5 de junho de 2026

Ter ou não ter pontes, eis a questão…, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Na época em que se esforçavam para criar pontes com o intuito de enfraquecer a URSS, europeus e norte-americanos agiam pensando no longo prazo.
Crédito: Security Camera/Anadolu Agency via Getty Images

Ter ou não ter pontes, eis a questão…

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Já faz mais ou menos 36 anos que adquiri o livro Ideologia y Politica, de V. Kortunov, Editorial Progreso, Moscú. Muita coisa mudou desde então. O Muro de Berlin caiu, a URSS desmoronou, a Rússia afundou política, social e economicamente durante a década subsequente antes de começar a ser reerguer e a se modernizada sob o comando de Vladimir Putin.

Uma nova guerra fria começou. Os principais lances dela até agora foram a incapacidade dos EUA de derrubar o governo da Síria protegido por Moscou, a bem-sucedida operação encoberta da Casa Branca para derrubar o governo pró-russo da Ucrânia com apoio dos nazistas locais, a anexação da Crimeia pela Federação Russa frustrando a ambição norte-americana de controlar a Base Naval de Sebastopol e o início da guerra ucraniana.

Durante quase uma década Kiev bombardeou as cidades próximas à fronteira da Rússia em que predominam ucranianos de origem russa que falam língua russa. Eles resistiram à ucranização linguística e cultural forçada daquela região. A Europa ajudou negociar um acordo de paz, mas preferiu ignorar as operações militares da Ucrânia contra uma parcela de sua população.

Após manifestar veementemente sua disposição de defender a população russa daquela região, o Kremlin finalmente perdeu a paciência e invadiu a Ucrânia. A imprensa ocidental imediatamente esqueceu todos os crimes de guerra cometidos pelos nazistas ucranianos contra as populações civis de Lugansk e Donetsk. A Rússia foi acusada de agir unilateralmente. Sanções econômicas foram adotadas pelos EUA e pela Europa, mas falharam em decorrência das características da economia russa e do aumento das relações econômicas entre russos e chineses.

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Nos anos em que a tensão estava a aumentar no coração da Europa, a Alemanha vinha consistentemente ampliando sua dependência do gás russo. Em contrapartida, o Kremlin aumentou a importação de produtos industrializados “made in Germany”. O que era bom para russos e alemães era muito ruim para os EUA. Irritados, os norte-americanos começaram a pressionar mais e mais Alemanha até conseguirem uma ruptura entre Berlim e Moscou.

O anúncio do rearmamento da Alemanha preocupa os franceses e adiciona uma nova complicação à perpetuação da União Europeia. O envio de equipamento militar alemão para Ucrânia irrita bastante o Kremlin. Satisfeitos, os EUA fazem o que é necessário para manter e até ampliar uma guerra que já poderia ter chegado ao fim.

Um gasoduto russo no mar do norte foi sabotado. A ponte que liga a Crimeia à Rússia foi parcialmente destruída. Esses foram os dois eventos que me fizeram lembrar do livro de V. Kortunov.  

Ideologia y Politica foi escrito durante a primeira guerra fria. Naquela época os soviéticos tinham razões para temer as infiltrações ideológicas ocidentais dentro do território da URSS. Naquele contexto histórico diz o autor:

“Todos los componentes de la política de ‘tender puentes’ – la revisión de la teoría marxista-leninista bajo el pretexto pausible de su ulterior ‘desarollo’, el minado de la dictadura del proletariado y del papel dirigente del partido comunista so capa de la ‘democratización’ y la renuncia al internacionalismo proletario con la excusa de tener en cuenta los intereses nacionales – fueron ampliamente utilizados por la reacción para preparar la llamada ‘contrarrevolución sosegada’ em Checoslovaquia.

Durante varios meses Checoslovaquia fue el campo de batalla de una tesonera lucha ideológica de los sistemas. En esta plaza de armas, el socialismo chocó cara a cara con los encarnizados ataques políticos e ideológicos de las fuerzas coaligadas del imperialismo, el oportunismo y el revisionismo en sus variantes más distintas. La importância de este choque rebasó largamente los límites de Checoslovaquia, y su resultado tuvo una gran influencia em todo desarollo posterior de la situación política e ideológica em el mundo.” (Ideologia y Politica, de V. Kortunov, Editorial Progreso, Moscú, 1977, p. 238/239)

Finda aquela guerra fria, a Rússia se esforçou bastante para construir pontes econômicas com o ocidente. Essas pontes estão sendo agora destruídas. Mas os prejuízos não se farão sentir apenas entre os russos. O preço do gás disparou na Europa. Os europeus pagarão mais caro para se aquecer nos próximos invernos. A indústria alemã sofrerá o impacto da redução de importações decretada pela Rússia e o aumento do preço de combustível e de energia elétrica. O que é ruim para os europeus parece ser bom para os EUA.

A China, entretanto, também colherá os frutos da destruição das pontes entre a Rússia e a Europa. Preocupados com isso, os governantes norte-americanos estão tentando começar uma guerra na Ásia. Eles já esqueceram que foram expulsos do Afeganistão por um bando de fanáticos mal armados ou acreditam que os chineses serão facilmente derrotados?

O mundo em que nós vivemos é muito diferente daquele que foi objeto das reflexões de V. Kortunov. Nem todas as pontes podem ser destruídas. Apesar da censura imposta nos EUA aos portais russos de notícias (e a inevitável reação do Kremlin fazendo o mesmo com os portais de notícias norte-americanos no território da Federação Russa) ninguém pode dizer que tem o monopólio da narrativa desse conflito. Em razão de sua arquitetura, a internet continuará possibilitando aos russos divulgar a sua versão dos fatos na Europa e nos EUA assim como a versão ocidental da guerra ucraniana continuará a ser acessada e debatida na Rússia.

Travada num ambiente tecnológico e cultural muito diferente daquele que existia na década de 1960, o conflito ucraniano não produzirá resultados semelhantes àquele que ocorreram em decorrência da guerra ideológica que precedeu e sucedeu a invasão soviética da Tchecoslováquia. Além disso, a crise econômica da Europa não poderá ser resolvida sem algum tipo de interação política e econômica com a Rússia. A proximidade geográfica é um fator decisivo. A proximidade ideológica com os EUA nesse caso não será capaz de causar qualquer ruptura econômica permanente entre europeus e russos.

Na época em que se esforçavam para criar pontes com o intuito de enfraquecer a URSS, europeus e norte-americanos agiam pensando no longo prazo. Todas as estratégias atuais são condicionadas pelos lucros a curtíssimo prazo. As limitações da nova geopolítica são evidentes. Elas parecem confirmar as suspeitas de Byung-Chul Han.

“O smartphone, como o digital em geral, enfraquece a capacidade de lidar com o negativo.” (No enxame, Byung-Chul Han, Editora Vozes, Petrópolis, 2020, p. 45)

Os efeitos negativos da guerra ucraniana já estão se fazendo sentir no Ocidente. Ao aderir de maneira acrítica às sanções impostas pela Casa Branca à Rússia a Europa deu um tiro no pé. Dificilmente uma recessão europeia deixará de produzir efeitos negativos nos EUA.

A médio e longo prazo a guerra favorece mais o Kremlin do que a Casa Branca. Há mais norte-americanos contra o envolvimento dos EUA na guerra do que russos criticando a decisão de Vladimir Putin de invadir a Ucrânia. O inverno certamente fará os milhões de europeus empobrecidos maldizerem mais o imperialismo norte-americano do que a Rússia que lhes fornecia gás a preços vantajosos.

A Rússia tem na China um parceiro em condições de substituir a Europa. Os industriais chineses não precisarão mais competir com seus adversários alemães e franceses pelo mercado russo. Eles continuarão comprando gás e combustível da Rússia. O que é ruim para a Europa pode ser excepcionalmente bom para os chineses.

Nenhum país latino-americano cogita seriamente impor sanções à Rússia. Ao que tudo indica, a África continuará a ser colonizada economicamente pela China.

De qualquer maneira, não deixa de ser engraçado ver os europeus comemorarem a destruição da ponte que liga a Crimeia à Rússia. Os corredores navais e aéreos entre ambas não poderão ser facilmente rompidos. Eles serão protegidos pela Base Naval de Sebastopol e não há nada que os norte-americanos possam realmente fazer para expulsar os russos da península.

A geopolítica smartphoniana de curto prazo adotada por norte-americanos e europeus é muito frágil. Ao tentar impor seus interesses nacionais na Europa os EUA enfraquecerá as economias europeias e não causará sérios danos à Rússia. O crescimento do nacionalismo russo e chinês (uma reação inevitável ao recrudescimento do imperialismo norte-americano) amplificará o poder dos dois adversários da Casa Branca. Na Europa, porém, o crescimento do nacionalismo fragilizará a União Europeia criando novos conflitos que podem se refletir de maneira negativa no mercado financeiro dos EUA.

No período analisado por V. Kortunov, as potências ocidentais enfraqueceram a URSS construindo pontes. Não me parece que elas possam se fortalecer destruindo as pontes que ligam a Europa à Rússia. Até porque as pontes entre os russos e chineses não poderão ser demolidas.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    11 de outubro de 2022 6:59 am

    O depoimento desse coronel americano aposentado apenas confirma o que eu disse sobre ter ou não ter pontes entre o Ocidente e a Rússia e suas consequências previsíveis.

    https://youtu.be/ALb2FPXFro4

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