Carta aberta ao presidente Lula, por Ivan Salomão

Por isso, a minha súplica: voltemos a nos digladiar em 2026, mas, antes, salvemos o que ainda resta da nossa frágil democracia!

Carta aberta ao presidente Lula

por Ivan Salomão

Caro Luiz,

Tenho certeza de não ser o primeiro a lhe procurar com esse mesmo propósito. Quantos já não o suplicaram com argumentos tão mais irrefutáveis do que os meus. Mas se me fosse dada uma oportunidade de tentar mais uma vez, ela seria mais ou menos assim.

Eu compreendo absolutamente todos os motivos pelos quais o senhor defende a primazia do seu grupo. O senhor tem história. O senhor fez história. A tentativa de preservar o seu legado é absolutamente legítima. E tenho a mais rigorosa e terminante certeza de que o tribunal da história honrará a dignidade da sua obra. A sua obra é eterna, Luiz. O senhor não estará, o senhor já está no panteão dos grandes da história brasileira.

Mas agora não dá mais para errar. Como se ainda fosse possível, a situação mudou de patamar. E não foi pouco. Muito provavelmente já passamos do ponto de não retorno em diversas áreas. O retrocesso é incalculável e irreversível. Abriram a porta do inferno e levaremos anos, décadas para encaixotar todos os demônios de que lá saíram.

Já correram rios de tinta para explicar como as democracias morrem. Ou como são morridas. O golpe não será, o golpe está sendo. Um pouco por dia. Todos os dias. O fascismo corrói as instituições como ácido sobre matéria orgânica. Todas. Sem exceção.

Já ficou claro que ele carregará esse 1/3 do eleitorado até o abismo, se preciso. Se vazar um vídeo real em que se veja ele matando um filhote de urso panda a pauladas, o Datafolha da semana seguinte trará os mesmos 35% de ótimo/bom. Um filhote. De urso panda.

Ou seja, a guerra vai ser travada, inevitavelmente, no segundo turno. E é aí que mora o problema, Luiz. Pelos motivos mais legitimamente discutíveis, ao PT não deve ser facultada a possibilidade de sonhar com o Palácio do Planalto pelos próximos 20 anos. Se seu mais moderado quadro não foi suficientemente palatável para sobrepujar-se àquela indignidade, nenhum outro o será. Além de preparado, honesto e competente, Fernando Haddad é bonito, lhano e gentil. No dia 28 de outubro de 2018, a decisão parecia tão simples quanto essa: o referido homem supradescrito versus o horror. O resto é história. Filiado ao PT, nem Jesus Cristo de Nazaré levará o partido de volta ao poder central pelas próximas duas décadas. De novo: se o candidato do PT à Presidência da República for o Supremo Redentor, o filho do Deus-Pai, o vencedor será, por muito tempo, o seu adversário, seja ele quem for. Um ramo de alho, um pé de meia suja ou uma lâmpada queimada. Hoje, e por muitos anos ainda, a maior força política do país é o antipetismo. Quem pensa em contrário, das duas, uma: ou não sabe nada, ou não sabe nada mesmo.

Por isso, a minha súplica: voltemos a nos digladiar em 2026, mas, antes, salvemos o que ainda resta da nossa frágil democracia! Apoiar um candidato eleitoralmente viável do campo democrático-progressista não apagará a majestosidade da sua trajetória. Pelo contrário. Caso o senhor se arrisque numa nova aventura eleitoral, rasgará a sua biografia ao ser derrotado por essa aberração. Não se submeta a essa humilhação, Luiz, o senhor não precisa provar mais nada a mais ninguém. Não sei como ser mais claro sem ser indelicado: infelizmente, não há a menor possibilidade de o senhor vencer o pleito de 2022. De 0 a 10, a sua chance é -1. As suas derrotas entre 1989 e 1998 podem ser lidas como um processo de amadurecimento para a redenção de 2002. Em 2022, representaria a condenação definitiva de toda uma nação.

Churchill tinha horror físico a Stálin e a tudo que ele representava; o Marechalíssimo, por sua vez, abominava com cólera as idiossincrasias mundanas do lorde beberrão. Ódio reciproco à parte, eles aceitaram a composição temporária e se uniram contra o mal maior. Verdadeira ou não, como não se sensibilizar com a máxima atribuída ao primeiro-ministro inglês? “Se Hitler invadisse o inferno, eu faria uma referência favorável ao Diabo na Câmara dos Comuns”.

Aprendamos com os exemplos que vêm de fora. Cristina não cedeu a cabeça de chapa a Alberto por grandeza de espírito. Ela sabia que jamais seria novamente eleita com qualquer outro tipo de coligação que não a liderada por um sujeito polido, moderado e palatável para a classe média. Esqueça a “revolução” norte-americana de 2020. Lá, o fascismo só foi derrotado porque o Partido Democrata teve juízo ao escolher um candidato tão esquerdista quanto João Amôedo e tão radical quanto Geraldo Alckmin.

Por favor, reflita e responda para si mesmo: o senhor realmente prefere inviabilizar a candidatura de Ciro Gomes (um sujeito para lá de complicado, todos sabemos) a nos obrigar a escolher, no segundo turno de 2022, entre um miliciano genocida e o Triboulet de cashmere (ou, eventualmente, o Torquemada de Maringá)? O Brasil foi muito generoso com o senhor, Luiz. Retribua o que essa terra lhe deu e não condene 212 milhões de compatriotas a esse pesadelo da vida real. Lidere uma ampla coalizão oferecendo Haddad como vice numa chapa liderada por Ciro Gomes. Até porque, se o PT não o fizer, outros o farão. Ou é isso… “Ou então, não será nada”.

Com mais 4 anos e um miniciclo das commodities na mão, esse facínora arrebenta o que restar do país até lá. 2022 é a nossa última chance. Se reeleito o inominável, será o fim de toda uma geração – para a parte pobre, preta e periférica dela, literalmente. Por favor, Luiz, exerça sua grandeza em nome da dignidade do país em que viverão seus filhos, seus netos e sua bisneta.

Se organizar direitinho, todo mundo continua dormindo em casa, sem hematomas e com todos os dentes na boca. Textos como este continuarão sendo permitidos e voltaremos às urnas em 2026. Senão, quem sabe nos encontremos, com sorte, na Convenção dos Amantes da Democracia, da Empatia, da Igualdade e do Altruísmo. Também conhecida como Cadeia.

Com o respeito e a admiração de sempre, um abraço.

Ivan Salomão, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora