20 de maio de 2026

Bolsonaro já era, agora quem coloca a democracia em risco é Michel Temer, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Temer aceitou ser advogado da empresa que é proprietária do mais potente motor da desinformação e da radicalização em massa
Wilson Dias - Agência Brasil

Bolsonaro já era, agora quem coloca a democracia em risco é Michel Temer

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

No mesmo dia que o TSE decretou a inelegibilidade de Jair Bolsonaro uma notícia me chamou atenção: a contratação de Michel Temer pelo Google para defender os interesses dele em face da proposta de regulação das plataformas de internet.  Essas duas questões estão interligadas.

Ao proferir seu voto na AIJE 0600814-85, o Ministro que relatou o caso no TSE mencionou de maneira específica as lives feitas pelo ex-presidente atacando o sistema eleitoral que foram veiculadas tanto no Facebook quanto no YouTube. Portanto, é evidente que o Google (que é proprietário do YouTube) ajudou Bolsonaro a impulsionar Fake News e lucrou muito dinheiro fazendo isso. Mas a empresa (agora representada por Michel Temer) se recusa a aceitar qualquer tipo de regulação. O Google chegou a fazer campanha contra o PL que está tramitando no Congresso Nacional, fato que levou o MPF a tomar providências.

A condenação de Jair Bolsonaro foi absolutamente justa. Ele não usou a infraestrutura da presidência para se reunir com diplomatas a fim de debater uma questão de política externa. Os ataques sistemáticos às urnas eleitorais e ao TSE faziam parte de sua estratégia eleitoral. Não só isso: destruir a credibilidade das instituições democráticas era indispensável durante a construção de um cenário político favorável ao golpe de estado que fracassou.

Bolsonaro jogou de maneira ilegal e perdeu. Agora ele terá que arcar com as consequências. Se insistir em atacar a democracia ele poderá ser tratado como terrorista. Mas essa não é a questão mais importante aqui.

A imensa crise política criada pelo ex-presidente não teria se tornado realidade sem a colaboração ativa das redes antissociais. Os algoritmos do Facebook, Twitter, Google e YouTube foram projetados para impulsionar conteúdos que produzem maior engajamento emocional. Os estragos políticos e humanitários que essas empresas já produziram ao redor do mundo foram bem documentados por Max Fisher no livro “A máquina do caos”.

“ ‘O YouTube é a pauta mais desprezada de 2016’ tuitou Zeynep Tufekci, socióloga da Universidade da Carolina do Sul, um ano após as eleições. ‘Seus algoritmos de busca e recomendação são motores da desinformação.’ Mais tarde ela o chamou de ‘um dos instrumentos mais potentes de radicalização do século XXI’. Danah Boyd, fundadora de um think tank focado em tecnologia, concordou e disse para minha colega Amanda: ‘O YouTube pode ser a plataforma mais preocupante do momento’” (A Máquina do Caos, Max Fisher, editora Todavia, São Paulo, 2023, p. 268/269)

Para ilustrar os efeitos deletérios do produto do Google, Fisher narra o episódio que ocorreu numa cidade alemã que se tornou vítima da histeria em massa provocada por uma notícia falsa divulgada no YouTube que foi reforçada, aumentada e amplificada por outros vídeos que passaram a ser sistematicamente sugeridos aos usuários daquela plataforma.

“Na Alemanha, contudo, os tumultuadores de Chemnitz eram novidade. É certo que havia neonazistas calejados na multidão, mas muitos não faziam parte de nenhuma causa ou grupo específico. O YoutUbe, em vez de provocar uma comunidade preexistente com uma identidade preexistente, criara uma do nada. Havia construído a rede dentro dos seus sistemas, montando-a a partir de sua realidade e crenças em comum, e depois a soltara no mundo. Em questão de dias. Era algo mais profundo do que a violência vigilantista de inspiração facebookiana que eu vira no país meses antes.” (A Máquina do Caos, Max Fisher, editora Todavia, São Paulo, 2023, p. 264)

As Big Techs norte-americanas estão obtendo lucro ao amplificar o potencial destrutivo dos discursos de ódio, das teorias da conspiração e das Fake News. Elas são responsáveis por episódios gravíssimos de violência letal em massa que ocorreram em Mianmar e no Sri Lanka. No Brasil não foi diferente, mas felizmente o Exército se recusou a embarcar na aventura golpista. Distúrbios sociais semelhantes estão ocorrendo nesse exato momento na França, mas Emmanuel Macron se recusa a levantar derrubar as redes antissociais que incendiaram Paris.

Michel Temer tem todo direito de ganhar dinheiro para defender os interesses do Google. Mas isso não significa que ele esteja colaborando para o fortalecimento da nossa democracia. Ao contrário, o descompromisso de Temer com o sistema político brasileiro ficou evidenciado quando ele mesmo usou o poder das redes antissociais para divulgar aquela famigerada carta que ajudou a criar o clima que levou ao golpe de estado disfarçado de Impeachment.

O agora inelegível Jair Bolsonaro foi o maior beneficiário político da derrubada de Dilma Rousseff. Portanto, podemos dizer com alguma segurança que Michel Temer deu o pontapé inicial na partida bolsonarista encerrada pelo TSE. O defensor do Google é um coautor distante tanto no genocídio pandêmico quanto na intentona terrorista de 08 de janeiro de 2023. Como Bolsonaro, Michel Temer também ajudou a desdemocratizar o Brasil utilizando o poder político incontrolável desfrutado pela empresa que o contratou.

Ao aceitar ser advogado da empresa que é proprietária do mais potente motor da desinformação e da radicalização em massa que será inevitavelmente afetada pela aprovação do PL das Fake News, Michel Temer agiu de maneira coerente com sua ideologia nefasta. Ele embolsará uma pequena fortuna para preservar as condições que possibilitariam a retomada do projeto de desertificação do real patrocinado pelas Big Techs norte-americanas no Brasil. Isso é realmente lamentável.

Nesse momento, é preciso esquecer Jair Bolsonaro (ele é carta fora do baralho) e concentrar todos os esforços no apoio à aprovação do PL das Fake News. O sucesso de Michel Temer como defensor do Google representaria um sério golpe contra o sistema político brasileiro.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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2 Comentários
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  1. emerson57

    3 de julho de 2023 9:07 am

    MIÇHEL?
    mas,
    ele não está preso num túmulo na Transilvânia?

  2. Idiocracia

    3 de julho de 2023 7:25 pm

    Faz todo sentido essa escolha bigtech de Temer para defender seus direitos e interesses. Como eu torço pela soberania brasileira espero que essa parceria cliente advogado seja eterna enquanto dure.
    Penso até que foi a IA deles que recomendou a escolha.

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