O canto da sereia e o velho da lancha. Um recado ao STF
por Armando Coelho Neto
Reza a lenda ou a história que, durante um festival religioso exclusivo para mulheres (62 a.C.), um homem infiltrou-se na casa do ditador romano Júlio César disfarçado de mulher, com o objetivo de seduzir Pompéia Sula, mulher daquele soberano. Descoberto, foi julgado e condenado. Nem César acreditava na cumplicidade de sua esposa, e nada ficou provado. Mesmo assim, o déspota separou-se da mulher.
Quando questionado sobre a separação, ainda que sob certos aspectos ele não fosse exemplo de honestidade, César mostrou-se preocupado com a imagem da família ou a sua, e teria dito algo que no Brasil popularizou-se como “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Uma frase, aliás, que jamais deveria ser esquecida no Brasil, no seu eterno conflito de aparências suspeitas.
Tem soado majoritário entre estudiosos que o avanço do neonazifascismo tem passado pelo descrédito contra as instituições vigentes. Nesse sentido, atacar o Judiciário, o sistema eleitoral e a imprensa são quase regra, além do incentivo ao ódio e à polarização, ao uso de notícias falsas e à criação de realidade paralela. Posto em prática, as consequências negativas garantem aos culpados a condição de “vítimas”.
No Brasil, o ataque às instituições posto em prática teria pela frente os limites impostos pela Constituição, cujo fiscal-mor é o Supremo Tribunal Federal. Com ajuda de um jurista picareta e senil, golpistas selaram que as Forças Armadas estariam acima do STF. Aliás, um jipe e um soldado bastariam para fechar aquela Corte, já dizia um golpista. E assim, o STF permanece sob ataque neonazifascista.
Na condição de alvo, minado por uma misteriosa peruca e olhares às esgueiras de “vestais libertárias”, o STF tenta manter-se sereno, mesmo na tempestade dos escândalos. Numa típica cena de teatro kabuki, a Corte reuniu-se para debater uma suspeição arguida pela imprensa, mesmo sabendo existir requisitos legais para essa condição e a quem compete fazê-la. Não cabe à PF ou à mídia tal papel. Ponto.
Em clima de escândalo, o ministro Dias Toffoli, mesmo sabendo o que fez e o que não fez no verão passado, optou pelo parto a fórceps, quando poderia ter optado pelo aborto ou parto sem dor. “Saído”, o STF confirmou a validade de suas decisões, inclusive o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens. Em meio a tanta espuma, a cobertura da imprensa deixou no ar uma aura de dúvida sobre ministros da Corte.
Quem tentou a PEC da blindagem e proteger o crime organizado; tentou punir mulher estuprada, é capaz de tentar legalizar a prostituição de menor e o trabalho escravo, somente para manter a ideia de que “o STF se mete em tudo”, para depois fazer comparações com o número de processos da Suprema Corte dos EUA, um país que não serve de exemplo para nada quando o tema é mundo civilizado.
A grande mídia (corporativa, hereditária, vendida) vem cumprindo um vergonhoso papel nos ataques à Suprema Corte, e já não disfarça a leviandade. Quando, por exemplo, mancheteia que Fachin arquivou o pedido de suspeição de Toffoli, cabe perguntar: que pedido? Quem pediu? Estaria por acaso contido na maçaroca feita pela Polícia Federal tratada como “lixo jurídico” pelo ministro Flávio Dino?
A pergunta mais primária no meio policial é bem conhecida: a quem interessa o crime? Nesse sentido, ao ser admitida eventual suspeição de Toffoli, todos os atos por ele praticados seriam nulos, inclusive os bilhões apreendidos. A complexidade do caso e as consequências, no caso, parecem não ter importância, pois afinal de contas o importante é desgastar a imagem da Corte com respingos no governo Lula.
O Supremo Tribunal Federal paga o preço de haver salvo a democracia, e precisa ficar atento de que está diante de um crime continuado. O golpismo, sobretudo via grande mídia, permanece fervilhante e ativo. Mais do que nunca, sobretudo em um ano eleitoral, cabe aos ministros do STF refletirem sobre o que fizeram nos verões passados. Se quer ouvir o canto da sereia, fique de olho no velho da lancha.
O ministro Edson Fachin (“que é deles”, segundo um charlatão que se tornou procurador pelo “fato consumado”) optou pelo teatro kabuki, ignorando que o STF vai permanecer como alvo, pois a tentativa de golpe não terminou. Não à toa, faz sentido lembrar da mulher de César, pois o que não falta é tarado fascista pronto para tentar seduzir Pompéia Sula.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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Anônimo
25 de fevereiro de 2026 9:36 pmO jornalista Coelho Neto expõe o sabido e consabido nos mares das “Sereias Vestais” das nossas instituições: Sereias vastas vestidas de togas e coroas imperiais. Faz-me lembrar da Odisséia de Homero, em contraponto. Ulysses cerra os ouvidos ao canto das sereias e segue em frente ao objetivo: ÁTICA!