Lula, recorra ao AA
por Ivan Colangelo Salomão
Inocente, não me canso de oferecer conselho a pessoas que, naturalmente, sequer sabem da minha existência e que, justamente por isso, jamais foram incomodadas por um desimportante qualquer que se julga apto a aconselhá-las. Mas como hoje em dia até a habilidade espacial-automotiva do Caetano vira notícia, vai que, numa dessas, estas pobres linhas cheguem às mãos de seu destinatário.
Não me jacto das qualidades de conselheiro que, de fato, não tenho. Reconheço erros crassos dos quais não me orgulho, como essa sugestão infame tecida no auge da ameaça golpista de 2020. Ou essa proposta igualmente descabida, feita um ano depois, ainda sob o sofrimento do pesadelo autorrealizável que, de fato, se realizava. Mas todos esses devaneios têm motivação clara e justificada: o desespero em estado puro.
Muito tem sido dito e escrito sobre a eleição presidencial deste ano. Não sem razão; como todos sabemos, é a última barreira que nos separa de uma corrosão irreversível do que nos resta de dignidade social. 2022 é o portal da Caverna do Dragão. Eu não sou o mestre dos magos, mas sei de algumas coisas que muita gente mais inteligente do que eu se recusa a aprender.
Se tivesse que arriscar todo o meu dinheiro, minhas apostas seriam: (1) se houver eleição, ela não será decidida no primeiro turno; (2) se, ainda assim, houver segundo turno, o resultado será tênue e em desfavor do candidato à reeleição. No melhor dos cenários, o pleito será apertado e decidido nos detalhes; no pior, terá seu resultado revertido à baioneta.
Considerando que há pouco menos do que 50% de votos em disputa, a estratégia deveria ser, antes de tudo, aritmética. Sem amealhar o voto dos trabalhadores historicamente refratários ao PT e da classe média mais conservadora, a conta simplesmente não fecha. E, sim, é possível avançar, ainda que de forma limitada, sobre esse eleitorado. Eram outras épocas, é verdade, mas a já afamada Santa Catarina deu mais de 64% de seus votos a Lula da Silva no segundo turno da eleição de 2002. Espaço para crescer há, resta apenas ser mais inteligente do que o adversário – que, no caso, sendo quem é, não requer muita ritalina.
Para o primeiro grupo supracitado, seria de bom tom não atravessar a rua para pisar na casca de banana da batalha moral. Todos sabemos onde mora a civilização e onde reside a barbárie no que diz respeito, por exemplo, ao tema do aborto. Mas quantos votos do tão falado segmento evangélico se ganhará com uma declaração daquelas? Não custa nada segurar a língua. É só fugir do assunto sem se comprometer e, uma vez eleito, trabalhar junto ao Legislativo e, eventualmente, ao Judiciário mais do que de fato se fez durante os 14 anos das gestões do partido.
Já em relação ao segundo, diante do tom plebiscitário dessa eleição, uma estratégia madura para romper as já sabidas resistências seria vestir um programa econômico moderado e progressista. Não que seja a única opção, mas certamente a mais segura.
Para isso, Luiz, chega de amadorismo. É obviamente importante renovar os quadros para dialogar com eleitores que rejeitam o PT. Mas o contexto de descalabro em que nos encontramos não permite ensaios. Bailando, de olhos vendados, à beira do abismo, não me parece prudente testar um calçado novo para averiguar se ele desliza melhor sobre o assoalho.
Luiz, aceite a gravidade da situação e recorra ao AA. Divulgue desde já sua intenção de indicar André Lara Resende para a Fazenda e Armínio Fraga para o Banco Central (em 2025). O primeiro, um economista brilhante e respeitado em quebradas onde não se usa sapatênis, anda mais heterodoxo do que muitos dos seus assessores econômicos – sobretudo no que diz respeito a questões monetárias, como se pode assistir aqui ou se ler aqui. Resende, que já assinou o programa econômico da então candidata Marina Silva, deu inúmeros sinais de que colaboraria com um eventual mandato petista no ano que vem.
O segundo, igualmente competente, tem mais a explicar, é verdade. Já andou com gente que, de fato, frequenta aquele outro AA, os Alcoólicos Anônimos mesmo (o que não é demérito algum, naturalmente). Mas tem demonstrado uma certa sensibilidade social que não se via na época em que trabalhava para o Soros. Inclusive em questões fiscais, como se sabe, o nó górdio da crise econômica brasileira desde 2015. Como se não bastasse, já defendeu medida tão improvável quanto linda e urgente: reflorestar a Amazônia. Eu nunca tinha ouvido nem o Carlos Minc soltar uma dessas, quem dirá um economista liberal. Vou repetir: Fraga já defendeu o reflorestamento da Amazônia!
Por fim, se quiser fechar com um hat trick (AAA), convide o também genial Pérsio Arida para o Planejamento. Assessor do seu futuro seu vice-presidente em 2018, é outro banqueiro moderado mais do que disposto a colaborar com a restauração econômico-civilizatória do país.
E se me permite ir além, nomeie Gleisi Hoffmann para a Casa Civil – a mais leal e destemida de seus auxiliares – e Marcio França para a Secretaria Geral da Presidência, um dos mais habilidosos políticos do ramo. Amarre a vitória do Fernando Haddad com articulação nacional ao mesmo tempo em que constrói uma base mínima de sustentação no parlamento. Por fim, indique Silvio Almeida e Tiago Amparo para as vagas de Ricardo Lewandowski e Rosa Weber no Supremo. A humanidade lhe reverenciará.
Para que a sua vitória não seja de Pirro, lidere um grande acordo nacional, com a Faria Lima, com tudo. E aprenda com a história: parte dos louros que Vargas colheu no seu (longo) primeiro mandato respondeu ao equilíbrio alcançado com a articulação do chamado Estado de Compromisso, justamente o apoio que lhe faltou em sua segunda gestão (1951-1954), quando colheu o pão que o Rabudo amassou e atirou contra o próprio peito para não ser novamente deposto pelos militares.
Luiz, você não pode mais errar. Tenha juízo e nos salve do inferno que nos aguardará em 2023 em caso de derrota. E deixemos para brincar de revolução em 2026.
Com apoio político, legitimidade social e essa equipe econômica, você dispõe de tudo para mudar, mais uma vez, o rumo dos acontecimentos. Entregue crescimento médio de 3%, algum superávit fiscal em 2025 e inflação abaixo de 5% ao ano. Coloque o povo no orçamento e o rico na Receita. Não é muita coisa, mas o suficiente para nos livrar do calvário em que nos metemos nos últimos anos.
Faça isso e reserve seu lugar no panteão dos 5 maiores personagens públicos da história do Brasil. Lá te esperam Zumbi, Tiradentes, José Bonifácio e Getúlio Vargas.
Ivan Colangelo Salomão, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
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Leia as considerações do Nassif sobre o artigo acima
Num pacto, entregam-se os anéis, não os dedos, por Luis Nassif
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Graça Martins
11 de abril de 2022 9:17 amVou correndo, entregar para o Luiz, em mãos. Sonhei…
NALDO
11 de abril de 2022 10:20 amOu seja……Lula pode sair e ja dar lugar ao aidemin na presidencia…..vorariam no PT e elegeriam toda a galerinha do mal do psdb…”jenial”….
Antonio Uchoa Neto
11 de abril de 2022 11:07 amPalavra de honra, quando li o título desse post, pensei que o autor estivesse se referindo ao nosso preclaro AA do GGN, André Araújo; notícias dele?
Mas, entrando no assunto em questão, haverá alguém, por aí, que duvide de que Lula fará, em um possível novo mandato, o que fez nos dois primeiros? Ou seja, governar não com o Mercado, mas sem incomodá-lo? Realocar uma porcentagem infinitesimal do Orçamento para fazer política social não é algo tão escandaloso, assim.
Assistam documentários sobre a vida marinha, e verão tubarões nadando cercado de pequenos peixes, que assim não apenas se livram da voracidade do peixão, nadando em pontos cegos para ele, mas também se aproveitam das sobras do que o tubarão vai devorando em seu caminho.
Marcos, 7, 24-30.
Enquanto houver Capitalismo, viveremos de migalhas.
José de Almeida Bispo
11 de abril de 2022 12:40 pmNo comments!