Policiais militares que integravam a Rota, tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, deixaram a unidade para trabalhar na segurança de empresários ligados à Transwolff, empresa de transporte coletivo investigada por supostas conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A informação consta de denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
Segundo a acusação, os agentes não se limitavam à proteção dos empresários e à vigilância das garagens da empresa. Eles também teriam sido utilizados em tarefas particulares dos executivos, como buscar a babá do filho de um dos dirigentes e transportar duas crianças que estudavam em uma escola.
Um dos policiais citados na investigação é Alexandre Aleixo Romano Cezário, que na época integrava a Rota. Conforme a denúncia, ele realizou consultas no sistema Muralha Paulista sobre Robson e Gilberto Flares Lopes Pontes, sócios da Transwolff. Durante as buscas, teria identificado que um deles já havia sido preso por tráfico de drogas pela própria Rota.
Depois que vieram à tona as suspeitas de ligação da empresa com o crime organizado, o comando da unidade determinou que os policiais interrompessem a atividade de segurança particular.
Romano, entretanto, teria decidido continuar trabalhando para os empresários. Em uma mensagem citada pelo MP, ele afirmou que, depois de 27 anos de serviço, já não se considerava apto a permanecer na unidade e que havia decidido ficar no trabalho particular.
De acordo com a denúncia, o policial efetivamente solicitou transferência da Rota. Em depoimento, ele teria confirmado que seus superiores apresentaram a opção entre permanecer na unidade ou continuar prestando o serviço particular. Segundo o documento, Romano escolheu deixar a tropa.
Empresários e familiares
O Ministério Público afirma que os policiais envolvidos atuavam na proteção dos dirigentes da Transwolff e de seus familiares, além de fazer a segurança das garagens e recrutar outros agentes para integrar o esquema.
Entre os envolvidos estava o sargento da reserva Nereu Aparecido Alves. Conforme a denúncia, ele era responsável por transportar dinheiro da empresa entre as garagens e a região da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, na Zona Sul de São Paulo, onde os valores seriam posteriormente entregues a um carro-forte.
A atuação dos policiais também teria alcançado a rotina pessoal dos empresários. Segundo o MP, Nereu buscava a babá do filho de Cícero de Oliveira, conhecido como “Té” e apontado como diretor da Transwolff, além de transportar duas crianças da escola.
Para os investigadores, a presença de policiais da Rota também teria sido utilizada para transmitir uma imagem de proteção institucional aos executivos.
Uma declaração atribuída a Cícero e registrada nos autos aponta justamente para essa estratégia: na avaliação do empresário, alguém ligado ao crime não contrataria integrantes da Rota para fazer sua segurança.
O Ministério Público considera que essa aparência de proteção institucional teria sido parte importante do serviço oferecido. Na avaliação dos promotores, a chamada “blindagem reputacional” seria um dos elementos do serviço contratado pelos empresários.
Corregedoria
Durante uma ação realizada em fevereiro deste ano, a Corregedoria da Polícia Militar encontrou uma mala contendo R$ 1,18 milhão em dinheiro vivo na residência de Nereu Aparecido Alves, segundo a denúncia.
O montante estava dividido em 35 maços de cem notas de R$ 200, que somavam R$ 700 mil, e outros 48 maços de cem notas de R$ 100, totalizando R$ 480 mil. O valor permanece depositado judicialmente.
Segundo o Ministério Público, não foram identificados registros bancários, fiscais ou contábeis capazes de comprovar a origem do dinheiro. Por isso, Nereu foi denunciado por lavagem de dinheiro.
Ainda conforme a acusação, o sargento da reserva reconheceu que fazia o transporte de valores da Transwolff entre as garagens e a região da Berrini.
Mensagens obtidas durante a investigação indicariam que ele recebia instruções para separar o chamado “dinheiro dos meninos”, expressão usada para se referir aos pagamentos destinados aos policiais. Nereu também teria distribuído valores aos agentes e recebido uma ordem para realizar um depósito de R$ 29 mil.
O caso faz parte de uma investigação mais ampla do Ministério Público sobre as relações entre integrantes da segurança pública e empresários ligados à Transwolff. Os policiais citados na denúncia são investigados por sua participação no esquema de proteção particular e pelas atividades realizadas em favor dos dirigentes da empresa.
*Com informações do g1.
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