5 de junho de 2026

A Revolução Cultural da velharada, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Apesar de ter demonstrado grande ódio contra os chineses desde que assumiu, Jair Bolsonaro parece ter incorporado o espírito de Mao Zedong. 

A Revolução Cultural da velharada

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Como que do nada as hordas de militantes com cartazes de se reúnem nas ruas gritando palavras de ordem, cultuando a imagem de seu líder, humilhando publicamente seus adversários políticos, exigindo o apoio do Exército e tentando impor sua revolução cultural ao conjunto da população. De quando em vez eles se tornam violentos, destroem patrimônio público e privado, agridem pessoas indefesas e até cometem assassinatos por razões políticas.

Não, eu não me referi à China em 1968 e sim ao Brasil pós-eleições de 2022. Apesar de ter demonstrado grande ódio contra os chineses desde que assumiu a presidência, Jair Bolsonaro parece ter incorporado o espírito de Mao Zedong. 

A velharada que marcha nas ruas em defesa da intervenção militar imita deliberadamente os estudantes radicalizados pelo líder comunista chinês. Os danos que esses baderneiros, arruaceiros e terroristas de verde e amarelo podem causar à economia do nosso país é, sem dúvida alguma, semelhante ao estrago que a “grande desordem na terra” provocou à China.

Quando idealizou e colocou nas ruas a Revolução Cultural, Mao Zedong queria impedir o surgimento de um Nikita Khrushchov chinês. Ao dividir a sociedade chinesa e desorganizar completamente o campo político, Mao criou uma anarquia e a utilizou para reforçar sua posição, expurgar o Partido Comunista Chinês de seus inimigos e ameaçar adversários em potencial. Nem mesmo o Exército de Libertação Popular foi poupado pelos guardas vermelhos.

Ardiloso, Mao Zedong deu o comando da Revolução Cultural à esposa (Jiang Qing) e a alguns homens de sua confiança. Mesmo sabendo que Zhou Enlai não era um entusiasta do movimento, ele exigiu que o premiê participasse do comando do mesmo. Assim, o líder chinês poderia ficar atrás das cortinas conduzindo o espetáculo político e manipulando os dois grupos, ora apoiando a esposa radicalizada ora utilizando Zhou Enlai para conter o ímpeto dela.

Os danos causados à China pela Revolução Cultural foram minimizados pela atuação firme, equilibrada e consistente do premiê chinês.

“Zhou Enlai conduziu uma reunião do Comitê Permanente do Politburo no Salão da Benevolência e da Longevidade em 11 de fevereiro de 1967, em meio a um turbilhão de atividades por parte da liderança central para cooperar com a crescente crise gerada pelo enorme caos da Revolução Cultural. Ele queria discutir formas de manter a economia ajustada para equilibrar essa área com os objetivos políticos da Revolução Cultural. Os marechais, no entanto, aproveitaram a ocasião para atacar os esquerdistas. Eles foram incentivados pelas críticas mordazes de Mao a Jiang Qing e Chen Boda, chefe titular do Grupo Central da Revolução Cultural. O marechal Ye Jianying, primeiro a falar, repreendeu Chen Boda. ‘Você fez uma bagunça no partido’, gritou o marechal Ye. ‘Você fez uma bagunça no governo, uma bagunça nas fábricas e uma bagunça na zona rural. E ainda não está satisfeito. Agora, quer fazer uma bagunça no exército também.’ O marechal Xu Xiangqian falou em seguida, ‘O que você quer?’, perguntou a Chen Boda. Ele bateu na mesa. ‘O exército é um pilar da ditadura do proletariado, mas do jeito que você está tornando tudo uma bagunça, é como se você não quisesse esse pilar. Você está querendo dizer que não vale a pena manter nenhum de nós?’ Xu mencionou o notório líder rebelde revolucionário Kuai Dafu, da Universidade de Tsinghua, e perguntou diretamente a Chen Boda: ‘Você quer que pessoas como Kuai Dafu comandem o exército?’ (Zhou Enlai – o último revolucionário perfeito, Gao Wenqian, Record, Rio de Janeiro, 2011, p. 187)

No Brasil, a velharada radicalizada nas ruas é discretamente apoiada por generais bolsonaristas. Ao instigar os acampamentos nas portas dos Quartéis eles tentam desencadear uma bagunça no Exército, forçando oficiais da ativa a se dividirem em dois grupos: os baderneiros, arruaceiros e terroristas bolsonaristas e os adversários deles. Eles criam um problema para o novo governo, que será obrigado a tomar providências para normalizar a situação.

Na China, a “grande desordem na terra” não foi apoiada pelos principais líderes militares. Eles se colocaram ao lado de Zhou Enlai e isso foi um fator importante para que a Revolução Cultural não saísse do controle. Aqui, os comandantes militares da anarquia verde e amarela não têm compromisso nenhum com a estabilidade política ou com o crescimento econômico do Brasil. O que eles querem é transformar a Revolução Cultural da velharada num terceiro turno e, quem sabe, utilizá-la para derrubar Lula e desdemocratizar o país.

Ao que parece não existe no campo militar nenhum comandante capaz de enfiar o dedo no nariz dos generais golpistas e dizer-lhes o que o marechal Ye Jianying disse a Chen Boda: ‘Você fez uma bagunça no governo, uma bagunça nas fábricas e uma bagunça na zona rural. E ainda não está satisfeito. Agora, quer fazer uma bagunça no exército também.’ Quem dirá ao general Villas Boas: ‘Você quer que pessoas como Eduardo Bolsonaro comandem o exército?

Suponho que os especialistas em economistas de esquerda devem começar a acordar e a se movimentar. Eles precisam começar a comparar os danos econômicos causados pela Revolução Cultural à China aos estragos que a Revolução Cultural da velharada bolsonarista já causou e ainda pode causar ao Brasil. Os banqueiros e grandes empresários ficarão satisfeitos se o movimento apoiado pelo general Villas Boas estraçalhar de vez o que restou da economia brasileira?

Se algo não for feito para enquadrar e responsabilizar Bolsonaro e os generais bolsonaristas pelo clima de caos que eles estão estimulando, daqui a algumas décadas os historiadores dirão que “Gangues de rebeldes revolucionários ainda perambulavam por muitas partes do país como matilhas de cães selvagens, completamente fora do controle de qualquer autoridade.” (Zhou Enlai – o último revolucionário perfeito, Gao Wenqian, Record, Rio de Janeiro, 2011, p. 212). A Revolução Cultural da velharada brasileira deve ser abortada e isso só ocorrerá quando os arruaceiros começarem a ver seus líderes sentadinhos no bando dos réus. Quando for levado para depor em juízo, o general Villas Boas poderá ficar sentado na sua cadeira de rodas.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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