Jair Bolsonaro (PL) tem usado a crise econômica na Argentina para convencer o eleitorado a não eleger Lula (PT). Na tese do candidato à reeleição, o país vizinho saiu dos trilhos graças às políticas de esquerda. Bolsonaro ignora os dados socioeconômicos da Argentina e também omite que parte da crise atual é herança do governo Macri, que foi seu aliado e para quem Bolsonaro até pediu votos.
Um estudo do INDEC (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos da Argentina) realizado no primeiro semestre de 2022 apontou que 36,5% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza – em termos de lares, a pesquisa indica que 27,7% se encontram abaixo da linha da pobreza. Já as pessoas em situação de indigência são 8,8%.
A questão é de quem é a culpa. Quando o presidente Alberto Fernández (peronista de centro-esquerda) assumiu o poder, em dezembro de 2019, o mesmo INDEC indicava que o número de pessoas abaixo da linha da pobreza no país era de 35,4%, os lares pobres eram 25,9% e a indigência 8,0%. Aquele estudo foi realizado no primeiro semestre de 2019, último ano de mandato de Mauricio Macri (direita), aliado de Jair Bolsonaro.
Se verificarmos o levantamento do INDEC feito no primeiro semestre de 2020, quando Fernández estava há poucos meses na Casa Rosada e enfrentava o início da pandemia de covid-19, vemos que o quadro era muito pior que o atual: as pessoas abaixo da linha da pobreza eram 40,9% (o mesmo índice que Bolsonaro acusa, mas que foi produzido durante o governo do seu aliado Mauricio Macri), os lares pobres eram 30,4% e a indigência superava os dois dígitos, com 10,5%. Todos esses índices são piores que os atuais. Portanto, foram reduzidos durante a gestão de Fernández.
Aliás, os números da miséria na Argentina no final do governo de Macri foram um dos grandes problemas do aliado de Bolsonaro, que perdeu sua reeleição em 2019 justamente por causa disso. A campanha de Alberto Fernández lembrou que seu adversário, na campanha presidencial de 2015, chegou a prometer “pobreza zero” na Argentina, mas acabou aumentando as cifras: também segundo o INDEC argentino, as pessoas sob a linha da pobreza em 2016, após a saída de Cristina Kirchner (aliada de Fernández) da presidência, eram 30,3%, os lares pobres eram 21,5% e os indigentes 6,1%.
O fato de Fernández diminuir pouco os índices de pobreza pode parecer um demérito, mas é preciso lembrar que, além da pandemia, o atual presidente também teve que lidar com o maior endividamento da história da Argentina: em junho de 2018, Mauricio Macri pediu um financiamento no FMI (Fundo Monetário Internacional) de pouco mais de 50 bilhões de dólares, o maior já entregue pela instituição a um país. Esse valor que foi renegociado pelo atual governo, que vem pagando parcelas de 1,9 bilhões desde meados do ano passado. Atualmente, a Argentina ainda precisa pagar ao fundo cerca de 42 bilhões de dólares.
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