O jantar oferecido por Marcelo Kayath a Flávio Bolsonaro, em São Paulo, reuniu banqueiros, empresários e integrantes de conselhos de grandes companhias. Como ocorre nesses encontros, a fotografia e a lista de convidados produziram imediatamente uma leitura política: a de que uma parcela da Faria Lima começava a aderir à candidatura do senador.
Kayath contesta essa interpretação. Ex-presidente do Credit Suisse no Brasil e hoje sócio da QMS Capital, ele diz que o encontro foi organizado para ouvir ideias e discutir soluções para o país — não para anunciar apoio político.
“Foi um encontro de alto nível para debater ideias e buscar soluções para o Brasil. Não era um encontro de adesão ou de apoio político.”
Segundo Kayath, não houve declaração de voto por parte dele nem dos demais participantes. Na abertura, fez questão de recordar que não votou em Jair Bolsonaro em 2022 e que mantinha amizade pessoal com Fernando Haddad.
“Não houve declaração de voto, nem minha, nem de ninguém. Pelo contrário: na abertura deixei claro para ele e para todos que não votei no pai em 2022 e que era amigo pessoal do Fernando Haddad.”
A ressalva ganha peso quando se observa a sequência de encontros promovidos ou frequentados por Kayath. Em 2022, ele participou de jantares de Luiz Inácio Lula da Silva com empresários e investidores. Na reta final daquela eleição, declarou voto em Lula e chegou a ser citado como um nome capaz de estabelecer pontes entre o novo governo e o mercado. Mais tarde, foi convidado por Fernando Haddad para uma diretoria do Banco Central, proposta que recusou.
Em 2024, de acordo com o próprio Kayath, organizou dois jantares para Guilherme Boulos durante a campanha à Prefeitura de São Paulo, embora considerasse remotas as chances eleitorais do candidato. O episódio reforça sua versão de que abrir a casa e reunir interlocutores não equivale a endossar uma candidatura.
“As pessoas esquecem que, em 2024, fiz dois desses jantares para Boulos, mesmo sabendo que ele não tinha chance nenhuma.”
Em maio de 2026, Kayath já havia recebido Flávio Bolsonaro em sua casa em Miami, num jantar de cerca de cinco horas com empresários brasileiros e dirigentes políticos. À época, reagiu às críticas dizendo ser contrário ao Fla-Flu político e não ter medo de conversar com ninguém. Ressalvou, porém, que continuava crítico a Jair Bolsonaro e que não receberia o ex-presidente.
O novo jantar, agora em São Paulo, repetiu a fórmula: colocar um candidato diante de representantes do mercado para que apresentasse suas propostas e respondesse a perguntas. Relatos publicados depois do encontro indicaram que os participantes procuraram entender qual seria o projeto de país de Flávio e saíram sem identificar uma proposta suficientemente estruturada. Isso está longe de configurar uma aclamação.
Há uma diferença importante entre interlocução e apoio. Em uma democracia, empresários, sindicalistas, intelectuais e representantes da sociedade devem conversar com candidatos de diferentes campos. O problema começa quando encontros privados são vendidos como adesões coletivas — ou quando os anfitriões não esclarecem sua natureza.
Kayath resolveu fazê-lo. Sua trajetória recente permite conferir consistência ao argumento: esteve em jantares com Lula em 2022, promoveu encontros com Boulos em 2024 e recebeu Flávio Bolsonaro duas vezes em 2026. Em alguns momentos declarou voto; em outros, abriu espaço para diálogo sem assumir compromisso eleitoral.
O jantar com Flávio, portanto, deve ser lido pelo que foi: uma tentativa de aproximação entre um candidato ainda visto com desconfiança e setores empresariais que desejavam ouvi-lo. Pode ter relevância política e produzir pontes. Mas, segundo o anfitrião, não houve ali conversão, declaração de voto ou cerimônia de adesão.
A voz de Kayath ajuda a corrigir o automatismo da cobertura política, que frequentemente transforma conversa em apoio, presença em compromisso e hospitalidade em alinhamento. Ouvir um candidato não significa votar nele. Significa submetê-lo a perguntas — algo que Kayath afirma ter feito com candidatos de esquerda e de direita, em eleições diferentes.
E nega peremptoriamente ter recebido qualquer convite para ser Ministro da Fazenda.
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