O advogado Thiago Rodrigues de Faria recebeu R$ 105 mil de empresas vinculadas ao empresário Fernando Alves Vieira enquanto ocupava o cargo de coordenador da assessoria jurídica do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A informação foi revelada pelo Núcleo Investigativo do ICL Notícias a partir de 18 notas fiscais emitidas entre setembro de 2024 e dezembro de 2025. Vieira é sócio de parentes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e foi acusado pelo liquidante do Banco Master de atuar como “laranja” da família, acusação que o empresário nega.
Faria integra a equipe de Nikolas desde a Câmara Municipal de Belo Horizonte e assumiu o cargo na Câmara dos Deputados em março de 2023, com remuneração de R$ 17,2 mil. Em agosto de 2024, o servidor abriu uma sociedade individual de advocacia em Nova Lima (MG) e, 22 dias depois, emitiu a primeira nota fiscal para a Eagle & Shark, empresa administrada por Vieira. A prestação de serviços se estendeu até março de 2026, período em que o advogado seguiu nomeado no gabinete parlamentar.
Os repasses da Eagle & Shark somaram R$ 50,3 mil em 17 parcelas mensais. Em dezembro de 2025, 29 dias após a decretação da liquidação do Banco Master e a prisão de Daniel Vorcaro, outra firma gerida por Vieira, a Health Enterprises (2V Life), transferiu R$ 55 mil em parcela única ao escritório do assessor.
Áudio e teia de empresas
A revelação dos pagamentos ocorre após a divulgação de um áudio enviado por Nikolas Ferreira a Daniel Vorcaro em março de 2025. Na gravação, o parlamentar chama Faria de “irmão” e pede apoio para a negociação de um ativo minerário. Minutos depois, Vorcaro respondeu que estava “na guerra juntos” e orientou que o assessor o procurasse diretamente.
As empresas de Fernando Vieira apresentam conexões societárias diretas e indiretas com a família Vorcaro e com lideranças religiosas. A Eagle & Shark compartilha quadro societário com empreendimentos de Natália Vorcaro e Henrique Vorcaro, irmã e pai do banqueiro. Já a 2V Life possui vínculo com administradores ligados à Igreja Batista da Lagoinha. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que familiares de Vorcaro repassaram mais de R$ 2 milhões para a instituição religiosa.
Atuação na mineração
O nome do assessor também figurou nas investigações da Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2025 para apurar a extração ilegal de minério na Serra do Curral. Segundo apuração da PF e do jornal O Estado de Minas, o escritório de Faria firmou contrato de intermediação com a empresa Gmais Ambiental para a venda de lavras minerárias na região de Ouro Preto.
O contrato previa uma comissão de até 20% sobre negociações estimadas entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões. A transação envolvia a mineradora Topázio Imperial, responsável por uma barragem classificada entre as de maior risco no país e que estava com as atividades suspensas por determinação do Ministério Público Federal (MPF).
Outro lado
Em resposta ao ICL Notícias, Thiago Faria confirmou a prestação de serviços jurídicos a Fernando Alves Vieira e afirmou que não há impedimento legal para o exercício da advocacia privada simultaneamente ao cargo na Câmara.
O advogado declarou que Nikolas Ferreira não tinha conhecimento de seus clientes e que a intermediação de ativos minerários é uma prática regular do direito. Faria disse ainda que desconhecia eventuais irregularidades de Vorcaro ou acusações de que Vieira atuasse como intermediário ilícito.
O empresário Fernando Alves Vieira e suas empresas não se manifestaram.
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