O golpe não acabou, por Marco Piva

Realmente é preciso estudar com mais profundidade o cataclisma mental que se abateu sobre o Brasil nos últimos anos.

Agência EFE

O golpe não acabou

por Marco Piva

Quem pensa que as investigações sobre a tentativa de golpe em 8 de janeiro colocará um freio nas investidas da extrema-direita está redondamente enganado. Cada dia que passa é mais e mais perceptível que este setor que põe a democracia em risco no Brasil segue ativa nas redes sociais e na busca de manter viva a mobilização radicalizada de seus apoiadores.

De janeiro para cá aumentou consideravelmente o número de fakenews a respeito do governo Lula. As mentiras já nem contam por que superam em muito a capacidade de denunciá-las. Qualquer ato, frase e iniciativa do atual presidente ou de membros do seu ministério são rapidamente transformadas em manipulações por meio de memes e frases distorcidas, com estatísticas ridiculamente inverossímeis.

Mas, de onde vem tamanha articulação? Antes, sabíamos: o “gabinete do ódio” estava instalado em pleno Palácio do Planalto, coordenado pelo vereador ausente Carlos Bolsonaro. Agora, a máquina de mentiras está como o filme vencedor do Oscar: “Tudo, em todo lugar, ao mesmo tempo”, do diretor Daniel Kwain.

Com boa parte da sociedade ainda fortemente traumatizada com aquilo que foram os quatro anos da gestão Bolsonaro, poderíamos fazer uma analogia ao nome do filme que ganhou o Oscar: “Destruir tudo em todo lugar ao mesmo tempo”.

Tem gente que não concorda e ainda defende seu mito que aproveitou o privilégio de uso do avião presidencial e se refugiou nos Estados Unidos. De lá, o mito tem pouco poder de sublevação, mas sua base se mantém ativa em território nacional como se vê na multiplicação das fakenews. O discurso não mudou. Avalio até que piorou em muitos aspectos. Nem o fato de mais de 1.500 pessoas terem sido presas pelos atos de terrorismo no 8 de janeiro assustou essa gente. Pelo contrário. Posam de heróis da pátria quando deixam a prisão levando como brinde uma tornozeleira eletrônica. Sinal que vão aprontar de novo na primeira hora. Mas, o que esperar de pessoas que acreditam que os ETs vão salvar o país de uma suposta “invasão comunista”, como disse ter ouvido dos manifestantes acampados em frente do Comando Militar do Planalto um comandante da Polícia Militar do Distrito Federal que prestou depoimento à CPI da Câmara Distrital de Brasília?

Realmente é preciso estudar com mais profundidade o cataclisma mental que se abateu sobre o Brasil nos últimos anos. Uma parcela considerável de brasileiros e brasileiras que nunca haviam se envolvido com política foi empoderada pelo discurso belicista de Jair Bolsonaro excluindo qualquer possibilidade de convivência democrática. Para esse pessoal tudo é conspiração internacional para destruir a pátria, a família e a religião. As armas que usam são as dos CACs, celeiro das mentes assassinas e perturbadas, ou, assim esperam, das Forças Armadas que tiveram parte de seu contingente capturada por essas ideias exóticas como se ainda estivéssemos no século passado.

Está difícil. Segue difícil. A divisão das famílias permanece como se o 8 de janeiro em Brasília tivesse sido um domingo de lazer. Quem participou, apoiou ou financiou aqueles trágicos acontecimentos não tem ideia de civilidade ou de respeito às leis. Para essa gente, as investigações do STF e da Polícia Federal são um atentado à liberdade de expressão…

Infelizmente, e apesar de todo o esforço das mentes mais lúcidas do país em voltar à normalidade institucional, o fato é que a extrema-direita é um bicho-papão a nos espreitar dia e noite. Não dá trégua porque nada tem a perder. O que pensam e fazem não considera o respeito pelo outro. Vale somente o poder das balas, da coerção e da intimidação.

No congresso essas forças reacionárias não cessarão um minuto sequer de querer criar confusão e um clima de confronto com sucessivos pedidos de CPI e alucinações de rua. Terão, inclusive, apoio de parte da mídia corporativa e da quase totalidade do chamado “mercado” que tem ódio de origem por um governo mais democrático. Isto porque perderam as eleições. Imaginem se essa turma tivesse vencido em 2022!

Marco Piva é jornalista, apresentador do programa Brasil Latino na Rádio USP e pesquisador do Centro Latino-americano de Estudos de Cultura e Comunicação (CELACC) da Universidade de São Paulo.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Redação

1 Comentário

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  1. Chapolin Colorado não poderá salvar-nos. André Janones, que já salvou o Lula ajudando a elege-lo poderá fazer de novo. É preciso aproveitar o talento do rapaz e formar uma equipe liderada por ele. Não precisa ser um “gabinete do amor” , basta que se ocupe de emaranhar os ” feiqueiros “. E ele tem experiência e competência para faze-lo.

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