Fim do financiamento, fim da patrulha: a queda do identitarismo
por Francisco Fernandes Ladeira
Na agenda pública nacional, este ano tem sido marcado, entre outras questões, pelas críticas contundentes e necessárias ao chamado identitarismo – ideologia difundida pelo imperialismo estadunidense cujo principal objeto é dividir a classe trabalhadora, sob o pretexto de defender as minorias. Em última instância, trata-se de minar a esquerda por dentro. Além disso, o identitarismo é uma pauta que busca beneficiar somente o indivíduo (no máximo, seus “iguais”) em detrimento do coletivo. Assim, serve como argumento ideal para justificar outra ideologia nefasta, presente na racionalidade neoliberal: a meritocracia. Essa engenharia político-cultural não é acidental.
Desde a Guerra Fria, fundações vinculadas ao establishment estadunidense – como a National Endowment for Democracy (NED) e a Ford Foundation – financiaram movimentos identitários em diversos países periféricos, não por amor à diversidade, mas como estratégia de fragmentação da solidariedade internacionalista que ameaçava os interesses geopolíticos ianques. O que parece uma pauta progressista, na prática, sempre serviu como válvula de escape para canalizar insatisfações sociais para o campo do reconhecimento simbólico, desviando o foco das desigualdades materiais e da exploração de classe.
Paradoxalmente (ou não), o identitarismo é, ao mesmo tempo, vitimista e autoritário. Vitimista porque se aproveita de pautas legítimas de determinadas minorias sociais para se blindar de críticas. Qualquer um que minimamente coloca em xeque suas ideias logo é tachado de homofóbico, racista, misógino, transfóbico ou “homem cis, hétero, branco etc. etc.”. A questão da classe social, evidentemente, jamais é colocada em pauta. O moralismo barato substitui as reivindicações materiais. Não são de se estranhar os motivos pelos quais o povão rejeita o identitarismo.
Por outro lado, o identitarismo é autoritário, pois busca impor certos posicionamentos. Não há espaço para diálogos. Qualquer semelhança com uma nefasta doutrina surgida na Europa no final do século XIX não é mera coincidência. Mas isso é assunto para outro texto.
O que cabe registrar aqui é a ironia histórica: movimentos que se dizem antifascistas recorrem, muitas vezes, a táticas típicas do totalitarismo – a caça às bruxas, a inquisição moral, a exigência de confissão pública e a exclusão do dissidente. A diferença é que, em vez de fogueiras, usam algoritmos; em vez de tribunais eclesiásticos, usam a corte implacável das redes sociais. O resultado prático, porém, é o mesmo: o silenciamento do outro e a tentativa de uniformização do pensamento.
Um dos principais espaços de atuação dos identitários são as redes sociais, por meio da cultura do cancelamento, sua inquisição favorita. Qualquer sujeito que não reze na cartilha do politicamente correto será sumariamente execrado na rede mundial de computadores. Se possível, será banido do Instagram, sofrerá um processo e passará um tempo encarcerado. Uma conhecida deputada federal por São Paulo que o diga. Difícil saber quem busca levar mais pessoas para a cadeia: os identitários ou a extrema direita?
Ambos compartilham o mesmo método punitivista, a mesma aversão ao contraditório e a mesma crença de que o adversário não merece direito à fala. No fundo, a lógica inquisitorial é a mesma, e a classe trabalhadora, mais uma vez, fica assistindo ao circo enquanto seus direitos são desmontados.
Mas essa prática inquisitorial não se aplica somente ao presente. Existe o “cancelamento retroativo”, um dos modus operandi identitários. O alvo da vez é o cantor e compositor João Bosco, especificamente a letra de sua música “Gol Anulado”, parceria com Aldir Blanc, lançada cinco décadas atrás. No entanto, octogenário, com uma carreira consolidada, reconhecida no Brasil e no exterior, João Bosco não precisa mais passar pelo crivo de nenhum tribunal; respondeu à altura e questionou o “identitarismo exagerado”. Essa suposta “patrulha do bem” também foi criticada por outro histórico nome da MPB. Em entrevista ao jornal El País, Caetano Veloso afirmou que vê um excesso de racialização, sexualização e ênfase em gênero no debate político atual.
Por sua vez, o ator Wagner Moura no programa Conversa com Bial da Rede Globo foi direto ao ponto. Ao mencionar as discussões sobre o que pode e o que não pode ser dito e as cobranças sobre a delirante expressão “lugar de fala”, classificou o identitarismo como “fascismo de esquerda”. Só errou ao ter associado o identitarismo à esquerda.
Aliás, há muito tempo o professor Antonio Risério denuncia o caráter fascistóide do identitarismo. Desnecessário dizer sobre a onda de cancelamento à qual Risério foi submetido, principalmente por seus pares na academia, que, receosos de perderem as bolsas oferecidas por órgãos ligados ao imperialismo estadunidense, se calam diante do “autoritarismo do bem”. Estudei na Unicamp e sei bem como esse mecanismo opera. Já fui cancelado por lá e pensei até em incluir esse prêmio em meu currículo.
Não por acaso, Antonio Risério lançou recentemente o livro “Adeus, Identitarismo”, no qual aponta a perda de influência dos movimentos baseados na identidade. Ele afirma que a publicação de artigos críticos ao identitarismo na mídia do Brasil começou depois de se tornar frequente em veículos jornalísticos estadunidenses.
Com a saída dos democratas do poder, a fonte para difundir o identitarismo mundo afora secou. Sem financiamento, sem chances de ir adiante! Isso talvez explique o porquê de figuras públicas ligadas ao progressismo como Caetano Veloso, Wagner Moura, e grupos de comunicação como Globo e El País, estejam pulando do barco furado do identitarismo. Importante frisar que progressismo não é (e nunca foi) necessariamente sinônimo de esquerda. Mas isso também é assunto para outro artigo.
Contudo, este é um ponto que merece ser explicitado: enquanto a esquerda verdadeira – aquela que se alimenta do materialismo histórico – tem como horizonte a superação do capitalismo e a emancipação coletiva da classe trabalhadora, o progressismo liberal é essencialmente reformista e compatível com o neoliberalismo. Ele celebra a diversidade no alto escalão das corporações, mas não questiona a exploração no chão de fábrica. Comemora a mulher CEO, mas não luta pelo fim da dupla jornada de trabalho da operária. O progressismo é, na melhor das hipóteses, a consciência tranquila do capitalismo; na pior, seu mais eficiente escudo moral.
Portanto, o ocaso do identitarismo – impulsionado pelo fim do financiamento democrata e pelas vozes críticas que emergem de dentro do próprio campo progressista – não é uma derrota da causa das minorias. Pelo contrário, é uma oportunidade histórica para recolocar a luta de classes no centro do debate. Mulheres, negros, homossexuais e demais grupos historicamente oprimidos não precisam de tutela moralista nem de cancelamento; precisam de creche, escola integral, salário digno, moradia e saúde pública.
Essas pautas universais não dividem – unem. Justamente porque não se dirigem ao indivíduo abstrato, mas ao trabalhador concreto, independentemente de sua cor, gênero ou orientação sexual. Se o identitarismo realmente está em retirada, que venha a reconstrução de uma esquerda que não tenha medo de falar em classes sociais, que não confunda militância com patrulhamento e que saiba que a verdadeira revolução é, acima de tudo, material.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMG) – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV)
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