Câmara do RJ aprova novo projeto de autódromo em área de preservação permanente

Ativistas ambientais ressaltam que o projeto não tem estudo de viabilidade financeira ou ambiental e que a região sofre com alagamentos

Crédito: Divulgação

Os vereadores do Rio de Janeiro aprovaram, por 35 a 1, nesta terça-feira (18), um projeto que autoriza a construção de um autódromo no Campo do Papa, área de preservação ambiental em Guaratiba, na região Oeste da capital fluminense. 

O PSol apresentou, esta semana, uma nota técnica que refuta a proposta diante dos prováveis impactos ambientais, entre eles a destruição de manguezais, erosão e assoreamento do solo e perda da biodiversidade de fauna e flora locais. 

Porém, a empolgação tomou conta dos vereadores presentes, que justificaram a proposta elaborada pelo prefeito Eduardo Paes (PSD) como um avanço para a cidade, que deve gerar empregos, trazer ainda mais turistas para a ‘cidade maravilhosa’ e tirar de São Paulo a sede das corridas de Fórmula 1.

“Não li, não recebi, nunca me mandaram nenhum estudo [que justificasse a construção]. O que tem é um lobby, uma pressão política, em especial desses grupos e da Federação de Automobilismo querendo ter um espaço para competição, um espaço para fazer aí esses campeonatos automobilísticos. A argumentação deles é que  o Rio tem de voltar a disputar com São Paulo [a sede das disputas de Fórmula 1] e alegam também que seria uma forma de geração de emprego e melhoria das condições ali da região”, afirma a vereadora Luciana Boiteux (PSol), a única que votou contra o projeto.

Entenda o debate

Em 22 de março, o prefeito Eduardo Paes enviou o projeto da construção do autódromo à Câmara dos Vereadores, conforme publicação no Diário Oficial do Legislativo. 

De acordo com a publicação, a proposta aponta que o autódromo será construído entre o trecho do Rio Piraquê, situado entre a Avenida Dom João VI e a Estrada da Matriz. A área, porém, é um manguezal, área de proteção permanente, de acordo com a vereadora do PSol. 

“O Rio de Janeiro não precisa de um autódromo e também nesse lugar não deveria estar se pensando em um autódromo. A lógica do autódromo é uma lógica comercial puramente, que acho que não deveria prevalecer em especial em uma região alagada, que recebeu eventos e teve consequências”, argumentou a parlamentar. 

Pedro Aranha, ativista socioambiental, articulador da coalizão pelo clima no Rio de Janeiro, também se posiciona contra o projeto. “Querem fazer o autódromo no Campo do Papa, onde ia ter a Jornada Mundial da Juventude e não pode ser em Guaratiba porque alagou tudo. É uma área de manguezal, que com qualquer chuva alaga.”

Além de participar de uma manifestação do Movimento Baía Viva, convocada para acompanhar a votação nesta terça-feira (18), o ativista também ressalta que a luta não termina com a aprovação do projeto e que a discussão será levada ao Ministério Público. 

“A questão é: para que o autódromo? Em pleno século XXI, com as mudanças climáticas, aquela área está completamente degradada. E é sempre o mesmo discurso, o discurso da destruição e do pseudodesenvolvimento de que vai gerar emprego. Qual é o emprego qualificado que pode gerar para aquela população? Vão construir um hotel? Não vão. Os pilotos vão ficar hospedados em Guaratiba? Não vão. E nem vai ter Grande Prêmio no Rio de Janeiro. São Paulo nunca mais vai deixar sair o Grande Prêmio de F1 de São Paulo”, questiona Aranha.

Histórico

Esta não é a primeira vez que o poder público tenta construir um novo autódromo no Rio de Janeiro. Em 2021, a prefeitura defendeu um projeto para construir o projeto na Floresta do Camboatá, na zona Oeste. 

Mas os ativistas conseguiram evitar as obras sob a justificativa de que a floresta, localizada na Mata Atlântica, é considerada rara por abrigar diversas espécies em extinção, entre elas a de um sapo, de acordo com Aranha.

O ativista acredita que o mesmo deve ocorrer com o Campo do Papa, por se tratar de um manguezal. Mas, independente do resultado, Eduardo Paes deve seguir com a ideia fixa de dar ao Rio um novo autódromo. 

Em 2012, o Autódromo Emerson Fittipaldi, de Jacarepaguá, foi demolido para dar lugar ao Parque Olímpico. Desde então, é uma promessa de campanha do prefeito com grupos e com a Federação de Automobilismo a construção de um novo autódromo na cidade, mesmo que a antiga sede recebesse uma corrida da F1 apenas em 1980. 

Interesses

Além do compromisso com grupos ligados ao automobilismo, Eduardo Paes propôs a construção do autódromo em Guaratiba para favorecer o setor de construção civil e, consequentemente, a especulação imobiliária. Segundo Aranha, é o sonho do prefeito transformar a região na Alphaville carioca. 

Moradora, Dani Nunes defende que as prioridades para a região sejam outras, entre elas a construção de unidades de saúde, asfalto e saneamento. “Nós estamos batendo recordes de sensação térmica e a qualidade do ar tem sido a pior do município. Guaratiba é um bairro muito longe do centro do Rio e eles justificam que a cidade está crescendo para cá. E a justificativa de quem é favorável é que a gente tem de escolher entre um autódromo e um condomínio habitacional.  Sendo que essa área é uma áreas que não deveria ter nenhuma construção”, afirma Dani.

“Então, acredito que eles sucatearam o bairro sem colocar investimentos para aqui justamente para fazer com que os moradores comprem esta ideia”, continua a moradora.

Como alternativa ao autódromo, Luciana Boiteux e Dani Nunes defendem a promoção do turismo sustentável, mas falta vontade política.

Confira a nota técnica do PSol:

O GGN entrou em contato com a Prefeitura do Rio de Janeiro, a fim de obter as projeções do impacto financeiro e ambiental da construção do autódromo, entre outros questionamentos, mas não obteve resposta. A matéria será atualizada se recebermos um posicionamento.

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2 Comentários

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  1. O autódromo de Jacarepaguá, tão bom que sediou a F1, Indy, Moto GP, etc., poderia perfeitamente ter sido conservado com a construção do Parque Olímpico entremeado em seus amplos espaços. Em vez disso, destruíram um para criar outro, hoje inútil. Certeza que uma reconstrução no mesmo lugar será mais eficaz e barato…e isto evidentemente “não interessa”!

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