O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou os gastos militares globais e defendeu o combate à fome como “prioridade zero” durante a cerimônia de abertura da 39ª Sessão da Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, realizada em Brasília. Abandonando o texto preparado, Lula optou por uma fala direta e carregada de dados e provocações.
“Se nós pegássemos o dinheiro que foi gasto no ano passado em armamentos, o equivalente a US$ 2,7 trilhões dois trilhões e dividíssemos entre os 630 milhões de seres humanos que passam fome no planeta, daríamos US$ 4.285 para cada pessoa”, afirmou. “Não precisaria ter fome no mundo se houvesse bom senso dos governantes.”
Lula dirigiu um apelo direto aos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (França, Reino Unido, Rússia, China e Estados Unidos), sugerindo que bastaria uma teleconferência entre os líderes dessas nações para discutir uma reorientação de prioridades: menos armamentos, mais produção e distribuição de alimentos.
“Todo mundo quer mais bomba atômica, mais drone, mais aviões de caça cada vez mais caros. E tudo isso não é feito para construir ou produzir alimento, é feito para destruir”, disse o presidente.
Invisíveis
Em tom mais emotivo, Lula afirmou que a fome persiste não por causas climáticas, mas por omissão política. “Não é por excesso de chuva nem por falta de sol. É por excesso de falta de compromisso.”
Segundo ele, as pessoas que passam fome são tratadas como invisíveis pelos governos porque não protestam, não se organizam em sindicatos e não têm acesso ao centro do poder.
“Quando forem discutir o orçamento dos países a que vocês pertencem, vejam quanto é destinado para combater a fome e a pobreza. Para isso nunca tem dinheiro”, disse.
O presidente citou o brasileiro Josué de Castro, que já em 1946 apontava a fome como um dos maiores problemas da humanidade, e questionou: “É justo que no primeiro quarto do século XXI ainda estejamos discutindo isso?”
Exemplo
Lula usou a trajetória do Brasil como argumento central. Afirmou que o país retirou a fome do Mapa da Fome da FAO pela primeira vez em 2014, ainda no governo Dilma Rousseff, mas que ao retornar à presidência em 2023 encontrou 33 milhões de pessoas em situação de fome novamente. Em dois anos e meio, segundo ele, o Brasil voltou a ser reconhecido pela FAO como um país livre de fome.
“É possível acabar com a fome. Nós provamos isso duas vezes”, afirmou. “Se o Brasil conseguiu, o mundo pode. Por mais pobre que seja o país, pega um pouquinho do seu orçamento e dedique.”
Para ilustrar o efeito econômico da distribuição de renda, Lula recorreu ao exemplo de que um orçamento de um milhão de reais fosse entregue a uma única pessoa, ela depositaria o dinheiro e viveria de juros. Se distribuído em partes iguais entre 300 habitantes, cada um gastaria em padarias, peixarias e comércio local, movimentando a economia e beneficiando a todos.
ONU
Lula não poupou críticas à ONU, afirmando que a organização está “cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras” e perdendo credibilidade por não cumprir sua carta de fundação de 1945. Questionou por que a guerra entre Rússia e Ucrânia, que já dura quatro anos, ainda não teve mediação formal da entidade.
“Quem é que não sabe o que vai acontecer naquela guerra? Vai ter um acordo. Se é isso, por que não fazem logo?”, disse.
O presidente brasileiro também fez uma indireta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Todo dia ele fala que tem o maior navio do mundo, o maior exército. Por que não fala que tem a maior capacidade de produção de alimento e que pode distribuir? Era muito mais simples.”
Sobre Gaza, Lula afirmou que a destruição do território, com morte de mulheres e crianças, agora é apresentada como oportunidade de reconstrução. “E aparece como se fosse algo exótico melhorar o lugar dos cadáveres das mulheres e das crianças que morreram.”
FAO
O presidente encerrou o pronunciamento com um elogio à conferência como a principal instituição multilateral ainda comprometida com a questão alimentar, em contraste com o que chamou de esvaziamento da ONU. Também fez um apelo aos países da América Latina e do Caribe, descrevendo a região como “a única zona de paz do planeta” e como uma das mais ricas em recursos naturais, historicamente explorados por potências estrangeiras.
“Quando tinha ouro, levaram nosso ouro. Quando tinha prata, levaram nossa prata. Quando é que nós vamos acordar para dizer que queremos, de forma soberana, dar alimentação para o nosso povo?”
O encontro contou com a presença de ministros, embaixadores e representantes de delegações de países da América Latina e do Caribe, além do diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.
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Rui Ribeiro
5 de março de 2026 12:27 pmEntão, John Lennon? Ninguém dá uma chance à paz. Imagine all the people living life in war