5 de junho de 2026

Primeiro ano de Lula3, por Marco Piva

Emplacar Flávio Dino, o primeiro ministro comunista da história do STF, segundo ele mesmo disse, foi uma vitória pessoal
Ricardo Stuckert

Primeiro ano de Lula3

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Marco Piva

Mesmo faltando algumas pautas para votação no Congresso Nacional, é possível analisar como foi este primeiro ano do governo Lula3.

De saída, destaco a volta do Brasil ao cenário internacional após um inverno tenebroso provocado da política externa do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tornou nosso país um anão diplomático. Lula tem credibilidade mundial construída ao longo dos seus mandatos anteriores. Presidentes, chefes de Estados, reis, rainhas, todos querem um minuto da atenção de Lula e não para falar, mas para ouvi-lo.

O tema da mudança climática alcança o Brasil em cheio por conta do nosso potencial em recursos naturais que se traduzem em uma capacidade de produzir 85% de energia limpa do total que precisamos. E ainda com grande condição de aumentar essa produção a partir das energias eólica e solar, abrindo as portas para uma completa autonomia.

Com a ministra Marina Silva, outra liderança igualmente reconhecida mundialmente, sem dúvida se pode esperar avanços na lição de casa interna – maior controle do desmatamento, por exemplo – e na lição de casa externa – compromisso com os objetivos do milênio.

No campo econômico, a reforma tributária é um tema que andou, apesar da dificuldade de encontrar consensos mais amplos. Há décadas se falava disso, mas nunca houve uma proposta que saísse do papel. Na mesma linha foi elaborado o projeto de um novo arcabouço fiscal para destravar investimentos públicos tão necessários ao mesmo tempo que garante compromissos com a redução do déficit fiscal, ainda que perseguindo um improvável déficit zero. O temor ideal gerado pela nomeação de um ministro que não era diretamente ligado ao setor financeiro acabou se desfazendo. Hoje, Fernando Haddad é bem visto no mercado, o que garante pelo menos uma certa estabilidade na condução da economia e, no horizonte de 2026, um potencial candidato caso Lula desista da reeleição, o q que é uma hipótese pouco provável no cenário atual.

No campo social, antigas políticas públicas que haviam sido deixadas de lado desde o impeachment de Dilma Roussef voltaram repaginadas e houve ampliação de programas que garantem o mínimo de dignidade a milhões de famílias, particularmente aquelas chefiadas por mulheres. O Bolsa Família teve ampliado o seu alcance e também as exigências aos seus beneficiários como manter a criança na escola e a vacinação em dia.

A saúde é um dos principais problemas apontados pelos brasileiros, segundo recente pesquisa Datafolha. A recuperação do sistema de saúde pública é fundamental para 80% da população que dela depende. O caso do Mais Médicos, agora com 28 mil inscritos, em sua grande maioria profissionais brasileiros, e a retomada da Farmácia Popular são exemplos de programas que deram certo e podem alavancar a popularidade do governo a médio prazo, somando com outras iniciativas como a renovação da frota do Samu, Brasil Sorridente, campanha nacional de vacinação e investimento na indústria da saúde para obter maior autonomia em situações de crise sanitária.

Na educação, a volta dos investimentos nas universidades federais é um aceno importante para um país que precisa superar um atraso tecnológico que deixa nosso parque industrial em condições precárias de competitividade internacional. Já nos ensinos básico e médio as coisas não andam bem. Estamos longe de ver os nossos adolescentes e jovens dominarem a matemática, disciplina essencial para o desenvolvimento científico de qualquer país.

Nos esportes, uma sequência de desencontros políticos resultou em parcos avanços num país que respira diferentes modalidades esportivas, especialmente o futebol.

Encerrando o ano, Lula pode apresentar uma estabilidade política porque soube, com sua reconhecida experiência de negociador, se entender com um Congresso Nacional numericamente hostil e que tem como principal liderança o deputado Arthur Lira, do chamado “Centrão”. Pautas importantes avançaram, mesmo que tenha sido obrigado a usar o tradicional “toma lá dá cá”. Emplacar Flávio Dino, o primeiro ministro comunista da história do STF, segundo ele mesmo disse, foi uma vitória pessoal, bem como a nomeação de Cristiano Zanin.

Dessa forma, Lula3 entra em 2024 com a necessidade de consolidar a sua popularidade junto aos setores mais pobres da população, justamente seu eleitorado fiel, enquanto tenta manter pontes com a classe média que, em 2018, havia sido seduzida pelo discurso bolsonarista.

As eleições municipais de 2024 serão um momento de avaliação sobre a popularidade do presidente Lula. A extrema-direita, embora tenha perdido a eleição para a Presidência, mantem fortes redutos em vários estados e municípios, o que significa que haverá a reprodução da polarização política ocorrida nas urnas de 2022.

O Brasil precisa dar passos concretos rumo a um novo processo de industrialização que reduza o abismo que nos separa das nações desenvolvidas, especialmente no campo da ciência e da tecnologia.

Nem mesmo a Inteligência Artificial, essa nova ferramenta tecnológica que apavora e seduz a todos, é capaz de cravar o que vai acontecer em 2024. Uma coisa é certa: Lula3, apesar de alguns deslizes retóricos, ainda sinaliza esperança para boa parte dos seus eleitores. Para ser uma esperança profunda e duradoura, ele terá que deslocar o pêndulo em direção aos setores médios que formam majoritariamente um perfil conservador, mas não necessariamente refratário a boas políticas econômicas, sociais e ambientais. O perigo para o presidente vem do bolsonarismo, ainda muito presente na sociedade brasileira e que constitui pelo menos metade da população.

Uma mudança ministerial na virada do ano pode acontecer, o que vai significar o reconhecimento da necessidade de fortalecer a imagem do governo, nem que seja às custas de novas concessões para o Centrão.

Marco Piva é jornalista, apresentador do programa Brasil Latino, na Rádio USP FM 93,7.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados