5 de junho de 2026

Guerras culturais neoliberais na gringolândia e na botocundia, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A guerra cultural não é capaz de produzir absolutamente nada, exceto a paralisia da sociedade e do sistema político como ocorre nos EUA

Guerras culturais neoliberais na gringolândia e na botocundia

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

A guerra é a continuação da política por outros meios (Carl von Clausewitz). Mao Zedong disse que a política é a guerra sem sangue, assim como a guerra é a política com o uso da violência.

A Política, segundo Hannah Arendt, só pode existir no espaço consensualmente construído por diferentes pessoas para que possam viver em paz. Portanto, ao contrário do que diziam Carl von Clausewitz e Mao Zedong, a violência organizada só pode destruir o espaço em que a política existe.

A cultura pode ser uma continuação da política por outros meios. O oposto também é verdadeiro, pois a política pode eventualmente ser remodelada por movimentos culturais. Mas a guerra cultural não é capaz de produzir absolutamente nada, exceto a paralisia da sociedade e do sistema político como ocorre nos EUA.

Os norte-americanos debatem furiosamente várias questões morais, transformando-as em guerras culturais (algumas delas irrelevantes), mas democratas e republicanos são totalmente dedicados ao contínuo aumento dos gastos militares. Os próprios norte-americanos que trocam tapas nas ruas contra ou a favor do movimento gay não são capazes de questionar o militarismo americano. Ao contrário, nos EUA os gays querem cotas para generais gays em vez de, por exemplo, fechar as bases militares dos EUA na Itália e no Japão.

As guerras culturais são um instrumento para o neoliberalismo se perpetuar sem ser fundamentalmente contestado no cenário político? Eu posso estar enganado, mas pelo que tenho observado a resposta é sim. Elas desestabilizam a arena política da sociedade despolitizada sem destruí-la.

Hannah Arend viu o nascimento das modernas guerras culturais nos EUA e refletiu sobre algumas delas (como a resistência civil politizada à Guerra do Vietnã, por exemplo), mas suponho que ela não gostaria muito de ver o mundo que elas construíram: as intermináveis guerras culturais entre norte-americanos dentro dos EUA é uma condição de possibilidade do estado permanente de guerra dos EUA em todo o mundo. E agora as guerras culturais americanas potencializadas pelas redes sociais ficarão ainda piores por causa da Inteligência Artificial, uma nova tecnologia que certamente será usada para desviar a atenção da população e mantê-la presa em conflitos inúteis e politicamente irrelevantes.

No Brasil, as guerras culturais começaram com a resistência à Ditadura Militar e se intensificaram após a consolidação da redemocratização do país. A melhor expressão delas foi o uso de artistas em campanhas eleitorais presidenciais desde a primeira eleição presidencial direta. Sucessivas vitórias do PT e o recuo do centro político para a direita deram às guerras culturais brasileiras uma nova configuração após as manifestações de rua que impulsionaram a farda do Impeachment de Dilma Rousseff. Naquela época eu mesmo sugeri a adotação de uma estratégia teatral para defender o mandado da presidenta eleita.

Surfando na imensa onda de anti-petismo que a imprensa criou com ajuda da Lava Jato e fortalecido pelo movimento que culminou na derrubada de Dilma Rousseff, o bolsonarismo despontou como um novo capítulo das guerras culturais brasileiras. Mais tóxico, violento e irracional, esse movimento ganhou muita capitalidade em razão da mobilização de pastores evangélicos, bandos de milicianos e grupos de policiais. Em razão do modelo de negócio das plataformas de internet, os algoritmos das redes sociais (que sempre impulsionam mais os conteúdos que geram maior engajamento emocional) ajudaram Bolsonaro a chegar ao poder.

Antes mesmo de tomar posse o novo presidente acirrou a guerra cultural dizendo que o Brasil mudaria sua embaixada israelense para Jerusalém. Assim que recebeu a faixa presidencial, Bolsonaro começou a atar os índios e quilombolas nas suas redes sociais. Ao facilitar o acesso de seus apoiadores a armas de fogo e munição, represar a fiscalização ambiental e incentivar a expansão ilegal da fronteira agrícola o capitão genocida preparou o cenário para os conflitos entre garimpeiros e indígenas que resultaram mortes e devastação ambiental na região amazônica.

Os ataques ideológicos constantes de Jair Bolsonaro contra a China colocaram em risco as exportações brasileiras obrigando as elites a rever suas prioridades políticas. Ironicamente, o próprio bolsonarismo pode ser considerado um rebento tupiniquim da revolução cultural chinesa.

“As nossas instituições estão funcionando”, disse Carmem Lúcia certa feita enquanto era presidenta do STF. A verdade, porém, é que as instituições brasileiras foram impedidas de funcionar antes, durante e depois do golpe de 2016. Isso abriu caminho para o sucesso da pedagogia do assassinato vomitada por Jair Bolsonaro em suas redes sociais desde janeiro de 2018. Durante 4 anos o capitão capiroto rebaixou o exercício do cargo de presidente da república ao nível do de capo de família mafiosa.

O problema é que Bolsonaro foi apoiado caninamente pelo AGU e pelo PGR. André Mendonça e Augusto Aras estavam mais preocupados em disputar uma vaga no STF do que em cumprir suas funções institucionais de maneira a preservar o princípio da legalidade. Qual deles colaborou mais para garantir o sucesso do genocídio pandêmico?

As jornadas terroristas de 08 de janeiro de 2023 foram a apoteose do fim melancólico do bolsonarismo, mas ninguém pode dizer que o jogo democrático realmente recomeçou. Afinal, “As nossas instituições estão funcionando” para impedir Lula de remover o entulho do neoliberalismo autoritário. O novo presidente eleito é atacado diariamente pela grande imprensa e chantageado pelo presidente da Câmara dos Deputados. Os principais feitos de Arthur Lira foram criar e gerenciar o orçamento secreto para garantir a reeleição de Bolsonaro e represar centenas de pedidos de Impeachment protocolados contra o capitão genocida enquanto ele ameaçava publicamente a Suprema Corte.

Arthur Lira também pode ser considerado responsável pelo genocídio pandêmico? A resposta de Kennedy Alencar a essa pergunta é eloquente. Todavia, assim como funcionam para bloquear qualquer possibilidade de Lula governar “As nossas instituições estão funcionando” para impedir que o presidente da Câmara dos Deputados seja tratado como responsável pelo genocídio pandêmico.

É nesse ponto que guerras culturais brasileiras diferem bastante das que ocorrem nos EUA. Lá, elas paralisam a sociedade e impedem a destruição do militarismo norte-americano permitindo aos generais dos EUA cometer genocídios no exterior. Cá, elas inutilizam nossas instituições para que as populações em situação mais vulnerável possam ser oprimidas, escravizadas e eventualmente exterminadas por ação ou omissão governamental.

O governo dos EUA tem sido obrigado a lutar para impedir o Tribunal Penal Internacional de julgar os crimes de guerra cometidos por militares norte-americanos Aqui, apesar do Tsunami de mortes durante a pandemia, não existe um Tribunal capaz de levar a julgamento Jair Bolsonaro, Arthur Lira, André Mendonça e Augusto Aras. “As nossas instituições estão funcionando?”

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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