a frase  “La justice suprême c’est moi”. É também esta distinção que o autoriza a imaginar ter poder para tratar de forma diferente o trio mal-cheiroso PMDB/DEM/PSDB e o PT. A ilegalidade evidente desta forma pouco civilizada de aplicar a CF/88 está destruindo a democracia brasileira. E em algum momento todos nós teremos que pagar a conta de uma guerra civil que destruirá o país e o próprio Judiciário. Não lamentarei a destruição do último, pois há séculos a (in)Justiça brasileira já deveria ter sido destruída e reconstruída em bases republicanas.  

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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