8 de setembro de 2026

Dez anos do golpe de 2016: por que a esquerda abraçou as instituições e esqueceu a própria história, por Francisco Ladeira

E uma série de retrocessos, com destaque para a perda de direitos sociais e a emergência da extrema direita, simbolizada pelo bolsonarismo.
Processo de impeachment de Dilma Rousseff - terceiro dia - foto de Marcelo Camargo - Agência Brasil

Completam-se dez anos do golpe de 2016 que derrubou Dilma Rousseff, causando retrocessos sociais e o avanço da extrema direita.
A esquerda foca no golpe de 2023, ignorando o de 2016, e defende instituições que participaram da derrubada de Dilma.
A defesa da democracia pela esquerda é da democracia burguesa, sem crítica às instituições que mantêm a dominação.

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Dez anos do golpe de 2016: por que a esquerda abraçou as instituições e esqueceu a própria história

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por Francisco Fernandes Ladeira

No último dia 31 de agosto, completaram-se dez anos da concretização do golpe de Estado que derrubou a presidenta Dilma Rousseff. Desde então, tivemos uma série de retrocessos, com destaque para a perda de direitos sociais e a emergência da extrema direita, simbolizada pelo bolsonarismo.

Esperava-se que a data trouxesse uma série de reflexões por parte da esquerda, mas passou quase despercebida. Muitos podem argumentar que Bolsonaro já não está mais no poder e o PT voltou ao Planalto. Nessa lógica, o golpe estaria restrito ao passado; uma página virada da história. Mas é fato que todos os retrocessos pós-golpe estão aí, refletindo, por exemplo, na dificuldade de governabilidade de Lula.

A explicação para essa apatia está na abdução da esquerda, levada a acreditar que o “verdadeiro golpe” foi o tentado pelos bolsonaristas, em 8 de janeiro de 2023; e não o feito pela direita tradicional, em 2016. Assim, a maioria da esquerda tem concentrado suas forças contra um golpe que não aconteceu ao invés de denunciar um golpe que foi concretizado. Claro que o bolsonarismo, como a extrema direita em geral, deve ser combatido. Mas esses setores obscuros não teriam saído do esgoto caso não houvesse a guerra híbrida de junho de 2013 e, principalmente, o supracitado golpe de 2016.

Além disso, duas das instâncias que estiveram por trás da derrubada de Dilma – grande mídia e Judiciário – hoje são defendidas pela esquerda. O motivo: ironicamente, por serem alvo da fúria bolsonarista. Assim, não é raro esquerdistas deixarem de criticar Globo e STF com receio de serem taxados como bolsonaristas.

Essa abdução da esquerda também se reflete na “defesa das instituições” e da “democracia”. Mais uma vez, o inimigo é o espantalho da extrema direita. Se havia alguma característica de democracia no Brasil, esta foi destruída pelo golpe de 2016. A defesa em questão é da democracia burguesa. Em tempos em que a esquerda lia Althusser, sabia que as “instituições”, no caso, são aparelhos ideológicos da dominação burguesa. Não devem ser defendidas, mas combatidas.

Tudo isso sem contar que a esquerda perdeu o monopólio da crítica. Temas que historicamente questionava, hoje têm o bolsonarismo como principal crítico, como a ciência, indústria farmacêutica e sistema eleitoral. Por um desses paradoxos da política brasileira, quem se vende como defensora da liberdade de expressão e “antissistema” é a extrema direita – embora saibamos que, na prática, nunca foi.

Até as mobilizações de rua foram tomadas pela extrema direita. Enquanto isso, parcela da esquerda, adepta da cultura do cancelamento, quer resolver todas as suas desavenças no Judiciário. Tudo é motivo para processo e censura. Terceirizou sua atuação. Parece o Fluminense nos anos 90, que resolvia no tapetão todos os seus problemas da má atuação em campo.

Enfim, com essa esquerda apática e domesticada, os verdadeiros donos do poder podem dormir tranquilos, pois o alvo sempre será o bode expiatório bolsonarista.

***

Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMG) – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV)

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