A mídia e o pacto com Bolsonaro, comentário de Rafael Viera

Primeiramente, é preciso entender que a vida social é um pacto. Mesmo durante uma guerra há pactos. Não aceitar pactos seria o mesmo que caminhar para uma derrota ou, em última instância, o extermínio da humanidade.

Por Rafael Viera
comentário no post Xadrez do réquiem da Lava Jato, por Luis Nassif

Pacto, rompimento e repactuação. Quem está disposto a romper para repactuar?

Rei morto, rei posto. Diria o velho ditado. Se a Lava Jato está morta, o pacto que colocou Bolsonaro, Moro e Guedes no poder não está. Apenas se aguardam uma nova pauta para se manterem no poder.

E aí, se entra na análise da conjuntura atual.

Resgatando a ideia de pacto, anteriormente defendida pelo Nassif, tem-se a seguinte situação.
Primeiramente, é preciso entender que a vida social é um pacto. Mesmo durante uma guerra há pactos. Não aceitar pactos seria o mesmo que caminhar para uma derrota ou, em última instância, o extermínio da humanidade.

Daí se deduz que há um pacto vigente hoje no Brasil, como também existia nos vinte anos de ditadura. Portanto, quando se fala em “pacto” está na verdade se falando numa repactuação. Ou melhor, na necessidade de primeiro romper o pacto atual para depois construir outro em seu lugar. É disso que se trata.

E aí, creio que alguns analistas confundem o que se poderia chamar de essência “político-econômica” com aparência “retórico – política”. Explico. Começando pela grande mídia, composta por duas famílias (Marinho e Frias) e por bancos de investimentos (Estadão e Abril). Alguns analistas dizem que a grande mídia está rompida com o atual governo – “estão em guerra”.

Ora, mas se eles exaltam o Pibinho do Guedes e defendem escancaradamente sua política de reformas, arrocho e privatizações e, além disso, apoiam o deus Moro (conforme este Xadrez do Nassif), como poderiam estar em guerra com o governo? Em outras palavras, se grande mídia sustenta os dois principais pilares do governo, como estaria rompida com o pacto que o elegeu – ou teria outra forma de definir “em guerra”, se não rompimento?

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Por isso, disse-se tratar de um rompimento apenas aparente. Logo, se a grande mídia não rompeu com o governo, ela permanece fiel ao pacto que lhe deu origem. E aqui poderia se acrescentar que a classe média, o empresariado e o mercado financeiro também não romperam.

E qual é a essência desse grande pacto “político-econômico” (Moro-Guedes)?

Concentração econômica com repressão social.

Essa é a essência do pacto que permanece vigente no Brasil atual.

E aí vem a pergunta. Alguns dos atores sociais acima relacionados estarão dispostos a romper o pacto para construir outro?

Pelo que se depreende da análise do Nassif, a Globo certamente não. E eu acrescentaria, que o mercado financeiro também não. Ao contrário, seus agentes estão gelando os champanhes para comemorar os lucros recordes do ano passou.
E o povo?
Que comam brioches. Se não quiserem, a polícia e o exército estão aí, justamente, para isso, ou seja, colocar o “zé povinho” no seu devido lugar.
– Mas, são milhões… Dirão os mais lúcidos.
– Keep calm and drink gin. Dirá o sábio Janot.

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3 comentários

  1. ESTE COMENTÁRIO DO RAFAEL VIEIRA, E O MAIS LUCIDO QUE EU LI EM 2 ANOS. NEM GLOBO NEM BANCOS NEM A CLASSE ALTA ESTÃO DESCONTENTES COMO OS BOLAROS….. ALIAS ESCOLHERAM UM FANFARRÃO DO TIPO DE ATUAL PRESIDENTE, DE PROPOSITO E DE CAUSA PENSADA, E UNICA INTENÇÃO DELES, GLOBO,ESTADÃO, E BANCOS ERA ESSA MESMO, SEM TIRAR NEM POR, DESORGANIZAR PARA GOVERNAR SO ISSO E NINGUÉM AINDA TINHA PERCEBIDO, BOLSONARO NÃO E DE DIREITA NEM DE ESQUERDA, BOLSONARO E UM IDIOTA UTIL, QUE FAZ SEM SABER( PORQUE ELE NÃO PENSSA) O JOGO DOS GRANDES.
    NINGUEM QUER VER UM BRASIL ORGANIZADO, SE GANHA MAIS DINHEIRO E SE E IMPUNE COM UM BRASIL BAGUNÇADO.

  2. Nassif: lembrei gorinha do kummunista Sêneca — “amizade (pacto) só existe entre os bons; entre os maus, só há cumplicidade”. Parece ser esse o problema, por todo território nacional, onde aflore política. Millôr (será que era kummunista?) até dizia que na classe não havia culpados, porque todos eram cúmplices. E prá arrematar, como adoram os VerdeSauvas, lembrei do kummunista ZéRemalho — “Êh, ô, ô, vida de gado / Povo marcado / Êh, povo feliz!”. (disponível no youtube).

  3. Desde o momento em que ministros do STF vieram a público afirmar que as instituições funcionam normalmente, a despeito das flagrantes evidências das transgressões cometidas por agentes públicos (PF, PGR, MPF, MPEs, etc.), e que a democracia está consolidada no Brasil (faltando apenas dizer que isso não se aplica a negros, mulheres, pobres, indígenas, quilombolas, LGBT+, etc.), o discurso substituiu a realidade. Isso equivale a dizer que, feitos os ajustes necessários a um discurso compatível com os interesses hegemônicos – mercado financeiro, mídia, federações empresariais, corporações públicas – e que inclua reprimendas circunstanciais ao núcleo bolsonarista no poder, o Brasil trilha uma via de prosperidade que logo será alcançada, pois está logo ali, na próxima curva da História.
    Esse novo normal se consolidou após 2016, ainda que seus antecedentes remontassem ao processo judicial que ficou conhecido como Mensalão.
    Com todo o desmonte do poder de intervenção do Estado para cumprir a sua função essencial, que é a de promover a melhoria das condições de vida para toda a população do país, e que vimos assistindo desde 2015 (quando Levy fez as maldades que viriam a desestabilizar a gestão da Presidente Dilma Roussef), todo esse discurso em torno da normalidade democrática e do funcionamento das instituições se transformou em um mantra.
    A verdade é que vivemos uma política de aparências perigosas, e a função do discurso hegemônico nesse novo normal da política no Brasil é ocultar as contradições que vão se acirrando cada vez mais, à medida que as organizações criminosas vão se apoderando do espaço que deveria ser das instituições públicas e exercendo as funções que seriam do Estado. Por sua vez, as corporações que operam sem limite ou controle externo, especialmente no Poder Judiciário, MP, PF, etc. atuam continuamente para a manutenção de seus privilégios, à custa da perda da respeitabilidade perante a população.
    Diante da grande farsa, que subsiste muito em função da apatia ou alienação da parcela da população mais prejudicada pelo neoliberalismo religioso que se apoderou da administração pública no Brasil, não haverá nenhuma ruptura, nenhum enfrentamento ou revolta que desafie os interesses hegemônicos.
    A ruptura vai ocorrer a partir do momento em que as contradições do capitalismo internacional deflagrarem uma nova crise financeira em escala planetária, nos moldes de 2008, talvez pior, já que o poder de intervenção das autoridades monetárias foi substancialmente reduzido nos últimos anos… Somente nessa circunstância haverá a possibilidade de uma ruptura do pacto que reúne os grandes interesses no Brasil. Sem estatais, com a independência (leia-se subordinação ao mercado financeiro) do Banco Central, em um ambiente de estagnação do consumo, baixos salários e arrecadação em queda, não há santo milagreiro que evite um tsunami nesse país e haverá, então, condições para uma ruptura.
    Vale lembrar que uma nova crise econômica de escala mundial pode ser fatal para um dos setores essenciais ao clã Bolsonaro. São os líderes evangélicos identificado com a Teologia da Prosperidade, que é altamente dependente da parcela da população mais empobrecida nos últimos anos, aquela que semanalmente doa valores em dinheiro para as igrejas, na esperança de uma vida melhor. Esse modelo de exploração já mostra um esgotamento, à medida que se observa um esvaziamento dos cultos. Em várias localidades ocorre o fechamento de igrejas em razão da insuficiência das doações.
    Por fim, ainda que seja importante destacar a resistência de parcelas da sociedade organizada em torno de pautas em defesa da cidadania, esses movimentos ainda não alcançaram massa crítica a ponto de se constituir em um interlocutor com os interesses hegemônicos.

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