Mesmo que não tenha sido por falta de avisos, afinal, desde a campanha eleitoral, o recém empossado presidente Javier Milei desfilava com uma motosserra como símbolo de seus planos para a Argentina, as dez medidas anunciadas pelo ministro da Economia, Luis Caputo, na última terça-feira (12), seguem mobilizando a sociedade argentina.
O chamado Plano Motosserra afeta praticamente o setor público, o que faz com que analistas façam o prognóstico de que a gestão Milei deverá ser de grande transferência de renda dos trabalhadores e aposentados para os mais ricos.
Um dia depois do anúncio do severo ajuste com o qual o governo de extrema-direita pretende evitar a hiperinflação, que inclui, entre outras providências, uma desvalorização de mais de 50% do peso e a eliminação dos subsídios aos transportes e à energia, proliferam as críticas entre a oposição, o setores mais progressistas e até mesmo dos setores mais conservadores.
Conforme o Pagina 12, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), que reúne os sindicatos peronistas e apoiou a candidatura de Sergio Massa nas eleições, reuniu-se de urgência nesta quarta-feira (13) para analisar as medidas.
Em dura declaração divulgada pela mídia argentina, a CGT afirma que “o ajuste fiscal e cambial de Milei pune o povo e não a casta política”, que o presidente acusa de ser a causa de todos os males econômicos da Argentina, e alertou que não permanecerá “à toa”.
Para o ano que vem, sindicatos e demais movimentos sociais deverão iniciar uma jornada de protestos e greves. Logo após a vitória de Milei, os primeiros atos públicos contra o líder do A Liberdade Avança foram registrados, sobretudo relacionados ao negacionismo de integrantes do atual governo com relação aos crimes da Ditadura Militar (1976-1983).
Processo inflacionário
Conforme a CGT, o plano “vai gerar uma forte aceleração do processo inflacionário, que vai dinamizar o poder de compra dos salários dos trabalhadores”.
Um dos dirigentes da CGT, Gerardo Martínez, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção (Uocra), alertou ao Pagina 12 que o pacote de emergência econômica “é um tsunami total socialmente e algo semelhante nos aspectos financeiros e econômicos para o país”.
Outra que reagiu mais duramente foi a Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE), de acordo com texto da Agência RT. “Com estas medidas, o Governo está a levar-nos ao pior inferno em poucas semanas”, avaliou Rodolfo Aguiar, secretário-geral da ATE.
Não ao “congelamento salarial”
O sindicato se reunirá nesta quinta-feira (14) para analisar uma possível resposta à previsão de demissões massivas na administração pública.
A forte desvalorização “baseada numa observação indiscriminada e generalizada de preços nas últimas semanas é uma verdadeira agressão aos trabalhadores e reformados”, afirmou Aguiar no texto da RT.
E alertou que “um país nestes trilhos é insustentável sem subsídios para transportes, tarifas e energia” e que o seu sindicato não aceitará “um congelamento salarial”.
Setores liberais criticam governo
O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, ex-ministro da Economia kirchnerista, alertou que as medidas afetam especialmente os argentinos comuns e rejeitou a “retirada de recursos” destinados às províncias.
“O presidente Javier Milei havia dito que o ajuste não iria recair sobre o povo, mas as medidas anunciadas afetam os trabalhadores, aposentados, crianças, empresas e pequenos produtores”, afirmou.
O economista e ex-presidente do Banco Central, Carlos Melconian, que ocupou o cargo durante o mandato do direitista Mauricio Macri, criticou o plano montado “na hora” para veículos de imprensa na Argentina, com repercussão pela Agência RT.
“Além de buscar o equilíbrio fiscal, primeiro primário e depois financeiro, a motosserra foi trocada pelo liquidificador. A questão central do que foi anunciado até agora é até onde vai a inflação, até onde vai a recessão”, disse.
Melconian disse também que o governo deveria ter anunciado algo em relação aos salários para aliviar os efeitos do Plano Motosserra sobre os trabalhadores, que verão o seu poder de compra bastante reduzido com a recuperação inflacionária que se avizinha nos próximos meses.
Com informações do jornal Pagina 12, Agência RT e TeleSur
LEIA MAIS:
Deixe um comentário