O fim da “mamadeira de piroca” e do “banheiro unissex”; as esquerdas pautando o Brasil
por Rita Almeida
O Bolsonarismo foi o primeiro movimento ideológico brasileiro a adotar as Guerras Culturais como estratégia de propaganda, sendo muito bem sucedido nessa empreitada, inclusive. As Guerras Culturais têm o mérito de suspender o debate público sobre questões políticas reais que afetam a vida das pessoas e promover o debate moral sobre costumes, comportamento, orientação sexual e crenças religiosas, inaugurando assim um novo território de embate e debate: o das subjetividades ou mentalidades.
A extrema direita sabe como ninguém como usar as Guerra Culturais a seu favor, já que seu interesse é tão somente agitar a opinião pública e manter as massas agitadas e engajadas, sem precisar governar ou fazer política. O objetivo principal é angariar mais soldados para sua “batalha do bem contra o mal” a fim de se manter no poder com apoio das massas, sem precisar tocar nas contradições reais que prejudicam e subjugam essas mesmas massas. São as Guerras Culturais que possibilitam que um líder fascista consiga governar, lesando, oprimindo e até matando um povo, com o apoio desse mesmo povo.
Foi assim que, na esteira da antipolítica lavajatista, a extrema direita bolsonarista se fortaleceu: enfraquecendo o debate político que vinha sendo feito sobre o Brasil que queremos, para inventar um debate sobre o brasileiro que queremos, ou o brasileiro que somos. Para as Guerras Culturais existe um modelo ideal e correto de ser e agir, os que não se adaptam a ele devem ser convertidos ou excluídos/eliminados. Para militar nessas guerras temos o cidadão de bem, o cristão conservador, o patriota ou o defensor da família tradicional, e nos últimos tempos, foram eles que pautaram o debate público brasileiro.
Apesar de termos vencido as eleições de 2022 com a formação de uma Frente Ampla contra a extrema direita, não vínhamos conseguindo pautar o debate público desde então. A extrema direita continuava sendo bem sucedida em nos colocar sempre correndo atrás de desconstruir ou desmentir seus absurdos, despropósitos e mentiras, sem contar que passamos os últimos anos nos defendendo de mais uma tentativa de Golpe de Estado, tentado responsabilizar e punir os culpados.
Mas nas últimas semanas, com o debate sobre a taxação dos BBB (bilionários, bets e bancos) e isenção de IR para quem ganha até 5 mil reais, finalmente conseguimos retomar a pauta política que nos interessa, e varrer da cena pública os temas das Guerras Culturais que tão mal fizeram a democracia e ao povo brasileiro nos últimos tempos.
É fundamental compreendermos que no campo das Guerras Culturais nós das esquerdas sempre vamos perder, simplesmente pelo fato de que nesse tipo de embate não importa a realidade factual ou propostas reais para a vida das pessoas, importa só a guerra mesmo e todo o medo e ódio que ela gera. Por outro lado, nosso território de embate, nossas utopias, têm relação com o Brasil que desejamos, com o bem comum e as mudanças reais na vida das pessoas, especialmente as mais vulneráveis.
Por isso, essa virada de mesa da últimas semanas precisa ser celebrada e agarrada com toda força que pudermos. Retomamos nosso território de debate, recuperamos nossas utopias e, principalmente, conseguimos nos reencontrar com nossa libido para fazer militância. Ao invés de uma militância conservadora como a dos últimos tempos, preocupada em nos defender e defender as instituições e a democracia, retomamos uma militância desejante, criativa, inventiva, alegre, potente: que confronta e abre novos caminhos.
Contamos ainda, nos últimos dias, com a ajuda inesperada de Donald Trump que, ao ameaçar nossa soberania e a autonomia do nosso sistema judiciário, sob a chantagem da taxação de 50% dos produtos comercializados pelos EUA, despertou nos brasileiros um patriotismo real e orgânico, muito diferente do patriotismo fake do Bolsonarismo – uma fantasia verde e amarela que apenas mascara um viralatismo e uma sabugisse asquerosos.
É hora da nossa militância aproveitar esse momento e retomar o protagonismo do debate político brasileiro, impondo nossas pautas, aquecendo os movimentos sociais e indo pras ruas. Essa é a melhor janela de oportunidade que temos desde que o Bolsonarismo se abateu sobre nós. Chega de debater mamadeira de piroca, banheiro unissex e outros delírios moralistas! Vamos pautar aquilo que sabemos fazer muito bem! Vamos pautar e debater o Brasil que queremos. Quem sabe dá até pra recuperar a Bandeira Nacional?
Rita Almeida – É psicóloga/psicanalista, mestre e doutora em educação pela UFJF.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
Deixe um comentário